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Olga Maria Castrillon-Mendes 
É professora do Curso de Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso/UNEMAT, dos Programas de Mestrado Profissional em Linguagem/PROFLETRAS e Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários/PPGEL/UNEMAT. É Sócia Efetiva do Instituto Histórico e Geográfico de Cáceres e da Academia Mato-Grossense de Letras; Líder do Grupo de Pesquisa “Questões históricas e compreensão da literatura brasileira” (CNPq/UNEMAT/2002). Integra os Grupos: RG Dicke de Estudos em Cultura e Literatura de Mato Grosso (CNPq/UFMT). É autora de Taunay viajante: construção imagética de Mato Grosso (Cuiabá: EdUFMT, 2013) e Discurso de constituição da fronteira (www.unemat.br/publicações/e-book, 2017), além de artigos em periódicos e coletâneas nacionais e internacionais.

VIVER, ESCREVER E MORRER?

Qual o limite entre viver, escrever e morrer? Pode não haver respostas, mas travessias. Nas inquietações sobre a vida, a literatura se confunde com o real visível, adentra-se em teias pelas interinidades e extrapola na osmose da criação, cuja matéria circundante se abre para deixar a poesia habitar. Se há dissimulação total ou parcial, cabe ao leitor negá-la ou não. Tem a ver com o mecanismo do olhar que nasce nas fendas do estranhamento, nas veredas em formato de suspeitas desafiadoras. O poeta viola o normal, embrenha-se pelas implicaturas de olhares transversos. Na indeterminação da vida, a morte é a grande (e cruel) metáfora e fica na escritura do pulo no vazio, no cósmico da representação do mundo onírico em que a dimensão de um novo real está em permanente construção. É um vir-a-ser em campos de infinitas combinações e surpresas, fina sintonia que conduz o poeta à admiração pelo que pode ser vivido/observado. Um rastilho de fôlego/fogo a que se entrega o poeta, maquinando desejos, escolhas, apreensão do contemporâneo mundo cindido.


O fenômeno viver/morrer, portanto, é complexo. Envolve muitos atores e setores. Inscreve-se no dilema da escrita. Quem escreve deseja dividir com o outro a urgente pulsão quase sobrenatural em lacunas que movem e desafiam o leitor, um refazedor dos textos.


Pela materialização do imaginário ou pelos devaneios, liberdade, desejos ou experimentações, o processo criativo é uma estratégia de enfrentamento e fator de construção de identidade. Necessidade ou satisfação; trabalho ou feitura artística; criatividade ou autonomia; resistência ou contato com o coletivo, escrever pode estar carregado do desejo de sair de si para projetar-se? O fascínio e o deslumbramento é o olhar da solidão que é essencial à criação. O tempo da escrita é o do continuum da experiência de um tempo sem tempo, em que o passado anseia por um presente que se esvai e um futuro que se determina pelo que será lembrado. Eros entregue a Thanatos, a vida nos braços da morte, tornando-se promessa de imortalidade. O que resta é a deusa-mãe da Poesia e da Memória, presas do canto da sereia. Assim, o jogo da criação se realiza num campo de hesitação, dos riscos de lançar-se. Sentimentos viajantes, errantes, como os de Marília Beatriz, cuja voz é da interinidade consciente da finitude. A morte, então, é aventura e obsessão entre o viver e o escrever. O viver de véspera, ou antes mesmo.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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