Tita Martinuci
Jornalista e revisora de texto, com conhecimento em diagramação de revistas e jornais.

FLUXOS

É bem verdade que ando meio perdida por esse canto da cidade e já me acostumei com a possibilidade de não encontrar um sorriso sincero nessas noites tão iguais. Talvez eu tenha perdido a fé ou algo tenha morrido dentro de mim. É que a minha rota repetida tem me tornado tão confusa, que já não sei o que é dia e o que é noite. Tudo não passa de tempo gasto em frações, onde tentamos encontrar saídas para nossos labirintos particulares, e eu me perdi por aqui há muito tempo. Já nem saberia te dizer o quanto, tanto que meus olhos já se esqueceram de como é o mar, mas eu ainda posso sentir minha alma ser liberta por suas ondas. Ainda posso sentir a brisa leve contra o meu rosto, mas já não lembro da sensação de ser banhada por suas águas. Já não sei mais o que é ouvir o mar arrebentar na beira da praia e o que antes era melodia suave para meus ouvidos, hoje não passa de um fiapo de lembrança preso pela memória.
A brisa daqui não me encanta, é tão pesada que mal consigo respirar, sou sufocada por essa rotina massacrante. O relógio caminha sempre em um ritmo tão acelerado que é difícil controlar o tempo, logo ele marcará oito horas novamente e eu terei que despertar para o mundo, ainda não consegui pregar os olhos. Não existe mais ninguém por aqui, todos se foram, só me restou o eco das risadas pelos cômodos, ressoando em meus vazios e eu vagando por entre essas paredes. Ninguém poderia imaginar a luta que travamos aqui, eu e a solidão.
A neblina pesada e escura da noite logo vai dando lugar a um dia cinza, bem no horizonte é possível ver algumas faixas de luz penetrando a densa camada de ar. Eu só consigo lembrar do nascer do sol à beira mar, a luz amarelada do nascer do dia se misturando ao azul do mar, tornando suas águas esmeraldas raríssimas. Minha pele ainda salgada, molhada e arrepiada com a brisa fresca, posso me sentir novamente abraçada pelo novo. É tudo tão majestoso de frente ao mar. Tenho todas essas sensações vivas dentro de mim, como se fossem hoje, como se meu corpo ainda repousasse sobre a faixa de areia fina daquela praia no fim da trilha. É engraçado que, mesmo em dias pesados como hoje, com tudo que não me deixa dormir e em meio a todo esse caos, essas lembranças funcionem para mim como meu colete salva-vidas.
Faz frio, às vezes a vida pode ser muito clichê. A única coisa que pode me aquecer agora é um copo de café, mais um clichê. Meu corpo dói e eu já nem saberia dizer o porquê, talvez reflexo de noites mal dormidas e do excesso de álcool. Seria até engraçado dizer agora o quanto tenho bebido, é sempre o caminho daqueles que ficaram pelo caminho, um modo de aliviar a dor de não se encaixar em nada e tudo que já fiz nessa vida para me adaptar a normalidade foi em vão. Não há barulho mais ensurdecedor que o ecoar das nossas falhas.
O relógio da cozinha marca sete da manhã, o dia se revela melancólico. O mundo corre apressado lá fora, pessoas a caminho de mais um dia de trabalho, indo para mais um dia de rotina e eu aqui, absorta por minhas próprias ilusões. Em alguma época, cheguei a acreditar que tudo daria certo, como se toda a ânsia de me achar pudesse me mostrar um caminho seguro. Sonhava ter a liberdade de dançar minha própria melodia, não esperava ser conduzida pelo ritmo massacrante da cidade. Talvez, minha inocência tenha sido sufocada junto com os amores que carrego em meu peito. Ou tenha perdido o meu lugar no mundo e hoje me perceba agarrada às lembranças, como se elas pudessem me manter viva. E eu que pensei que tinha o mundo nas palmas das mãos, me vejo sem pertencer a nada, entregue a mais completa solidão.
Um dia, já quis conhecer o mundo, sonhava ser mar e acordar cada manhã em uma praia. Novas paisagens, novos rostos, um mundo de descobertas pela frente, um caminho de infinitas possibilidades. Eu era outra, tinha mais vida, mais cores, queria ser infinita, hoje só quero que tudo acabe antes das oito e não falta muito. Não é tristeza, sabe, nem desespero, é o completo nada, o vazio do meu reflexo frente ao espelho. Eu perdi meus sonhos, presa nesse canto da cidade, nesse quarto/sala, acorrentada a coisas que não me comovem, já não sei mais como faço para achar o meu caminho de volta, nem como fui colocar todos os meus sonhos trancados dentro desse apartamento.
Já são oito, é hora de tentar sair desse labirinto. A água quente desce queimando meu corpo, despertando o pouco de mim que ainda estava adormecido, uma última olhada na paisagem pela janela do banheiro. É só concreto e cinza, já tenho certeza do que não me prende aqui. Recolho o pouco que pretendo levar comigo, algumas roupas, fotografias velhas, meu velho diário. Tranco à porta desse mundo, como se a partir de agora tudo que habita entre essas paredes não fizesse mais parte de mim. Não sei para onde irei, não tenho estradas pré-definidas, hoje só preciso me encontrar com o mar e me libertar em suas ondas.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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