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Stéfanie Sande
É escritora e doutoranda em escrita criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

DOIS CAPÍTULOS DE “VIRGÍNIA” 

“Virgínia”, de Stéfanie Sande, é uma história de amor. Trata-se de uma novela dividida em quatro partes sobre se apaixonar em uma situação atípica, onde duas mulheres, Virgínia e Ariel, navegam pelo tumulto de seus sentimentos uma pela outra. Está disponível em e-book na Amazon pelo link: amzn.to/3nDpCTl


Stéfanie Sande é escritora, mestre e doutoranda em escrita criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Colabora regularmente com a Revista Literária Pixé e envia dois capítulos do romance “Virgínia” com exclusividade:

III

Sexta-feira, 14 de fevereiro.


Era meu último final de semana em Cuiabá. Jantava com amigos no meu café favorito quando uma figura familiar entrou acompanhada de um desconhecido. Virgínia. O Metade Cheio estava lotado, mas havia um vão entre as pessoas por onde ela encontrou meu olhar e sorriu com uma expressão surpresa. Encarei o chão por um momento e, levantando, disse ao grupo que voltaria logo.


Antes de me jogar no abraço, reparei no seu aspecto. Não a via há mais de um ano. Um vestido azul celeste estampado com margaridas caia até o joelho. Eram margaridas? Flores brancas. Uma profusão de colares e pochete na cintura. Virgínia transita na linha entre hipster e hippie. Para mim, a estética good vibes era uma tentativa de amenizar o que ela de fato gritava: neurose. Lembrei do dia em que ficamos a sós no carro e, em um tom sorumbático, ela contou do término com a Larissa. A competição é acirrada, mas talvez ela me vença no drama. 


Depois de absorver aquela figura que eu não via há tanto tempo, deixei os braços dela me envolverem, mergulhando o rosto no seu pescoço. Ela não me soltou até que eu desse um passo para trás.


— Esse é o Gustavo — ela disse, apontando para o amigo, que cumprimentei com um beijo rápido na bochecha. 


Ela então me convidou a sentar. Resgatei minha taça de vinho e sentei. Navegamos pelos assuntos de reintrodução. Digo que estou em Cuiabá desde o natal.


— Tudo isso? — ela disse, fingindo ultraje. — Você chega e não avisa nada.


— Avisar como? Telepatia? 


— Sinal de fumaça — Gustavo disse, rindo.


— Só se for.


A Virgínia é péssima com redes sociais. Ou era o que eu achava. Não usa Whatsapp e o Instagram é inativo. Ela então pegou meu celular e adicionou uma conta privada com nome aleatório. Nem sei o que significa. Raposa azul? Não faço ideia. A foto de perfil era um quadro de uma jovem muito parecida com ela, mas que eu não conhecia. Descobri depois ser Portrait of Henriette Sontag (1831), do Paul Delaroche. Agora ambas usávamos o Telegram. O canal de comunicação foi reestabelecido.


O assunto migrou para como ela e o amigo se conheceram. Faculdade de direito, que Virgínia está concluindo. A Virgínia estudar direito é a coisa mais incongruente do universo. Perguntei como ela foi parar nesse curso e ela contou uma longa história. Em nenhum momento disse o porquê. Falamos do meu aniversário recém-feito e de signos. Eu sou de aquário, Virgínia é de escorpião. 


— Encontrei uma amiga esses dias e ela me falou de você — Virgínia disse.


— Que amiga?


— A Isabela.


Ah, a Isabela. A mina que eu fiquei na virada do meu aniversário e de novo naquela mesma semana. Ex de uma amiga. Aparentemente, ela e a Virgínia têm laços de infância. Talvez sejam ex. Essa é Cuiabá para você: todos trocaram saliva direta ou indiretamente. Outro detalhe engraçado é que a ex da Virgínia, a Larissa, é melhor amiga da Jéssica, uma outra menina com quem fiquei algumas vezes. E eu conheci a Larissa quando tínhamos 16 anos. Ela agora namora à distância meu melhor amigo. Se você não entendeu esse parágrafo, tudo bem. Cuiabá é assim mesmo.


Fomos para a área externa para que Virgínia pudesse fumar. Relembramos a história de como nos conhecemos. 

 


IV

Nesse dia, não trocamos uma única palavra.


O trajeto até Chapada dos Guimarães dura uma hora. Talvez um pouco mais, dependendo do horário. Paramos no posto de gasolina na saída de Cuiabá para abastecer. Vinte reais para cada e o tanque cheio. Éramos cinco: eu, meu ex-namorado, o proprietário do carro e mais dois amigos. Não conversei muito ao longo do caminho, apreciando a vista dos paredões vermelhos com a bochecha colada no vidro frio.


Chegamos e, desde o início, desconforto. Os nossos anfitriões, amigos desse ex, eram um casal jovem com um bebê de poucos meses. Amores de pessoas, do tipo que conseguem fazer até alguém como eu não se sentir uma intrusa. Almoçamos e tomamos banho em uma das muitas cachoeiras em volta da cidade. Chapada dos Guimarães sugava toda a beleza que Cuiabá tivera em outros tempos — além disso, tinha o clima ameno que os cuiabanos tanto desejavam. Ou que eu desejava, pelo menos. À noite, jantamos, conversamos e, sob a luz de velas, começamos o RPG de mesa que duraria até as primeiras horas da manhã. Era minha primeira vez jogando RPG. Antes da aventura fictícia entrar num caminho sem volta, mais dois jogadores apareceram. Irmãos. Virgínia e Nicolas. Os pais tinham um sítio perto de Chapada.


Lembro bem a primeira impressão que Nicolas me causou: um jovem bonito demais para tanta timidez. O que fazia dele tão bonito? A pele absurdamente lisa com sardas nas bochechas e nariz, cabelos castanhos, alto e doce. Sentou num canto e passou o jogo inteiro com um sorriso desajeitado. Movia-se como se pedisse desculpas pela inconveniência e se divertia com os próprios pensamentos.


Já Virgínia... se sorriu alguma vez, não me lembro. Se ouvi a voz dela esse dia, também não lembro. A única coisa que recordo é ela sentada do outro lado da mesa, uma perna servindo de apoio para o braço, o olhar tão intenso que parecia tramar um homicídio. Talvez fossem os olhos. A luz das velas bruxuleavam em seu rosto e emprestavam ainda mais drama à expressão séria. 
Parecia desprezar todos nós. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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