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Valdeire Verneque Dias 
Nasceu em Cáceres, MT. É professor, poeta e palestrante. Tem Graduação em Letras e Mestrado em Estudos Literários pela UNEMAT. As suas pesquisas concentram-se nas literaturas africanas de língua portuguesa e afro-brasileira. Os poemas do autor apresentam aspectos lírico-amorosos, e político-sociais que problematizam as exclusões e desigualdades raciais (étnicas) e sociais no Brasil e no mundo. Tornou-se representante nas discussões e apresentações culturais com temáticas da negritude nas Instituições de Ensino e nos meios de comunicação da sua região.

MORTE DA PERIFERIA

Meu filho, cuidado!
Não abre o portão ainda.
Olhe bem pra sua roupa. Repare o penteado. Troque de calçados. 
Verifique todos os documentos.
Não deixe nenhum de lado.
(Apesar de que, às vezes, não há tempo pra se identificar).
Leve a fotografia 3x4 como diz Belchior.
Há perigo na rua e os guardas estão na esquina.

Meu filho, cuidado!
Sua jaqueta. Seu relógio. Seu cartão de crédito. 
Não leve o da sua mãe, apesar dos sobrenomes serem iguais.
Quem é do subúrbio, da periferia viverá à margem.
(A utopia acabou).

Na periferia se morre porque é da periferia: dos becos, dos morros, das vielas, das ruas de chão batido – poeira e lama.
Se morre quando está nas baladas, no cruzamento, na avenida, na porta do hospital, no quarto da sua casa, no aconchego do seu lar.
Se morre porque é pobre, é negro, é periférico.

Se morre de bala perdida ou asfixiado, estrangulado.
De verba roubada da construção de hospitais, de escolas, de assistência social.
Morre por retrato-falado, morre enganado – pode ser músico, catador de lixo, pedreiro, construtor da própria casa.

Se morre na viatura da polícia, e é desovado no matagal.
Na ambulância porque não há leito pra internação.
Se morre porque parece com arma de fogo a sua ferramenta de construção.

Na periferia se morre...
E vai morrendo aos poucos porque as etnias marginalizadas estão a morrer.
Quanto vale um indígena?
E as “arrobas” de um quilombola?
E a nossa miscigenação?

Na periferia se morre de fome, de ferro, de frio.
Se morre de chumbo.
Se morre de solidão, de depressão, de angústia por não saber o que será do amanhã.

Na periferia se morre antes de nascer
porque a ultrassom não registra isto ou aquilo, 
o serviço de atendimento não funciona,
a maternidade está cheia,
porque a mãe é pobre, é negra, é periférica. 

Da periferia se morre no centro: no shopping, no cinema, na perfumaria.
Morre porque está no lugar errado: porque é pobre, é negro, é periférico.

Na periferia, da periferia
um pouco de mim está morrendo
porque não consegue respirar.

Meu filho, cuidado!
Estou a te esperar no portão. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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