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Tônio Caetano 
É escritor, especialista em Literatura Brasileira pela PUCRS e servidor público municipal. É filho de Virginia e Armindo, cresceu correndo com os seis irmãos pelas lombas da Vila Vargas, periferia de Porto Alegre. Autor do livro Terra nos cabelos, Editora Record, Prêmio SESC de Literatura 2020 na categoria Conto, e do livro Sobre o fundo azul da infância, Editora Venas Abiertas, Prêmio Academia Rio-Grandense de Letras 2021 na categoria Narrativa Curta. É uma pessoa em busca da própria voz, do seu lugar na luta que cabe a cada um diante da realidade, da página em branco e de si.

SOBRE O FUNDO AZUL DA INFÂNCIA

Pipa — aquela de papel de seda, vareta produzida por alguma máquina, rabiola colorida que lembra as bandeirinhas de São João e colocada no ar com linha de pesca — era só para quem podia pagar. Para nós, o negócio era pandorga feita de sacola de mercado, vareta de taquara cortada com faca de serrinha e rabo — não rabiola — de tiras de roupa velha. E a linha? A linha é que era o problema. 
Um dia, Edmundo disse: 
— Eu sei como a gente pode descolar a linha. 
Já nos olhamos pensando em quanto ia custar. O Edmundo era o mais velho de nós. Sabia de tudo, principalmente onde descolar as coisas de que se precisava. E fazia fiado, sempre havia alguém devendo para ele. “Descolar” era uma palavra perigosa, principalmente quando cochichada depois de uma olhada disfarçada para os lados. Assim, a gurizada se aproximou, e ele desenrolou a fita; aliás, a linha: 
— Vamo roubar uns varal. 
— Varal de roupa? — alguém perguntou. 
— Isso, mas tem que ser novo. 
Sim, eu roubei. Mas… não tem “mas”, eu sei. Só que naquela época as brincadeiras na vila eram por tempo. Se você não brincasse, perdia; o tempo da brincadeira passava e começava uma nova — taco, osso, bolita, carrinho de rolimã, carteira, polícia e ladrão — e já era a vez da minha pandorga. 
Alguns desistiram. Saímos os quatro, Edmundo, Teco, Bola e eu. Tentando não dar muito na vista, entramos em dupla no mercado. Depois entendi que havia uma ética: não se roubava em venda ou mercadinho. O negócio era de mercado para cima. Supermercado nem se fala; o Carrefour tomou muito tufo nas rodas dos carrinhos de compras, na época da bolita e do carrinho de rolimã. Mas esta é outra história. 
Antes de entrarmos, Edmundo disse: 
— Os varal ficam no fundo, bem embaixo na prateleira dos sabão e dos pano de prato. 
— Vô pegá uma cestinha pra disfarçar — Bola garganteou. 
— O segurança vai te dá com a cesta na cabeça — Teco falou, se rindo. 
Não entendi por que os mais novos foram primeiro, e o nervosismo aumentou quando Bola pegou uma cesta. Estavam lá, bem na parte de baixo da prateleira, os varais de roupa. Baratinho, mas ainda assim distante das moedas que eu tinha no bolso. Quando Bola, alucinado, começou a encher a cesta com sabonetes e a me encarar com os olhos arregalados, como quem diz “pega logo essa merda!”, eu, com as pernas bambas e o suor coçando atrás da orelha direita, olhei para um lado e para o outro e, rápido feito quem acha dinheiro na rua, enfiei dois varais na cueca. Nem vi o que Bola fez com a tal cesta. No momento em que pisei fora daquele mercado, minha vontade era de sair correndo até em casa.
Agora não havia mais volta. Eu tinha ultrapassado um limite. Isto não saía da minha cabeça, enquanto Bola e eu ficamos na rua atrás do mercado, esperando o Edmundo e o Teco buscarem o varal deles. Aqueles minutos duraram horas, e mais horas ainda, a caminhada de volta às pandorgas. 
Mas então o encanto aconteceu: nunca tinha imaginado como um varal era feito e agora aprendia a desfiá-lo, “desvaralá-lo”. De linha em linha, puxando e esticando, desfizemos cada um o seu. O fio solto, com muitos nós, emendava-se no outro e ia sendo enrolado num toco de madeira qualquer e formando o rolo. A minha pandorga era amarela, feita de uma sacola de fruteira cheirando a cebola; o rabo, de tiras da camiseta que minha mãe me trouxe da doação na igreja e que eu odiava. Subimos o morro das antenas desbravando o terreno ainda sem casas entre ramos de marcela e a coceira que as mutucas davam nas canelas. 
Pipa tinha cara de parque, beira da praia, criança branca correndo com o pai tentando “empinar”. Pandorga tinha cara de topo de morro, de pele negra e cabelo crespo, de amigos bem longe dos pais. Enfim, pandorga não se empinava, pandorga se soltava. 
— Aqui tá bom — Teco disse. 
— Sai pra lá, alivia um pouco — mandou Edmundo, com uma cara séria, demarcando seu espaço no topo do morro. A minha amarela cambaleou no começo, mas depois que arranquei um pedaço do pano do rabo se equilibrou e pôde ganhar o céu. Tudo tão fácil, tão natural como o entrar e o sair de uma idade, como o passar do tempo de uma brincadeira ao de outra. Difícil definir aquela sensação boa de dominar a pandorga e ir desenrolando a linha e sentir que respondia a cada comando, como uma extensão de mim: eu começava no chão, com os pés no marrom empoeirado da terra, e terminava lá no azul limpo do céu. 
Feito vento, tudo mudou tão rápido; Bola jogou a pandorga dele lá no céu num ataque certeiro contra a minha. Edmundo e Teco riam enquanto puxavam suas pandorgas enrolando rápido a linha. O amarelo agonizava, se debatia no azul feito peixe novo a aprender na carne o que é anzol. Bola deu mais uns puxões e a minha linha perdeu a força, a pandorga foi à baía, despencou para longe frente a meus olhos apavorados. Tive vontade de bater nele, fazê-lo chorar na frente dos outros, mas sem pensar desci o morro na direção em que o vento levava a pandorga. 
Corri. Não sei se chorava, não sei se pisei num cacto bolinha, daqueles com flor amarela que eu pretendia levar de presente para minha mãe quando descêssemos o morro. Corri até perceber que não adiantava mais correr. A pandorga se abraçava feito aqueles tênis pendurados pelos cadarços nos fios de luz. E tremia de forma barulhenta com a ação do vento a enredar-se ainda mais. 
Quando meu pai chegou do trabalho, não foi fácil: ele sabia de tudo. Chorei pela surra, pelo jeito que a minha mãe me olhou, por começar a entender que ele tinha informantes na vila e tudo de errado que eu fizesse durante o dia, de noite acabaria naquele tipo de choro que ultrapassa as paredes da casa e faz os vizinhos rirem. Mas esta também é outra história. 
O amarelo barulhento ainda estava lá lutando contra o destino no outro dia. Todas as manhãs eu passava por ali a caminho da escola e, num tempo impreciso, veio o desbotar da cor. Amarelo sem amarelo é mais triste sobre o fundo azul da infância. E, então, restaram só as varetas, um esqueleto seco, feito esse passado que ainda volta, principalmente quando perguntam se já roubei na vida.