Willian Vinicius Cavalcante Fernandes
Nasceu na cidade de Juína – MT em 1996, ao longo da sua vida artística participou, no ensino fundamental, da confecção e redação do livro “Tudo é Poesia”, o qual contém suas primeiras poesias. Também participou da em 2013 da 10ª edição do FETRAN (Festival Estudantil Temático), na qual atuou como Narrador/Velho John na peça “Entre o Amor e a Imprudência” (de Brendha Ponciano), sendo indicado e vencendo a categoria de melhor Ator Infanto-Juvenil da Etapa Teles Pires – Sinop-MT. No ano seguinte, participou da 11ª edição do FETRAN – ETAPA Guaporé – Pontes e Lacerda-MT. Atualmente cursa Direito na Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Cuiabá.

SPIKE

A tarde de sexta-feira se estendia naquela metrópole brasileira, já era fim de expediente estendido ao horário de verão que passaria a noite, mas com o céu que ainda se dizia de dia. A porta do apartamento abriu e o seu morador entrou carregando em sua mão esquerda diversas sacolas e na outra que abriste a porta foi a mesma que fechou. Correndo de um, dos dois quartos, ao som do barulho que fizera a porta, veio um cãozinho de pequeno porte da raça Pinscher, pesado uns 4 à 5 quilos, de 15 cm de cumprimento, com uma altura de 25 cm até a cernelha, corpo preto que se misturava a um branco estendendo-se do traseiro até o pescoço onde uma nova cor, o marrom, se misturava as outras duas e se esticavam juntas até o seu foucinho preto. Chegou perto do morador, o pobre cão que pulava três vezes mais alto que sua própria altura em volta de seu dono latindo com alegria a sua chegada de mais um expediente, e ficava ao redor a pulos e pulos cada vez mais altos a medida em que seu dono lhe chamava pelo nome. 


- Spike, Spike, Spike.


Abaixou-se então o dono à altura do cachorro para lhe fazer um carinho na cabeça que pelo cão foi bem recebido. Levantou-se a postura anterior e dirigiu-se até a cozinha que se juntava a sala sem divisão chamada de cozinha americana, pôs as sacolas que carregava sobre a mesa. Spike, esperto de tudo que era, subiu em cima do sofá com curiosidade de ver o que havia nas sacolas, esperava que de umas delas o seu dono lhe desse alguma guloseima como era acostumado a fazer todo dia, mas dessa vez foi diferente, das sacolas saíram coisas que seu dono nunca comia, eram frutas, legumes, vegetais, granola, essas coisas lights que dizia os humanos. Comida estranha era aquela, havia algo de diferente, e realmente tinha. Seu dono a partir de agora mudava a alimentação tão repentinamente, passaria a comer algo mais saudável, eliminaria de suas refeições todos aqueles hambúrgueres, batatas fritas, refrigerantes, empanados e seus derivados de frituras que se chamavam Fast Food e que tanto estava acostumado a ingerir e a dar pedaços a Spike. Tudo isso aconteceu a pedido da médica que o diagnosticou com colesterol alto acima do normal, ocasionado pela sua obesidade. Além da alimentação, ordenou que caminhasse meia hora todo dia, e foi isso que fez. 


Após guardar suas compras, tirou da última sacola uma caixa com um tênis novo para ele, uma guia e uma coleira para Spike. Decidiu que o levaria para fazer companhia em suas caminhadas, colocou-lhe os apetrechos que o cachorro estranhou, afinal nunca haviam o metido numa coleira, ainda mais, nunca tinha saído para passear ou caminhar, o que era o caso ali. Seu dono o tomou pelo braço, pois não se permitia a circulação de animais pelo prédio. Tomaram o elevador e saíram pela entrada do prédio. Assim que pisaram na calçada, seu dono o pôs no chão para começar a andar até o parque que era a cinco quadras dali. Spike ficara doido com a coleira, mordia a guia e puxava com toda a sua força para tentar se soltar daquilo, coitado, era seu primeiro passeio, era normal estranhar aquilo que seu dono lhe pusera para o controlar. 


Por onde andava, Spike ficava atento a todo barulho, aos carros que na rua passava, as pernas das pessoas que iam e vinham na sua direção, tudo era novo para aquele pobre cão que tinham as orelhas esticadas ao alto no máximo que lhe era possível, queria ir atrás de todo aquele barulho que escutava, tudo era recente a ele. Algo infernal, aquele som de transito misturado com o falatório de pessoas nos pontos de ônibus e nas calçadas, atormentava o coitado do cão que nunca ouvira tamanha confusão em seus tímpanos. O apartamento onde seu dono morava era totalmente sedado ao barulho, apesar de Spike ter crescido no prédio, que de fora era a mercê deste turbilhão de sons, de dentro do apartamento os únicos sons que Spike escutava era o abrir da porta e o que a TV fazia. 


De repente chegaram ao parque, Spike se sentiu mais calmo, agora era sua visão que lhe chamava tamanha atenção ao ver tudo aquilo que chamavam de parque. Seu dono se pôs a caminhar na pista que era de concreto, na lateral direita era tudo da grama mais verde que já havia visto, ia Spike por ela andar guiado pelo seu dono que segurava a guia. A cada 10 metros uma árvore e uma lixeira que o cão cheirava e com instinto que sentia levantava uma das pernas traseiras e se colocava em tudo aquilo que era vertical a urinar, já lhe faltava esse líquido em sua bexiga para cada local ele marcar, pobre cachorro, que aquele lugar para ele era desconhecido. Houvera nascido em uma fazenda muito distante da cidade, aos dois meses de vida fora separado de sua mãe e da natureza, posto como algo despejado em uma vitrine de um Pet Shop de um Shopping da grande metrópole Cuiabá, tabelado a um valor de compra a espera de alguém para lhe comprar. Até o dia que seu dono de fora da loja o viu e o adquiriu para lhe fazer companhia. Agora, aquele homem branco e gordo de um metro e sessenta e seis, solitário, depressivo, com 31 anos que dedicou tanto a sua carreira de economista, nunca teve esposa e nem filhos, era Spike sua única família. E assim, o cão foi para o seu novo lugar morar com seu dono em um apartamento de 31m² no décimo oitavo andar de um dos mais luxuosos edifícios do centro norte da capital. Spike tinha de tudo naquele apartamento, uma cama quentinha, comida, água e todo o conforto que quisera um cão, porém não tinha a liberdade que outros cães tinham de correr sem barreiras, pular, brincar e de sentir a chuva e o sol, mas agora, Spike estava no parque e sentia como era a vida fora daquele apartamento. Voltou a ver e reconhecer a natureza que era reproduzida naquele parque imenso, sentia o sol e a liberdade de andar sem barreiras, exceto pela guia presa na coleira que o prendia. Contudo, após certo tempo de caminhada seu dono concedeu a liberdade para Spike andar sem ser guiado, desprendendo a guia da coleira, deu ao cão a liberdade de dar seus passos, desde que ao seu lado, que continuou a caminhar. O pobre cachorro se mostrou comportado, andava ao lado do dono, as vezes com passos mais adiantados, outras vezes com passos mais atrasados. Cheirava tudo por onde passava, a grama, as lixeiras, as árvores, os bancos, as luminárias. Era uma festa de cheiros ao seu olfato que automaticamente por seu instinto reconhecia tudo aquilo. Mas de repente Spike se adiantou mais do que devia, deparando-se com um cachorro sete vezes maior que ele, pôs-se a ataque com fortes latidos contra aquele outro que veio com tamanha brutalidade como quem quer matar. Seu dono ao percebe toda aquela cena, foi ao seu encontro e o tomou pelo braço. O coração de Spike batia descontroladamente como se quisesse por sua boca sair. Se afastando daquele lugar, seu dono o colocou novamente ao chão, todavia, a guia já estava de volta em sua coleira. O pobre cachorro sentiu-se triste e preso novamente pelo seu dono, suas orelhas se abaixaram como se sentisse que não poderia andar livre novamente. Após alguns minutos seu dono percebeu que ele já não era mais o mesmo de a poucos minutos atrás. Para Spike que sentiu a liberdade voltar para aquela guia era o pior castigo do mundo. Então, para o ver alegre novamente, o seu dono o soltou, e a pulos Spike correu indo e vindo na direção do dono. Tudo era festa mais uma vez, a liberdade era sua alegria. O tempo daquela caminhada foi passando, quando se viu, já havia passado os trinta minutos de andança. O dono de Spike o chamou, quando ele voltava um lagarto passou em sua frente na carreira, o cão por instinto se pôs a persegui-lo desenfreadamente pelo parque, pobre Spike, não sabia que aquele réptil era mais rápido do que ele, mas também, nunca havia corrido atrás de um lagarto em sua vida, aquele era o seu primeiro. Enquanto isso, seu dono corria atrás chamando pelo seu nome, mas Spike estava encantado por aquele animal que rastejava em grande velocidade e enfeitiçado não escutava seu dono o chamar. O cão correu até o lagarto sumir pelo parque a fora, cansado, ele desistiu de sua perseguição voltando o caminho perseguido atrás do cheiro de seu dono, andou cerca de trinta metros e o viu esticado ao chão, Spike correu desvairadamente em sua direção, chegando, o lambeu com a maior alegria, como se estivesse agradecendo ao dono pelo passeio, mas ele não se mexia. Spike percebeu que algo estava errado e começou a latir, pessoas que ali também caminhavam viu o homem caído ao chão, correram até lá na esperança de poder entender o que acontecia, o dono do cachorro estava esticado com o corpo gelado, imediatamente ligaram para emergência que a poucos minutos ali chegou. O pobre cachorro estava desesperado, seu dono não respondia aos seus latidos. Mais ainda ficou ao ver os socorristas o levarem em uma maca para uma ambulância que saiu em alta velocidade que o pobre cão não conseguiu acompanhar nem na metade do parque. Seu dono morreu a poucos quilômetros dali. Ele havia sofrido um AVC quando correu atrás do cão para impedi-lo de pegar aquele lagarto. O sol descia no horizonte e a lua já apontava no céu, enquanto o pobre cão no parque latia como quando foi separado de sua mãe. Agora Spike era um órfão que ganhou a liberdade para viver aquele mundo fora do seu apartamento, mas ir para onde quando não se sabia nada? Decidiu ele que ficaria à espera daquele que não voltaria mais.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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