Zainne Lima Matos 
É poeta, contista, escritora e educadora. Autora de Pequenas ficções de memória, pela editora Patuá. Participou das antologias Jovem Afro, pela Quilombhoje, Raízes – Resistência Histórica, pela Coletânea Raízes, As coisas que as mulheres escrevem, pela Desdêmona, e Cadernos Negros, número 42. Nome promissor da literatura periférica e da literatura negra, vem ocupando espaços nos circuitos literários. Bacharela em Letras pela USP.

UMA JOVEM PROMESSA
 
Gota seca da preta
para Juçara Marçal

Joana? que Joana? me deixem logo sem nome, já que, em breve, o substituirão por “defunta”. chegar na minha casa a essa hora da noite e ainda reclamar do meu chulé? andei o dia todo com o pé no couro de jegue e quer que cheire a perfume? eu inteira estou fedendo. dos pés à cabeça. fez sol, choveu, esquentou, esfriou, teve ar condicionado, ventilador, fumaça de churrasco de gato, maconha, álcool, esbarrão de mendigo. e cheirar bem, na calada da noite? o cacete. meus pés estão cheios de feridas abertas que eu coço até sair pus. coço de ódio. e vai cheirar a quê? 


saí sem calcinha e veio a menstruação. tem isso, ainda. o cheiro de sangue escorrido. útero cansado que não pariu ninguém, nem vai parir. já desci uma centena de maldição sobre este órgão que me atrapalha a vida. esterilidade, câncer, mioma, endometriose, trombose. o meu útero é que não vai dar luz a filho de quenga alguma. desde que aquele branco maldito, fingido, sanguessuga me botou com a tal três letras miseráveis, DST, que o meu útero é o que mais odeio e mais quero matar em mim. toda a minha vontade suicida sendo peitada pela possibilidade de não só continuar com vida, mas multiplicar. que absurdo. para o caralho! não vou parir ninguém. 


vê se pode, fingir que me amava, me fazer esperar, mãos-atadas, enquanto ele fodia a apertada e rosinha? me enganar para arrancar matéria prima e escrever poema. para escrever poema! que as palavras que eu dizia eram bonitas demais. que ele precisa da minha dose de exagero no sentir para que seu coração batesse. que, sem mim, a existência não fazia sentido. desgraçado! me sugou até os fios de cabelos brancos que esperavam por nascer. me deixou nesse estado. se ouço qualquer grunhido esquisito, já me vem a voz dele dizendo que eu demandava demais, que ele não podia suprir as minhas necessidades. que eu era muito difícil de amar. e é isso, não é? como Joana. 


me amar é um inferno. eu sou um inferno. sinto demais, choro demais, fodo demais, escrevo demais. que, pelo menos, eu calasse a boca. se ele pisasse na bola, virava logo texto. que vire mesmo. faz anos e continua virando, pois a vontade de morrer, de me assassinar por causa dele, permanece em mim. cravada. e nem a arte consegue me lembrar que é necessário um tempo para o respiro. dou aulas às crianças ricas e, de repente, me surpreendo com o querer ser mãe. peguei ódio a babás. ser mãe de quem? para o Estado matar meu filho? eu não. 


nasci sozinha, cresci sozinha, ninguém me defendeu da violência e assim vai permanecer. ninguém ousaria tirar um pedaço de meu corpo dos vermes debaixo da terra para empalhar como lembrança, não é? não valho a pena; esta é a prova de que nasci pelada. não existe amor para mim. não serei mãe, meu útero está amaldiçoado pelo pão que o diabo consagrou – por isso mesmo, toda vez que o sangue se encaminha, meu corpo definha de dor. dói tudo. dói escrever, agora. vou caminhando pelas ruas segurando o ventre debaixo das mãos quentes, calejadas, cheias de verbos de estado, como se carregasse uma criança que matei antes de plantado o esperma. um ventre oco, duro, seco. um ventre que chora apenas com gemidos, sem lágrimas. um ventre fedido como os meus pés de couro de jegue. 


um ventre cansado, usado; uma mulher usada para a conveniência masculina. envelhecida pela falcatrua masculina. uma poeta apagada pela hegemonia masculina. e branca. porque amar uma mulher branca é mais fácil. o que ela demanda além de prazer? de gozar? comigo, vinham os traumas, as neuroses, as cobranças de séculos marcados com chicotes nas costas. comigo seria a própria queda após o precipício. colher água do deserto. eu amaria na mesma intensidade, caso o amor fosse para mim. contudo: Joana. 


Joana sim. este é o meu nome. sequer a arte possui o direito de trazer à tona o pus das minhas entranhas. a justiça não me alcança e não tem vontade de me enxergar. hoje eu não quero cheirar nem feder. a desafeição já é minha própria (e arquitetada) morte. aqui jazz um adeus.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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