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Wuldson Marcelo
Corintiano apaixonado por literatura e cinema. Possui mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor dos livros de contos “Subterfúgios urbanos” (2013, Editora Multifoco: RJ), “Obscuro-shi: contos e desencontros em qualquer cidade” (2016, Carlini e Caniato: MT) e do infanto-juvenil “As luzes que atravessam o pomar e outros contos” (2018, Carlini e Caniato: MT). Escreveu e dirigiu os curtas-metragens “Se acaso a tempestade fosse nossa amiga, eu me casaria com você” (2015) e “A garota que existiu dentro de um mistério” (em pós-produção). É editor da revista virtual Ruído Manifesto.

TUTORIAL PARA EXTERMINAR COACHES

Porra, nem se conseguia mais ouvir uma música em paz no YouTube. Toda hora um sujeito surgia para ensinar como ganhar dinheiro rapidamente. “Mentalize e você será”, cuspia um sabichão que defendia ter o melhor treinamento e orientações para você realizar uma meta. Sim, v-o-c-ê.


Mas você sabe que detestava coaches e digital influencers. Pensava, “ah, raças de fracassados”. Baltazar discordava, mas Jessica concordava comigo. Era gente que não deu certo em alguma profissão e passou a acreditar que decifrou os mistérios do mundo, daí começava a gravar vídeo e dizia como alcançar o sucesso. No cotidiano, entre as quatro paredes da competição sangrenta chamada mercado de trabalho, eram peso pena enfrentando o campeão dos pesos-pesados.


Enquanto isso, eu sobrevivi. Sobrevivo. Apesar de ter morrido mil vezes. Sempre renasci. Mais um fracasso na conta? Sem problema. “Sacode a poeira e dá a volta por cima”. 


E vinha outro vídeo de exposição de um especialista no “o diabo a quatro” ou no “caralho a quatro”. Daquela vez, foi uma ex BBB, muito sarada, que se transmutou em nutricionista. Eu só queria escutar The crying game.
- Outro coach, né?


Baltazar perguntava, esforçando-se para parecer ingênuo. Claro, pois ele tinha certeza que ter vontade movia o planeta e evitava o naufrágio do Titanic.


No entanto, se no Titanic tivesse coaches, é garantido que não seria pecado lançá-los ao mar para ter espaços nos botes para as crianças e mulheres.


- Olha lá, um filho da puta se afogando.


Baltazar acreditava que a soma entre ambição e esforço provocava milagres. Eu não suportava essa ladainha. Amava o fracasso, ele tinha mais a ensinar.


Conversei com Baltazar e com Jessica de nós três criarmos um programa de incentivo para quem desejasse se motivar e se especializar em dar sumiço a coachs. 


- Começa com aquele CEO, master coach, headhunter, palestrante e escritor que tem um programa no YouTube.
Jessica jogava o primeiro na roda. Mas eu não sabia de quem ela estava falando. Não especificamente, já que havia milhares deles por aí.


- Qual? São tantos, não?


Baltazar começava a se entusiasmar. Ele pensava em ser o cameraman. “Assisto um tutorial”, decretou confiante. 
- Gravamos alguns vídeos detalhando como agir, planejamento, sequestro e execução.


Jessica, mais jovem que nós dois, mostrava-se também animada, com sangue nos olhos, ferocidade incontida.
- Pega aquele infeliz que era youtuber coach em relacionamento.


Jessica se pronunciou sabendo que selara o destino do safado, de um puto que havia sido detido por espancar a ex namorada. “Um infeliz deste se intrometendo na vida amorosa dos outros”, esbravejava, convicta que é possível fazer justiça com os próprios vídeos.


Eu terminei o café da manhã. Não antes de verificar o que aquela médium famosinha falaria sobre o meu signo. Aquário. “Amo a minha autonomia”, conciliei-me com a imagem que tinha de mim.


- Adriano, você é um poço de contradições. Ou melhor, um falso do caralho.


Jessica disparava contra a minha incoerência. A jovem também era taróloga e terapeuta holística. Ela dizia que era preciso ter um plano mental para a nossa vida prática. Jessica quase atirou o canivete, que guardava na bota do seu pé esquerdo, no aparelho televisor.


Planejamos – palavra-base de um coaching bem-sucedido – como desenvolver nossas habilidades – palavra-chave de um coaching bem-sucedido – para gravar vídeos de primeira linha. Não só a estética dos tutoriais, mas a eficiência das execuções dessas ervas-daninhas.


Apesar de tudo ser roteirizado rumo ao triunfo, Jessica se deixou tomar por uma sensação de estranhamentos: tutorial para exterminar coaches é um tipo de coaching? Se bombarmos nas redes sociais, catapultados para o sucesso, seremos digital influencers? 


A palavra se desenhou no ar e se multiplicou como um hóspede indesejado em um pesadelo: coach, coach, coach, coach, coach, coach, coach... o inferno na terra.


- Não vamos colocar a mão na massa. É isso?; questionou Baltazar, já acostumado com a ideia de explodir uma escola preparatória de coaches.


Eu estava inquieto, não tinha confiança na eficácia do projeto.


- Não é fácil apontar o caminho e motivar as pessoas a combater o avanço de seres lesivos e tóxicos; Jéssica sorriu. – Meu tio Alfredo é especialista em líderes e profissionais de alta performance.


Refleti na esperança de uma solução, pois não cogitava contratar um almofadinha para me ensinar a livrar-me de coaches. Porém, contratamos Alfredo Tavares, tio da Jéssica e um master desses fodões, reconhecido até nas profundezas do mar, nadando com tubarões.


Então fizemos nosso vídeo. O tal Alfredo tinha o lema “Foco é tudo” e o repetia exaustivamente. Parecia que tínhamos resgatado a nossa autoestima. 


Um dia, na verdade, em uma noite de sexta-feira, o vídeo foi postado no YouTube. Logo, os comentários negativos começaram a pulular. Apologia ao crime, palhaçada, coisa de retardados, terrorismo, as acusações não paravam. Zoeira never ends. Polícia Federal.


O tio da Jessica, o coach Alfredo Tavares, comentou estar desconfortável com a situação, por ter gerado tamanha indignidade. Ameaçou expor o processo de gravação, os nomes dos envolvidos.


Baltazar exultou, imaginando a fama: “Adriano, 565.845 visualizações e 17 mil curtidas e 254 mil descurtidas”. Um fenômeno. Uma aberração. O Brasil ama coaching? O Brasil ama violência?


O vídeo foi retirado da plataforma de compartilhamento. A polícia rastreou o IP e encontrou a lan house. O cerco, o circo. Prevaleceu para nós, uma luz no fim do túnel, e, para eles, um beco sem saída.


“Ensinamos como degolar um coach”, suspirou Jessica, “Mas com determinação e elegância”. O tal Alfredo era bom mesmo. 


Digital influencers do mal. Boa manchete. Perfídia. É uma palavra que seus companheiros de profissão poderiam lançar no rosto do Alfredo. Ela suava e ensaiava entregar tudo. 


Tutorial para exterminar coaches. Até com cicuta. E uma bazuca. Coisa séria. Um pouco de zoeira never end.
“Você tem dimensão do crime de vocês, Jessica?”. O master coach Alfredo Tavares suava.


A culpa. O horror. Ele experimentava um sentimento que fustigava a alma, e eu sentia algo incomum. Uma colossal certeza, algo mil vezes mais forte que o aço.                                                                        

                       
Eu disse para Jessica, “Chegou o dia!”.


Alfredo não chorou e nem implorou. Assim, até fez parecer que coach possuía dignidade. Ele só estava perplexo com a sobrinha. O método: afogamento. Um corpo no rio. Baltazar queria usar a Taurus Hammer .380 ACP do pai policial.


Sim, nós colocamos em prática o que queríamos ensinar a terceiros, futuros revolucionários. Tudo graças a um master coach.


De Jessica, só sei que chegou a tentar exterminar o youtuber especialista em relacionamento que tanto a irritava. Falhou! Ela sumiu no mundo. Baltazar se envolveu em uma briga de bar, tinha a Taurus do pai na cintura. Faltou-lhe ser rápido no gatilho. Sempre tem alguém mais preparado do que nós. Eu permaneço uma pessoa comum, que carrega seus fracassos, aprendendo o possível para não se entregar no próximo baque.


Salvamos nossa sanidade? Não. E muito menos livramos o planeta da loucura. Ainda hoje as plataformas de compartilhamento apresentam vídeos de coaching e pessoas sonham em ser digital influencers. 


Brasil, 2030. O vídeo “Tutorial para exterminar coaches” é uma lenda urbana, como filmes snuff e cidadãos de bem.