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Walesca Cassundé
Nome literário de Walesca de Araújo Cassundé, cuiabana, residente em Campo Grande-MS. Formada em direito pela FUCMT. Advogada por opção e criminalista por vocação. Poeta por catarse, libertação física e purgação espiritual. Em março de 2017, lançou “Confissões Essenciais”, pela Ed. Gráfica Ruy Barbosa.

MEMÓRIAS


(Em memória de Francisco Cassundé Ferreira)

É  seu moço, a vida teve sobressaltos, aperreios, sofrimento e lágrimas. Ôxe! E como! Só porque sou macho  não tenho direito a um xororô? Pois eu lhe digo, cabra:  Deus tirou meu colo aos sete anos! Desde então fiquei sem pai nem mãe, eu e mais nove irmãos .

Os mais velhos, logo  se largaram no mundo. Pedro mesmo, não se sabe se é vivo ou morto; se deixou descendência, ninguém sabe. Ouvimos dizer que foi pr’os lados da Amazônia, atrás de trabalho nos seringais . Nunca mais deu notícias. Quanto a mim,  fui criado na casa das irmãs mais velhas e dos cunhados. Mas depois que servi o exército logo arrumei um lugarzinho num  pau de arara para o sudeste maravilha. Fui morar com um sobrinho no Rio de Janeiro - Luiz, filho de “nieta”, casada com Raimundo Silvino. Ele mesmo não ficou não. Rumou de volta pro Cariri.  A saudade era tanta, seu moço! Mas  São João  não me deixou arrefecer, - nem meu  Padim.   Aliás, lembro de uma festa de São João.  Lembro como se fosse hoje. Sem  nem um bocado de alfinim amufambado em casa,  fui pra rua ver o povo cantar e dançar.  Entao olhei para a imagem dele  e supliquei -  valha-me meu São João ; levantei do banco agoniado e tomei o meu  beco , olhando para os sapatos. Não andei muito e encontrei um bom dinheiro jogado no  chão! Eita que foi o melhor São João que passei na vida!  Estudei um bocado e logo arrumei trabalho. Fui contratado pela Porto Seguro. Trabalhei uns bons anos lá.  Minha família, embora sem muitos recursos, era   muito procurada por políticos na época de eleição - boa de voto! Então um político do meu estado me indicou para um cargo na Receita Federal. Era no governo do Getúlio.  E não é que fui nomeado? A sorte e a proteção de São João e  meu padim sempre me acompanharam, além do mais, nunca fui homem de rejeitar trabalho! Naquele tempo não precisava de concurso não; mas nem por isso deixei de cumprir minhas obrigações.  Após a nomeação para a Receita Federal me mandaram para o Mato Grosso [ - uma lonjura de dar medo], pra fazer um estágio. Ainda não tinham dividido o estado e o Mato Grosso era bonito de ver. Na Receita, trabalhava uma morena de olhos agateados. Arengueira que só!  Eita que fiquei foi arriado logo que a vi. Era moça de família tradicional, sobrinha e neta de políticos locais.  Pois não é que a minha estrela brilhou de novo? Casei com ela e tivemos três filhos - uma menina e dois moleques. Com a divisão do estado, decidimos  criar nossos filhos em Campo Grande, sabe como é , estado novo, mais oportunidades. Vivemos juntos quase 60 anos , na verdade, 59 anos e 8 meses. É arretada a morena, mulher de fibra, pantaneira de Mimoso, distrito de Santo Antônio do Lewerger. Trabalhamos juntos na Receita e assim criamos nossos filhos. Eles cresceram, formaram-se e os meninos se casaram. Sempre que encontrava alguém conhecido que perguntava por eles dizia , todo pabo, que formei os três  - minha filha é advogada e pós graduada, meu filho mais velho, engenheiro  civil e  meu caçula se formou em farmácia e bioquímica.

Vivi quase noventa anos, honrando a fama de bom humor de todo cearense. Mas se  chegava numa casa qualquer e não ouvia o barulho de panelas na  cozinha me lembrava logo dos tempos de penúria.  Fui feliz. Nunca me afastei de meus princípios. Não esqueci de onde vim. Embora tenha demorado muito para voltar ao Ceará,  quando lá estive , quase 50 anos depois de minha partida naquele pau de arara, fui ao Juazeiro visitar meu padim e agradeci a ele tudo o que me ajudou a construir.  Hoje voltei para a casa do Pai. É, seu moço! Foi uma longa caminhada! Fácil não foi não; mas consegui vencer! Eita vida pai d’égua!