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Tereza Albues
Escritora (romancista e contista), graduada pela UFRJ em Direito, Letras e Jornalismo.

BREVE TRAVESSIA PELA IMENSIDÃO DO SILÊNCIO DE LUCINDA PERSONA

Confesso que me envolvi com a ternura, o cuidado, a delicadeza de Hans, desde o primeiro segundo em que ele entra em cena. Não pensei em mais nada a não ser acompanhá-lo como uma sombra devota, onde quer que ele fosse. Nem em sonhos passou pela minha cabeça que Hans pudesse estar atuando em outra dimensão. Como ele, coloquei-me, fervorosa, “a serviço do silêncio”. Nada questionei, embora às vezes tenha topado com certas pistas que talvez servissem de alerta. Mas que nada. Ficamos por demais embevecidos pela leveza da trilha a qual somos levados pelas sutilezas de Hans, o esposo abnegado. Aplaudimos, quase invejosos, tanta dedicação. Deixamo-nos levar, contentes de compactuarmos, de certa forma, com o seu delicado fazer rotineiro. Sem pudor, tornamo-nos cúmplices de sua missão. Em parte, devido ao magnetismo do clima poético, quase melancólico, um misto de estações passadas e vindouras, que a autora habilmente vai semeando pelo contexto. Em parte, graças ao cativante ritual de Hans, sereno e simples, que nos convida a ir entrando gradativamente no cerne dum cotidiano, de cômoda coexistência. Tudo isso burilado numa linguagem atraente e acolhedora, a nos abrir a porta da mansidão. Não há como recusar. Entramos. E nos sentimos em casa. Relaxados e pródigos. Pronto! O ponto do ajuste. O contraponto do imprevisto. Acabamos de cair na armadilha, até enternecidos, sem desconfiar que no final da jornada seremos tirados aos solavancos de nossa comodidade com uma única palavra: viúva. Magistral! Lucinda Persona subverte a trama, assim, impunemente, como quem puxa, distraída, um fio solto duma tapeçaria inacabada. E o resultado imediato do gesto revela bruscamente a inconsistência de nossas certezas antecipadas. Bumba! A história é outra. Muito outra. Ficamos de queixo caído. Bem feito! Quem mandou se deixar enredar nas malhas desta habilidosa tapeceira dos signos, que se chama Lucinda Persona?

 

New York, 13/02/2004