Thiago Costa

É historiador. Faz doutorado em Estética e História da Arte pela USP. Autor de “O Brasil pitoresco de J.B. Debret ou Debret, artista-viajante” (RJ, 2016) e organizador – ao lado de Ariadne Marinho – de “O jardineiro de Napoleão. Alexander von Humboldt e as imagens de um Brasil/América (sécs. XVIII e XIX)” (Curitiba, 2019). Docente do IFMT – campus Fronteira Oeste/Pontes e Lacerda. Vencedor do primeiro Prêmio Pixé de Literatura, na categoria prosa.

O TRATADO DA ESFERA

Amarrou o pai no tronco da árvore baixa. O corpo fraco, amolengado, quase morto, pingando sangue, fedendo sangue e carne de porco, tendendo para o lado. A corda estica. Braços e pernas atados, presos pela corda grossa de laçar boi. Sol ardente, congregação de incêndios, coagulando o sangue no chão. Final de setembro, tempo limite da plantação, da formação de novos pastos. Tempo limite da estiagem, da seca braba, que adiante era a chuva. Ainda se lembravam da grande tempestade, enxurrada de 666 dias e noites que desfez garimpos, fechou fazendas, tocou gente, matou bichos. Por isso, desde antes do nascer do sol o filho menor e o pai gradeavam a terra, violavam o chão bruto, força bruta, dividindo as áreas para o gado, para a plantação e a colheita. Viam já as serrações surgindo e se dispersando nas morrarias das divisas dos sítios bolivianos, nos fundões de Vila Bela. Logo mais era a chuva. Então o pai e o filho derrubavam a mata, abriam picada, sulcavam o terreno para as sementes novas, sementes de capim-africano, trazidos pelos ancestrais do pai do interior das florestas da antiga Abissínia. Sol em brasa, calor de braseiro, o sangue coagulando no chão. Sangue grosso.


“Não”, disse, resoluto e firme, o filho menor, como quem enfrenta onça com zagaia, ao velho pai, mateiro velho, que comia manso nos sombreados dos largos ipês. Ipês coloridos, de flores odorosas, diversas, variadas. E esperou. A resposta do pai, sentença de suprema lei, excedia no sagrado as Sagradas Escrituras. Foi assim com o irmão maior, foi assim com as irmãs, as gêmeas, Sara e Rebeca. Seria assim com os outros, com todos os outros, pela eternidade. 


Devia de ser igual gado. Já matara porco e galinha, boi nunca, nem gente. Matar o pai devia de ser igual matar boi. Já vira antes, os homens das fazendas matavam, contavam histórias, ouvia as histórias. Viu quando o pai matou o boi da carranca preta de nome Judas Cariótis. Com golpe de marreta no bojo da cabeça, entre os chifres, a língua para fora, o boi tomba, convulsiona, rasga-se o pescoço com faca de gume apurado, lâmina alta. Degola bem degolado, deixa o sangue correr. Nos frigoríficos da cidade a morte era quase instantânea, quase indolor, nas regiões civilizadas, onde o sangue era lavado para não encardir o chão, não amargar a carne. Nos sítios distantes era diferente, nos ermos profundos que tocam a Bolívia, na densa mata profunda do misterioso país do Mato Grosso, longe dos homens civilizados, a morte era diferente. Já viu fazer. Primeiro atira o laço, amarra o chifre, afasta o escolhido do resto do rebanho, tira do pasto, leva para a cancha, local de morte e sacrifício, as novilhas sentem, gemem, se agitam, os bois mugem, inquietos, o escolhido se move, perturbado, arisco. Tem presságios. Defeca. Cheiro de estrume, de bosta, de defunto. Olhos vagueando, muge, inquieto. Estaca um instante, a marretada, o golpe, o sangue no chão. Cheiro de sangue. Os olhos fixos, negros, negríssimos, afundados na carranca preta, manchada de vermelho, do sangue, grosso, escumoso, que escoa do golpe certeiro, buraco que abre o pescoço ou o peito, para sangrar, lavrando a terra, para morrer, lento, devagar. 


 “Não”, disse, resoluto e firme, o filho menor, irmão menor, ao velho pai, mateiro velho, que comia. A mão segurando a enxada, a camisa empapada de suor e ansiedade. “Não”, disse. E aguardou. 


 “Tu não sabes nem um terço da metade do meio de tudo que se há de saber. Da vida e do além-vida, do mundo e do inframundo. Dos seres errantes como nós, índios e pretos. E com o assassínio do pai, teu velhíssimo pai, o sabedor de muitas coisas, tu saberás ainda menos”. Disse, afetada e rouca, ajeitando-se na relva, no sombreado fresco dos pés da seriguela, perfume doce, de fruta doce, ajuntando mosca. Desgraçada, pensou o irmão. Índia chiquitana, comprada menina, duas garrafas de pinga e um sacolão, criatura predestinada ao extermínio, ao aniquilamento. Comprada pelo pai com as mesmas idades do irmão maior, na época do garimpo, antes do dilúvio, tempestade apocalíptica. Ignorante da vida, pensavam, inocente de quase tudo, pensavam, foi casada com o irmão maior que o irmão maior estava no tempo de casar, menino homem, moço crescido, de pegar novilha no laço, pelugem rala surgindo com a promessa de bigode. Desgraçada, pensou o irmão, cobiçoso, desejoso, salivando, espumando. Igual ao pai. Fechou a mão de calos duros, de feridas antigas, de cicatrizes recentes, socou a mulher, que rodou, caiu, compreendendo já as ocorrências seguintes, os atos profanos das fomes masculinas, a violação. “Tu és um maldito e não sabes. Não sabes nem um terço da metade do meio de tudo que se há de saber de tudo que existe ou que existiu”, e cuspiu o sangue que se aglutinava na boca, entre os dentes. 


O calor, o sol, ampliando-se, o céu, pesando nos horizontes. Finais de setembro. A camisa empapada, umidades de suor e sangue. Amarrado na árvore baixa, pingando, o pai, descorando. Devagar, respira ainda. Observa com olhos vermelhos o desespero do filho. Filho gerado nos matagais assombrados de Abissínia, que arrancou com as próprias mãos do ventre da esposa, a mãe, e lavou nas águas escuras divinizadas do rio, de águas frias, durante a noite, na madrugada. Filho derradeiro, benjamim, dádiva dos deuses e dos espíritos, que consagrou ao eterno no instante exato do tempo em que mergulhou sua cabeça pequena de recém-nascido nas águas escuras do rio, curso de águas divinizadas. O velhíssimo pai. Respira com lerdeza, para dentro, em condições de passagem, de transmigração. Aspira o sangue que vaza do corpo, fatigado, coagulando ao sol, sangue que entra pelas narinas, pelos cantos engordurados da boca, borbulha, desce pelos olhos e o rosto fundo, preenchendo sem pressa os espaços pulmonares, afogando.


“Teu crime é hediondo”, “Serás amaldiçoado”, “És um maldito”. Disse, nua ainda, ajeitando o corpo largo entre as flores e os caroços da seriguela, as folhas secas do capim, corpo doído, surrado, marcado pela gula criminosa do menino homem, remanescente último da linhagem ancestral do velho pai, o antiguíssimo. Lembrou do marido, casada à força em tempos remotos, varão enfermo, menino débil, vagueando solitário nos seringais além do rio das águas escuras, além dos domínios da fazenda Serra Negra e dos restos arqueológicos da extinta vila Presença de Deus. Arrancou com pequenos dedos tortos o resto do gozo alojado no meio de si e limpou as mãos na terra batida, nas folhas mortas da seriguela. “Seu nome será esquecido, desprezado pelo todo-poderoso”, disse, nua ainda, com a voz baixa, fitando o chão, as raízes expostas, os vermes subterrâneos. O irmão menor ouvia, “hediondo, ignóbil, obtuso”, não entendia, ria, acompanhava com os olhos, indiferente, satisfeito, alheio. Pitou um cigarro. Estava completo.


Em pé, além da frescura sombreada dos ipês que se alargam sobre os terrenos do pai, o filho menor espera. O pai, acocorado, em silêncio, comia. O filho, hesitante, ansioso, aguardava. O pai, em silêncio, come. O filho menor, em pé, aguarda. As palavras do velho pai, mateiro velho, saído de lonjuras obscuras, estiradões distantes, a mãe dizia era de Exu, a mãe dizia que seguiu rumo sem saber porquê, um dia se foi, deixou Exu, sol no lombo, pés descalços. Chegou nos fundões das divisas dos sítios bolivianos antes da Grande Chuva, hecatombe de águas, o dilúvio de 666 dias e respectivas noites que arrastou os garimpos da vila Presença de Deus. Chegou antes mesmo da formação da fazenda abandona Serra Negra, antiga Três Irmãos. O pai viu tudo, silencioso, testemunha dos apocalipses. Um vai-e-vem de almas sebosas, de fantasmas, de coisa-ruim. O pai via tudo, sabedor de muitas coisas, mateiro velho, silencioso, com os olhos fundos cravados na fundura do rosto ossudo, sulcado, acumulando idades, poeira, solidão. O irmão menor, em pé, observa. Aguarda com ansiedade, consumindo-se pela expectativa do voto, a determinação fundamental que devia de ser definitiva, cumprida de imediato. As tralhas prontas, preparadas com antecedência, guardadas na cova cavada bem antes. O pai, preto velho, outrora tão forte, imponente, enfraquecendo, derruindo, em ruínas já, agachado sobre os joelhos, comendo com as mãos os pedaços de carne suína banhados na gordura, as mãos engorduradas, sebentas, o óleo escorrendo pelos dedos, nos cantos da boca, gotejando no chão. O pai comia em silêncio. Mastigava. E o filho ouvia o barulho da mastigação, da mandíbula que saía e voltava ao lugar. Manso, sob a sombra dos grandes ipês, sereno, o pai, ao largo da terra gradeada e semeada, aberta para as chuvas do verão, come, solene, querubínico, maior que todas as grandezas, sabedor de tudo que existe. O irmão menor espera. Escorado na enxada fincada na terra. Quietude sem tamanho, disforme, que ecoa, ressoa nas imensidões, silêncio que crescia, multiplicando-se, se expandindo, silêncio que gruda na pele, transpõe os poros, impregna os ossos, embrenhando-se por dentro, ferindo, dilacerando. Só o barulho da mastigação, a gordura, o óleo do porco, camadas de silêncio e escuridão. O sol crepita, vapores sudorosos, incandescentes, o calor, a quentura, o pai mastiga, a mandíbula se move, estala, boca gengivosa, desdentada, gotejando gordura, o pai apodrece, mutismo impenetrável, mudo e podre, comendo com as mãos ossudas, no isolamento dos desterros, exílio do tempo, indeterminável, o pai apodrece sob o sol, sob a luz que atravessa a folhagem dos enormes ipês, ipês coloridos, de flores odorosas, coloridas, variadas. Suava, o irmão menor suava, e o mal apoderava-se dele, penetrando as fendas do corpo, apoderando-se. As mãos calosas, frias, o peito palpitava, a barriga fria, palpitava, ardia. O pai come. Só o barulho da mastigação, da mandíbula saindo e voltando ao lugar. Moscardos alados, de asas abertas. Um zunido. Fracções de segundo. O filho observa, o pai come, hesita, mãos encardidas, de sebo, de gordura, de terra. Longos segundos. O Assum Preto pia, augurando. A longa espera, a longuíssima espera, sem terminação, sem limitação, que não se conclui, que se prolonga, em eternidades, em instantes eternos, o irmão aguarda, o filho espera. E desespera. O Assum Preto voa. Olhos torvos, como os das vacas golpeadas de morte. O corpo pendeu para trás. Revirou os olhos para ver, céu sem nuvens, o sol, tentou falar, lançar feitiço, maldição, balbuciou, um fio de sangue correu do alto da cabeça, no meio dos olhos, nas narinas, entrou pela boca, desceu o queixo. Boca aberta, de pragas, de matéria suína mastigada, de salivas gordurosas. Engasgou, tossiu, caiu. O tombo, língua para fora, convulsiona. Logo mais viria a chuva. O sangue na boca, nos olhos, no nariz, no chão, encardindo os espaços ao redor. A morte, lenta, devagar. Precipitação. O golpe não foi certeiro. Passou o laço pelos braços e pernas, arrastou o corpo pela mata, nas proximidades do barracão, lugar da consumação das carícias rançosas do pai e as mulheres da casa. Mãos presas por trás, o corpo pende para frente, a corda estica. O pai gagueja, balbucia, quer falar, engasga. É tarde. Um fio de sangue escorre da cabeça de cabelos brancos, flui entre os olhos, entra pelas grossas narinas, no canto ensebado da boca, borbulhando, preenchendo as fissuras interiores do pai, cumulando os vãos pulmonares, asfixiando. 


O irmão menor fuma. Contempla as esferas primitivas, de movimentos primordiais. A perfeição. Era completo. Um proscrito. Na juventude frequentava as irmãs, as gêmeas, Sara e Rebeca. O pai também, sabia, adivinhava os atos de fornicação do pai. Velho descarnado, tomado de bolor, frequentando carnes alheias, carnes de rapariga nova, proibida, a mulher do irmão maior, o velhíssimo pai, de ossos fundos, de carnes mofadas, vencidas, antes eram as filhas, as irmãs, as gêmeas. A mãe morta fazia tempo, tanto tempo que nem se lembravam mais. Nuvens no céu, o dia escurece num repente. A chuva, o fim, o precipício. O pai fita o irmão menor, olhos fixos, negros, negríssimos, cravados na cara preta. Matar o pai era como matar boi, igual o boi de nome Judas Iscariotis. E com a morte do pai, estava completo, cumpria o seu destino. Era agora um satanás, um lúcifer, um belzebu, um artesão maligno pleno de malignidades. Abominação, aberração, criatura suprema, diabo da Abissínia. Era agora um criminoso, era agora Deus. 


O pai agoniava amarrado na árvore baixa, olhos exorbitados, em agonia. O irmão menor urrava, rugia, animal das florestas, criado nas matas antigas, entre bichos e espíritos antigos, besta selvagem, Belial, serpente demoníaca. Cão de alma sarnenta, de muitas cabeças. Ladrava, gania. Urrava. Para os interiores, para os exteriores. Índia desgraçada, roncava, úmida, molhada, preenchida, lasciva, babando no órgão baixo do irmão menor, que conquistava o mundo, escalava a serra de Ricardo Franco, o morro de Santo Antônio, os paredões dos Guimarães, dos Parecis, rei dos matagais, dos pastos, das moscas, das almas encardidas, da danação, senhor das fronteiras, do céu, do infinito, decifrador dos segredos cósmicos, dos códigos solares, astrais, o Arquimedes, arauto do Todo-Poderoso, o próprio Todo-Poderoso, sabedor das delícias proibidas, dos caminhos proibidos, dono das encruzilhadas, dos entroncamentos, tinha a chave dos labirintos, dos trechos abissais, curava as curas, propagava as doenças, doutrinador dos sapos e das rãs, sabia o idioma secreto das víboras peçonhentas, ressuscitador dos defuntos, dominador da vida e da morte. Igualara-se ao pai, velhíssimo pai, o sabedor de muitas coisas. Era agora maior que o pai. Era grandioso, misericordioso, era bom. Anjo obscuro, portador da luz da ascensão, um pecador. O pai, moribundo, afoga devagar, aspira o sangue que desce da ferida aberta na cabeça, sangue que escoa pelas paredes da garganta junto com a gordura branca da carne de porco. A mulher do irmão maior geme, silenciosa, olhos fechados, sublima a dor, aprendeu a ser forte, e o gozo abarrota seus vãos, suas pernas, suas coxas de carnes moles, balouçando no ar, pernas abertas, recebendo os gozos do irmão, escorrendo blocos de gozo do irmão menor, parente do marido, ausente, débil, vagueando solitário pelos seringais distantes. 


Meteu o dedo por dentro da camisa embostelada, de sangue e terra, e coçou o umbigo, sujo, malcheiroso, fundo, como fazia o pai quando estava satisfeito. E sorriu. Sorriso igual ao do pai. Dentes brancos, caninos, manchados de café e açúcar, na cara preta. O sorriso se alargando numa risada muda, para dentro, como se não houvesse fora, zonas exteriores, além do corpo magro, puído, pequeno, de aparência de grandes fragilidades, de enormes violências. Em tempos de antigamente o pai coçava o umbigo. Satisfeito. Olhava em silêncio os pastos, as divisões da roça, os animais do sítio, o corpo envergado das fêmeas da casa, nuas, quietas, esfoladas, marcadas, de arranhão, de fúria, preenchidas. Acariciava a barriga descarnada, sobreposta de fomes, trazida dos caminhos tortos de onde viera, só a mãe sabia, o dedo indicador da mão calombosa pousada no ventre. Assim ia. Remansoso, paciente. Fumando. Imóvel. Tudo via, tudo sabia. Até que da profundidade das rugas brotava a carranca, eclipsando os espaços, sombreando as sombras, e o sorriso morria na ponta da boca. Nesse instante, suspenso no interior de si, transitava entre os planos, os abismos, esconderijos secretos dos entes divinos, pantanal, cerrado, Amazônia, em perpétuo transe. O dia preteja, a mata escurece. Adiante era a chuva. Estava completo. Era agora maior que o pai. Animal em plenitude, umbroso, de plena decadência, em contínua desagregação corpórea, constante involução seráfica, morfologia ameboide, omnitudo.

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