Stéfanie Sande

É escritora e doutoranda em escrita criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

VIRANDO A PÁGINA

O café mais parecia um espaço coletivo de escritório: bancadas sem nenhum adorno, bancos longos com aparência desconfortável e múltiplas tomadas. Então Amanda pensou melhor: aquilo não era um café. Sentia o cheiro forte da bebida, mas não havia balcão, movimento, doces e nenhum cliente além dela. Ouviu um som familiar. Alguém digitando no celular com o irritante som das teclas ligado. Olhou em volta. Bem no fundo, um senhor de cabelos brancos e paletó ria com um celular em mãos. Uma xícara grande descansava ao seu lado. Ele podia ter 70 anos ou 50, era difícil saber. Ela aproximou-se e, tão logo foi notada, o senhor estendeu as mãos.


— Ah, querida! — ele disse, dando a volta na escrivaninha e abraçando-a. — Senta, senta.


E, com cortesia, indicou a cadeira. Confusa, Amanda obedeceu. O senhor então voltou ao seu lugar e, de rabo de olho, verificou o celular e riu. Fosse lá com quem estivesse conversando, a troca de mensagens estava interessante.


— Então — ele disse, juntando as mãos e inclinando-se para frente com um sorriso divertido no rosto. Não disse mais nada. Quanto mais o silêncio se prolongava, mais ele se divertia.


— Então? — arriscou Amanda.


Isso só fez com que o velho desatasse a rir.


— Nada ainda? Nadica de nada? É realmente impressionante.


Sem explicar, ele tirou um livro da gaveta. Olhando melhor, Amanda notou que era um caderno de capa preta com muitas páginas. O velho lhe entregou o caderno.


— Página 575.


Com a testa enrugada e um mal pressentimento, Amanda abriu na página 575. O dia amanheceu chovendo, mas quando Amanda saiu de casa, a neblina substituiu a chuva.


Tão logo leu a passagem, Amanda viu-se em pé numa rua cheia de poças e pessoas transitando cabisbaixas, algumas ainda empunhando guarda-chuvas. Ela esperava o semáforo abrir caminho, uma multidão impaciente em sua volta. Conseguia ouvir o som de água corrente: virando-se, notou uma ponte com um rio violento embaixo. 


Durou um mero segundo, mas teve certeza da sua visão: alguém, não conseguia dizer se homem ou mulher, vestindo uma capa de chuva rosa-chumbo, subiu no parapeito, inclinando-se precariamente entre a calçada e a queda. Amanda sentiu o estômago afundar, acrescentando um peso desnecessário às pernas. O semáforo abriu e as pessoas passavam por ela com pressa, alheias ao que acontecia do outro lado. Com uma resolução de última hora, Amanda dirigiu-se ao suicída bem no momento em que um casal o puxou cada um por um braço, caindo os três na calçada. Uma roda formou-se, com várias espectadores empunhando celular e expressões incrédulas (e divertidas). Amanda suspirou, aliviada. Observou por um momento, garantindo que não havia nada  que pudesse fazer. Tudo sob controle. Ao virar-se, viu o semáforo na contagem regressiva para fechar de novo. Amarelo. Amanda correu e, ao chegar no meio da faixa de pedestre, ouviu uma buzina, pneus cantando e um baque opaco. Foi tudo. 


O café mais parecia um espaço coletivo de escritório: bancadas sem nenhum adorno, bancos longos com aparência desconfortável e múltiplas tomadas. O único barulho vinha dos fundos, onde um velho de paletó digitava em um celular, rindo a cada bipe indicando resposta. Ele almoçava na escrivaninha: um sanduíche com molho laranja e um saco de batatas chips. Amanda aproximou-se e ele, sem lhe dar muita atenção, indicou a cadeira. 


— Nada? — ele perguntou, sem tirar os olhos do telefone.


Amanda balançou a cabeça, confusa com aquele espaço amplo e vazio. O velho riu e mordeu o sanduíche. Então, tirou um caderno grosso de dentro da gaveta e entregou a Amanda.


— Página 576.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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