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Wuldson Marcelo
É Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT) e graduado em Filosofia (UFMT). Autor dos livros As luzes que atravessam o pomar e outros contos (Editora Carlini & Caniato, Cuiabá, 2018), Obscuro-shi – Contos e desencontros em qualquer cidade (Editora Carlini & Caniato, Cuiabá, 2016) e Subterfúgios Urbanos (Editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2013). Já organizou duas antologias de contos e poemas: Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: Literatura na Cidade Verde (Editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2013) e I Prêmio Rodivaldo Ribeiro de Literatura (Editora Carlini & Caniato, Cuiabá, 2021). Além disso, é cineasta, roteirista e foi curador da Mostra de Cinema Negro de Mato Grosso, de 2017 a 2020. É um dos editores da revista virtual de arte e cultura Ruído Manifesto.

ASSINATURAS NEGRAS: 
DIVERSIDADE E POTÊNCIA DE VIDA

A gente combinamos de não morrer”. A convocação no conto de Conceição Evaristo data de 2015. Hoje, pela velocidade da informação e a massificação das redes sociais, o juramento, que ganhou ao seu início a frase: “Eles combinaram de nos matar”, pode ser advogado como um clichê pelos defensores do status quo e do politicamente incorreto, que perpetuam os diferentes níveis de desigualdades existentes no Brasil, mas é, na verdade, a voz dos excluídos, um pacto coletivo que nasce no coração da periferia, que pulsa por justiça e reconhecimento, e se torna ressonante no cotidiano de negras e negros Brasil afora. Eu existo e quero viver... Sobreviver!

Se o racismo no território verde-amarelo dos “cidadãos de bem” é estrutural, na literatura é profundo, pois falamos em silenciamento e em ensaios contínuos do genocídio e do branqueamento. Nesta perspectiva, pensar em produção literária de autoria negra está para além do racismo, ainda que concebê-la seja inextricável da discriminação de origem étnico-racial e da violência sistêmica. É indissociável do racismo, pois sabemos que a nossa juventude negra é exterminada em um suposto combate ao tráfico e ao consumo de drogas, é vítima do abuso policial e da brutalidade de seguranças em supermercados e shoppings (mortos por asfixia) e o pobre e o preto, o preto pobre, são os que mais morreram/morrem pela pandemia da Covid-19, seja pela falta de acesso à saúde, seja por políticas públicas inexistentes ou deficitárias.
O termo racismo já apareceu aqui três vezes. É a nossa mais genuína preocupação? Deve tomar o primeiro plano, ser como um assunto reinante entre negras, negres e negros? Não nos resumimos às nossas dores, mesmo que tão presentes, frutos da escravidão, do colonialismo, de um abolicionismo concebido para o abandono e de um estado de coisas que mantém o preconceito atual – os preconceitos estão sendo sempre atualizados, como uma besta-fera nunca alimentada o suficiente. É preciso ir além do racismo na criação artística, literária, em nossos temas e indagações.
Porém, como defende bell hooks, em Olhares negros: raça e representação, “Sem uma forma de nomear a nossa dor, nós também não temos palavras para articular nosso prazer. De fato, uma tarefa fundamental dos pensadores negros críticos tem sido a luta para romper com os modelos hegemônicos de ver, pensar e ser, que bloqueiam nossa capacidade de nos vermos em outra perspectiva, nos imaginarmos, nos descrevermos e nos inventarmos de modos que sejam libertadores. Sem isso, como poderemos desafiar e convidar os aliados não negros e os amigos a ousar olhar para nós de jeitos diferentes, a ousar quebrar sua perspectiva colonizadora?”. Ultrapassar a marginalização, a ideia de literatura de nicho, da validação a partir de narrativas que apresentam tão somente fome, miséria e preto explodindo cabeça de preto. Escapar do bloqueio que nos foi imposto. Das estatísticas, e escolher “ser um ser estético”, como canta Djonga.
Uma palavra muito bonita da língua portuguesa é potência. Sempre a ouvi sendo proferida como forma de elogio de negre ao trabalho, criação ou obra de outre negre, mas no uso do adjetivo “potente”. E ser potente é demonstrar poder, se revestir de coragem e de medo e lançar ao mundo uma voz que querem calada. Todo ato de rebeldia, todo grito de existência contém em seu DNA a coragem e o medo, opostos que não se descolam e se retroalimentam.
Por isso, quando se pensa em literatura negra, curadoria recebe um dimensionamento maior no que tange à cura, no sentido de zelo e de cuidado, pois é um cuidar dos nossos, refletir sobre representatividade para além da representação. É ancestralidade, caminho e percepção do futuro. Selecionar, organizar e montar voltado à afronta às práticas   artísticas institucionais que serviram/servem ao apagamento e à brutalização dos afetos negros.
E, como uma curadoria também é formada pelas ausências, não temos alguns dos principais nomes que também romperam as barreiras do elitismo editorial e, em muitos casos, dos pré-conceitos dos jurados e pareceristas sendo destaques da literatura brasileira nas últimas décadas. A lista é enorme e ecoa uma qualidade imensurável: Conceição Evaristo, Oswaldo Camargo, Cuti, Geni Guimarães, Ana Paula Maia, Edmilson de Almeida Pereira, Jeferson Tenório, Paulo Lins, Elisa Lucinda, Cristiane Sobral, Plínio Camillo, Esmeralda Ribeiro, Ryane Leão, Ronald Augusto, Jarid Arraes, Férrez, Eliana Alves Cruz, Bianca Gonçalves, Bianca Santana, Lívia Natália, Carolina Braga Ferreira, Fátima Trinchão, Júlio Emílio Braz, Stephanie Borges, Akins Kintê, Elizandra Souza, Geovane Martins, Kiusam de Oliveira, Mel Adún, Daniela Rezende, Fábio Kabral, Mariana Correia Santos e outres. Mas não é disso que se trata, de procurar quem falta e assinalar “poréns” devido a não presença. 
A digressão é para mostrar o quanto de autoras e autores negros temos neste país. São nomes a pesquisar, conhecer, ler, reler e recomendar. 
Esta curadoria não pensou em um tema específico, constituindo-se no final em 22 poetas, 9 contistas e 3 ensaístas, que, inclusive, revelam e afirmam a intenção de apresentar a diversidade temática da literatura negra contemporânea, do que se produz no Brasil. São assinaturas negras.
E por que não assinatura? Justamente pela ideia de não se tratar de uma unidade formal, forçada/inventada, ou de um “universo temático” restrito a um assunto, uma preocupação. A literatura negra é também literaturas negras. Assinaturas negras, subjetividades que nos trazem a beleza e a resistência de uma irmandade, de um coletivo. Ubuntu: eu sou porque nós somos!
Deste modo, seja por serviços prestados, seja pelo futuro, as autoras e autores que aqui estão são memória e apontam o porvir, os nossos devires. Ancestralidade, realidade e utopia. Denúncia e amor. E consolidam a pergunta “quem tem medo da literatura negra?”, que ajuda a questionar o mito da democracia racial e da miscigenação, um salvo-conduto para a extensão da barbárie colonialista, que consegue manejar apagamento e apropriação cultural com a mesma destreza e falta de caráter.
E a grande dúvida que se instala é: implodir o cânone ou reivindicar a presença de Carolina Maria de Jesus, Luiz Gama, Lima Barreto, Adão Ventura, Cruz e Sousa, Maria Firmina dos Reis, Ruth Guimarães, Abdias Nascimento, Carlos de Assumpção, Oliveira Silveira, Joel Rufino dos Santos, entre outros? Será essa uma dúvida relevante? Por ora, acredito que seja, na verdade, uma preocupação da branquitude, que se apega à frase “não jogue o bebê junto com a água do banho”, quando alguém contesta a racionalidade ocidental e, com isso, os privilégios e as exclusões na vida social (alguns nomes foram citados para integrar o cânone, então, há drops espalhados nesta edição com trecho da literatura delas/ deles, que serão chamados de “Reverência”, considerando como são tratados em África os mais velhos, dentro de uma tradição que traz responsabilidade e respeito, por serem os legítimos transmissores da palavra ancestral).
A população negra tem suas urgências, como lutar por dignidade em um país racista e manter o combinado de não morrer. A literatura de autoria negra tem também suas urgências, como combater a necropolítica e reivindicar o respeito e o reconhecimento de nossos afetos e corpos, dizendo um sonoro “não” a sua brutalização, exploração e objetificação.
Um salve ao meu parceiro Rodivaldo Ribeiro, que, infelizmente, faleceu em julho de 2020. Homem negro e periférico, idealizador do site de arte e cultura Ruído Manifesto. Rodi presente!
Marielle vive!
E vale sempre lembrar: Machado de Assis era negro.