Vasco Farrusco Mendes Águia 
Nasceu em Lisboa no ano de 1997. Durante o ensino secundário desenvolveu o gosto pela geologia, que o fez entrar para o curso de Engenharia Geológica e de Minas no Instituto Superior Técnico em 2015. Para além de se ter aventurado no escutismo durante vários anos, tem um gosto especial pelo alternativo, que se estende pelo campo da música e ganha contornos nas linhas poéticas que quer trazer cá para fora. Já quis ser cientista, futebolista, mas nunca pensou em escrever poesia, até ao dia em que nasceram os primeiros versos no “canteiro” da sua adolescência. Semente é o seu livro de estreia.

DIA BOM​

Olha pela calada
sem dar tréguas a um laço
sedento em unir duas margens
que se sentem tocar,
mas que não se tocam,
por somente sentirem,
que ao tocar, se tocam.
 
Fá-la sentir-se perto sem perto se chegar,
fá-la amar sem pensar
em sequer pensar em amar.

DESEJO

 

Espreita pela greta,
sorrateiramente…
e num ápice,
volta lentamente
a mim, a ti e aos demais
que deixaram a vida
para viver,
verdadeiramente.
 
Esconde porque consente.
Sente com alma
e por isso esconde,
delicadamente.
 
Caem lamentos
do tempo de outrora,
tempo de beijos sedentos,
de um dia sem hora.
 
E o tempo muda
quando as folhas caem,
para que a alma se sacuda
de desejos que não saem.
 
O vento, outrora teve de ser o vento que não quis.
E quem lhe dera nunca ter sido
se não uma brisa feliz.

É CEDO

 

É cedo para tudo.
É tarde porque um dia foi cedo.
E até ser tarde não foi nada.
E quando foi tarde era tanto!
 
Foi cedo um dia
porque tardar era o pulsar de tudo.
Deixa ser tarde, mas deixa ser.
Só é tarde até deixar de o ser.
 
E depois vais cedo demais…
deixou de ser tarde.
Deixou de ser cedo.
Deixou de ser.

ERRO

 

Língua crente
que ascende e se dissolve,
que cria e se move,
ansiosa de viver.
 
Lábios quentes e carnudos
que ondulam de viver,
que se vestem de prazer,
e nus se beijam, sem querer.
 
Brilha a chuva
para se ver:
espelho d’alma
no meu ser.
 
Correm ventos de madrugada
e cedo lavam corpo insonso.
Mente a leste, desnaturada.
Frio de morte percorre o osso.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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