Wuldson Marcelo
É corintiano apaixonado por literatura e cinema. Possui mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor dos livros de contos “Subterfúgios urbanos” (2013, Editora Multifoco: RJ), “Obscuro-shi: contos e desencontros em qualquer cidade” (2016, Carlini e Caniato: MT) e do infanto-juvenil “As luzes que atravessam o pomar e outros contos” (2018, Carlini e Caniato: MT). Escreveu e dirigiu os curtas-metragens “Se acaso a tempestade fosse nossa amiga, eu me casaria com você” (2015) e “A garota que existiu dentro de um mistério” (em pós-produção). É editor da revista virtual Ruído Manifesto.

QUARTA-FEIRA SEM CHUVA 

Melissa chega às dez da noite em casa, cansada. “Não dá tempo para ir ao bar”, pensa. Deixa as roupas pelo chão da casa, despindo-se devagar, como que abatida por leve tristeza ou vítima de um sossego preguiçoso. Entra no chuveiro, planeja permitir que as águas façam cócegas em sua nuca, mas a queda vem forte. Desisti. Olha os pulsos marcados. Sem dor. O calor faz-se sentir. Mesmo com o banho, não há alívio imediato. Procura o telefone celular. A quarta-feira a convoca para novas emoções. Verifica as marcas novamente, somem devagar. Caso abandone o celular sobre a mesa de centro, com certeza, não haverá vestígio delas no fim de semana. “Será que a moça está no bar? Foi embora?”. Reflete sobre as alternativas. Ir ou ficar.
Em um bar periférico de Cuiabá, Sandra aguarda a chegada de Melissa. Respira lentamente. Considera o lugar escuro, porém excitante. Vigia a bolsa aos seus pés, que está presa pela sola do sapato direito. Pensa na mulher que ainda não chegou e se o encontro será igual aos anteriores. Passa a mão pelos cabelos domados por um rabo de cavalo. Céu azul em noite quente, sem chuva. “Quarta-feira, dia ideal para despertar meu dragão imprevisível”, pensa. Sente-se ridícula. Depois imagina o êxtase.
O rapaz beija a namorada. “– É hoje, né, Israel? Toda a quarta-feira?”. A moça pergunta. “– Sim, amor. Sabe como é. São clientes especiais”. A jovem beija-lhe a boca ardentemente. “– Porra! Também terei uma noite daquelas. Verei aquele velho babão, do cassino clandestino. E, em seguida, o vereador”. Ela suspira. Israel a segura nos braços e a beija. “– Seja serena, Serena!”, diz, rindo copiosamente da brincadeira desgastada.
Melissa está no bar. O silêncio ainda não constrange as moças. Sandra sorri. Pensa na intimidade entre elas, e no desconhecimento que cada uma tem da vida da outra. Melissa bebe o vinho barato que lhe trazem. Deseja verificar o celular, ver se há recado de sua secretária. A reunião de amanhã será pesada. Quer esquecer o dia duro e o futuro de lutas diárias na empresa de seguros. Sandra mexe no rabo de cavalo, estuda os lábios de Melissa. Imagina que no dia seguinte perderá pelo menos trinta minutos da primeira aula. Quer ser arquiteta, viver na Argentina. Elas aguardam, conversam trivialidades: calor, trânsito, crescimento demográfico...
Israel se perde no caminho. Especula por quais motivos as mulheres mudaram o local de encontro. Sorri. Pensa no dia em que duas desconhecidas entraram em seu site e combinaram um ménage à trois com práticas BDSM. Três pessoas incógnitas até aquele dia, conhecidas tão somente pelos seus codinomes. Lembra-se que Melissa e Sandra solicitaram uma conversa privada e, de repente, lá estavam os três escolhendo lugares e como procederiam com os desejos em comum. Israel encosta o carro em frente ao bar. Percebe a animação das jovens. Inspeciona a mochila. Não esqueceu nada. Cordas para Melissa. O chicote que Sandra gosta de utilizar para dominar os insubordinados. Além do figurino típico: máscaras, corpete, arne, coleira + trela, botas. Desce do automóvel imaginando o quanto duraria esse triunvirato erótico.
Sandra tenta esboçar sentimentos de amor pelos parceiros de transa. No entanto, sempre se convence que é um negócio. Melissa considera que o contrato está muito bem firmado. Pensa que é possível viver assim por pelo menos mais três anos, até estar preparada para um relacionamento sério. Israel deseja se casar com Serena, e que o casal se aposente dos programas sexuais. Porém, teme que Serena goste demais do que faz. E que ele mesmo, ao ser chicoteado por Sandra na coxa esquerda, não consiga abandonar o prazer que retira dos apetites sensuais das garotas.
Melissa, ao retornar do motel escondido nas entranhas da Cidade Verde, verifica as novas marcas nos pulsos e sente os sinais que Sandra deixou em suas costas. Caminha até a geladeira e degusta o vinho do Porto que havia esquecido na geladeira. Olha o relógio, já é quinta-feira. Hora de dormir, para suportar o dia difícil de trabalho. Antes imagina se deveria repetir essas experiências também no fim de semana, com parceiros diferentes.
Sandra sai do banheiro e vai direto para o computador. Logo mais terá aula. Desiste de acessar o Facebook. Distrai-se fantasiando com Melissa amarrada em sua cama. Levanta-se, acende um cigarro, abre a janela e observa a madrugada florescer emoções indescritíveis.
Serena está deitada no sofá, adormecida, um ronco baixo pode ser ouvido. Israel a olha com tesão, vendo-a formosa em sutiã e calcinha vermelhas. Pensa como adora fazer sexo com a namorada ao amanhecer. Sorri e pensa que ela ficará feliz, se, ao despertar, tiver um belo café da manhã à sua espera e rosas vermelhas para animar o dia.

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