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Thiago Costa 
É historiador. Faz doutorado em Estética e História da Arte pela USP. Autor de “O Brasil pitoresco de J.B. Debret ou Debret, artista-viajante” (RJ, 2016) e organizador – ao lado de Ariadne Marinho – de “O jardineiro de Napoleão. Alexander von Humboldt e as imagens de um Brasil/América (sécs. XVIII e XIX)” (Curitiba, 2019). Docente do IFMT – campus Fronteira Oeste/Pontes e Lacerda. 

OS ANIMAIS SELVAGENS

Necessidades de vertigem 

[...] pensou, pois, após o gozo, afastando com um movimento brusco de cabeça as fantasias inconfessas. Masturbava-se com insistência, fixação, amiúde, como uma obrigação, toda manhã, para esquecer que era homem. Delírio. Tinha necessidades de vertigem. Ato desvairado debaixo do chuveiro, sobre a cama, em lugares remotos, obscuros, oculto, escondido, dentro de si, fora de si, em alheamento. Sem gratificação. Nenhum arremedo de deleite ou contentamento. Apenas sucessão mecânica de gestos sem erotismo. Catártico. Depois o choro, antes o vômito. De pernas trêmulas. De olhos fechados. Era pior nos dias tristes, quando saía para a noite buscando amortecer a dor. Ia dormir querendo morrer e sonhava estar morto. 

[...] pensou, pois, ao recolher o papel com que limpava o gozo de entre os dedos, da superfície das coisas. 

O menino que criava ratos

Eles caminham como se fossem um só. Braços dados. Agarram-se um ao outro para suportar a dor. A solidão. Eu não os vejo. Pressinto. Sinto a presença ostensiva dos seus corpos no espaço. O hálito de menta e canela, o suor repartido. A respiração constrangida pela intimidade partilhada. Eu, sem amor, apenas observo. Olhos cerrados, escuto. Palpitação, palpitações. A declaração dos amantes não interessa, eu quero os abandonos. 

Folhas da primavera

Após alguns minutos, ansioso, resolveu se sentar. Narcisos sob sol. Aspirou com força o perfume no ar. Sorriso nervoso. Era tímido. Olhou o relógio, olhou ao redor. O frescor do começo do dia, de princípio de mundo. Logo, entardeceu. Sorriso mudo. Um céu escarlate se abriu. O rapaz anoiteceu a esperá-lo. E quando já não era mais capaz, constrangido e cheio de perdão, pensou que talvez ele fosse se atrasar.