Theresa Hilcar
Mineira de Lagoa da Prata, é jornalista e começou a escrever crônicas no Jornal Correio do Estado onde trabalhou durante quase duas décadas. Tem seis livros publicados: O outro lado do peito; Teresa toda terça; No trem da vida. No fundo do poço não tem mola e o mais recente, A crônica dos quatro.

MADEMOISELLE, POR FAVOR

Qual o critério que as pessoas usam para chamar alguém de senhora? Enquanto faço a pergunta, lembro-me da época em que inúmeras pessoas reclamavam quando eu me dirigia a elas como tal. Foi preciso chegar aos 60 para, finalmente, entender o quanto é realmente aborrecedor ser chamada por esta, digamos, denominação. No dicionário, a palavra senhora designa maneira formal de tratar uma mulher casada. Já senhorita, que é pouquíssimo usada, serve para tratar pessoas jovens e solteiras. Se depender do dicionário, eu, por exemplo, não me encaixo em nenhuma denominação. Na França, a questão no trato diário com senhoras e senhoritas é rigorosa. Por madame entende-se uma mulher casada, mas não necessariamente mais idosa. Mademoiselle, claro, tem estado civil de solteira, mas a senhorita pode ter 90 anos ou mais. Deve ser por isso que gosto tanto daquele país. Lá serei sempre mademoiselle e ponto. 


Quando levei a questão para algumas amigas, houve quem lembrasse a tradição brasileira de “respeito” aos mais velhos, como ensinaram nossos pais. A professora é sempre senhora, não importa a idade que tenha. Outra amiga disse que o que chateia mesmo é ser chamada de tia, hábito muito comum na maioria dos estados brasileiros. Sinceramente, não me importo. Até gosto quando os amigos dos meus filhos continuam me chamando de tia. Acho carinhoso. Mas que fique claro: apenas os amigos e amigas. Gente estranha na rua chamando de tia é realmente um horror! De Dona, então, nem se fala! 


Sei que muita gente pode achar natural, e nem se importar em ser tratada com essas abomináveis denominações. Eu me importo. E discordo que seja sinal de respeito. Prefiro demonstrações de delicadeza em gestos. Como, por exemplo: escutar com atenção o que falamos – e não fingir interesse –, parar de ignorar pedestres na rua; melhorar as calçadas; atender de forma mais educada e prontamente – porque o tempo urge –; praticar gentileza e paciência, principalmente quando não somos tão rápidos quanto gostariam. E, por favor, não nos olhem como se nunca fossem envelhecer. Porque vão. E tomara! 


Também não preciso que ninguém me lembre que não enxergo direito, e que sempre demoro para ler as letras miúdas porque preciso tirar os óculos da bolsa. Eu sei disso. Como sei das minhas limitações tecnológicas, embora me esforce diariamente para aprender coisas novas. E é claro que meu corpo já não é tão ágil quanto há 20, 10 anos atrás. Nem a memória. Meu HD está quase lotado. E não é fácil fazer o backup de um equipamento tão delicado quanto o cérebro. Por isso, demoro um pouco para lembrar nomes ou rostos. Mas, e daí? Não vejo nenhuma justificativa plausível para continuar sendo chamada de senhora. 


Porque senhora é, sim, um carimbo! E aqui no Brasil significa exatamente isto: você é velha. Uma idosa. Alguém que não é mais útil, que já passou do tempo, que está apodrecendo de maduro. Uma pessoa desinteressante, que não acrescenta nada mais à tão cultuada jovialidade. E, por favor, não me venham contar histórias de velhinhas que fazem piruetas, ou que acabaram de se formar na faculdade, ou coisa do gênero, como se a velhice estivesse apenas na nossa cabeça. Não está. Mesmo você se achando a rainha da cocada, todos vão lhe chamar de senhora. Mesmo que você implore de joelhos que não o façam. Talvez a única solução seja morar na França e ser mademoiselle para sempre. Voilà!
 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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