Thata Alves
Ou Thayaneddy Alves – é escritora, autodidata e artista multimídia, transita entre vídeo, performances e poesias. É autora de Em Reticências e está trabalhando no próximo livro, cujo título provisório é Ascenção. Precursora do Sarau da Ponte Pra Cá, é mãe dos gêmeos Bryan e Brenno, que já dão os primeiros passos na poesia e declamam poesias autorais ao lado da mãe nos saraus aos quais vão. Para difundir a palavra escrita, criou objetos poéticos, como pequenos espelhos, em formato de bottons, com trechos de poesias e artes gráficas. Thata também é militante de questões raciais. Inspirou uma coleção de roupas da marca Tendência Urbana e teve o rosto estampado em várias peças da grife. Também estrelou uma peça publicitária de vídeo da Dove, sobre cabelos cacheados. Thata Alves também é membro do coletivo Sarau das Pretas, onde atua com poesia, música e resgate da ancestralidade há 1 ano. Além disso, participa e propõe espaços de discussão realizando trabalhos em parceria com os coletivos Praçarau, Fala Guerreira, Casa de Cultura Candearte, onde realiza a produção cultural e a comunicação da casa e Cantinho de Integração de Todas as Artes (CITA).

MÃO PRETA

Tijolo posto
Por ordem de um arquiteto,
Mas o teto
ele não sabe levantar.
Edifício enorme
que de longe se enxergue
quem ergue?
Mão preta!
Escudo de preto
Na linha de frente dos palácios
Ricaços curtem a festa
A desritmada dança e a segurança, quem faz?
Mão Preta
Quitutes, sobremesas, manjares
Quem é que faz?
Experimenta por dona Bia na cozinha
não conseguiria
Mesmo sendo nutricionista
Especialista na cozinha,
tem mão Preta
O anel com pedra de diamante
Pro evento de debutante de sua filha
quem que extraíra?
No minério seu império
Nada seria
Se lá na mina, na gruta
A luta pra remover a pedra
na caverna escura
escura também a sua pele
Mão Preta
Quem que te leva em segurança,
Que pega as suas crianças,
Os filhos dos Bitencu
Aqueles capeta
Seus caminhos quem conduz?
mão Preta!
A engrenagem dos trilhos,
O alpiste dos seus passarinhos,
O depósito do seu cheque,
O paletó na lavanderia do seu chefe,
O eletricista do abajur do seu escritório,
Quem que cava a cova do seu velório?
Contabiliza!
Se por um dia a mão preta, pare-se
Se afasta-se dos serviços
(Risos)
Porque a gente movimenta esse lugar
Vivemos um crime social
E na moral
Você não paga o meu salário a movimentação do monetário
É o meu suor a percorrer
que faz pagar
A casa grande entrará em choque
Quando em seus estoques
não tiver mais Mão Preta
Pra puder cuidar.

Metade de mim desespera
Metade de mim diz, espera.
 

LEVANTA, PRETA!

Levanta, Preta
Levanta a cabeça
Porque não dá tempo pra lamentar
Enquanto chora as chagas do coração
Há os meninos querendo sair pelo portão,
e a roupa pra lavar
A roupa tá lavada e precisa ser estendida
e depois de estendida
Tira pra chuva não molhar
A chuva de Oxalá
Vem
Deixa elas também seu corpo tocar
Levanta a cabeça, preta
Porque o turbante fica melhor
enaltecido
E saiba que o que aconteceu contigo
Não é a primeira vez no mundo
e nem a última será
Díspar
Enquanto desliza as águas a banhar
Quando toca o ori
refrigera pensamentos
e descendo
pela face mistura com as águas dos olhos
Nos poros faz carícias
E é por isso que precisa
deixar banhar
Levanta a cabeça, preta!
Porque a coroa com teus cachos
Eu não só acho,
mas tenho certeza
Que toda sua realeza
Não combina com essa tristeza
e que você só mereça
Os raios de sol
que tem o teu sorriso
E que amar é preciso
Se não for machucar
Preta
Há uma continuação de teu reinado
que do seu ventre fora gerado
Então joga no chão esse fardo
E sorria!!!
Porque de novo se fez dia
e tens a chance de recomeçar

IDENTIDADE NEGRA

Não me chame de crioula
porque eu posso interpretar
que você é meu senhor
querendo me abusar
Parda não é normal
porque não sou filha de pardal
E morena o que seria?
Uma nova etnia?
Pra mim uma palavra sem classificação
então me chame de negra
porque sou filha de negrão
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Metade de mim desespera
Metade de mim diz, espera.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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