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Silvano Chue Muquissai 
É indígena da etnia Chiquitano. Graduando em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Membro da Comissão dos Estudantes Indígenas da UFMT. Vice-presidente do Conselho Local de Saúde Indígena Usinhá Norich Putisiórch. Professor de anos iniciais na Escola Estadual Indígena Chiquitano José Turíbio (2003). Membro do Conselho Estadual de Promoção de Igualdade Racial CEPIR-MT (2017-2018). Membro do Comitê Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais (2018).

CHIQUITANOS DO BRASIL:
UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA FRENTE À VIOLAÇÃO DE DIREITOS E A LUTA POR JUSTIÇA

O povo Chiquitano é um povo que vive no Brasil e na Bolívia. No momento em que houve as invassões dos territórios indígenas, teve a divisão geográfica entre Brasil e Bolívia. Os Chiquitano ficaram divididos. A maioria ficou na Bolívia e pouca parte dos Chiquitanos ficou aqui no Brasil. Com essa divisão geográfica, os Chiquitanos do Brasil, que eu tenho mais conhecimento, começaram a passar por um momento de desafios, de desafios com a violência que vinham sofrendo. Começaram a ter um momento de violação de seus direitos. Primeiramente, porque as pessoas começaram a invadir seus territórios. Chegaram os fazendeiros, invadiram os territórios, diziam que eram donos porque o próprio governo brasileiro dava os títulos a eles. Os indígenas da época não tinham e os de hoje não têm um documento que comprove que eram donos, apesar de estarem ali há muito tempo. Eles não conseguiam comprovar que eram realmente donos porque, infelizmente, para o não indígena o que vale é o que está no papel e não a palavra. E, a partir daí, desse momento de violação de seus direitos, os Chiquitanos começaram a se aglomerar em pequenas vilas, pequenas aldeias, onde estão até hoje. Os nossos antepassados começaram a ser pegos para trabalhar nas fazendas que foram sendo criadas nesse período.


Os fazendeiros pegaram para trabalhar, trabalho não no sentido de emprego, mas no sentido de trabalho análogo ao escravo. Nessa época houve muito isso. E, a partir daí, começou a política de genocídio dos povos indígenas. Não só dos Chiquitanos aqui do Brasil, mas de todos os Chiquitanos, eu acredito, assim como todos os indígenas do Estado brasileiro.


Não posso falar da Bolívia porque não tenho conhecimento. Mas, os Chiquitano no Brasil e os outros indígenas passaram a sofrer grandes violações de seus direitos, como invasão de terras. Os fazendeiros que ganharam os títulos e começaram a criar fazendas, pegaram as pessoas para trabalhar nas fazendas. Os Chiquitano foram tratados de forma totalmente preconceituosa, discriminatória. Foram tratados como animais porque a partir do momento em que as pessoas começaram a trabalhar para os fazendeiros em suas fazendas, fazendo tudo o que eles mandassem, tinham que obedecer sob pena de punição. E, muitas vezes, a pena era a morte. Os Chiquitano começaram a usar, como forma de sobrevivência, a aceitação de tudo que era imposto a eles. 


Eu me lembro que, desde de criança, consegui ver muitas cenas de meus anciãos de minha aldeia, na fazenda que eles trabalhavam. O fazendeiro chegava altas horas da noite, da madrugada e simplesmente chamavam os indígenas para trabalhar na fazenda que mexia com piscicultura. Eles tinham que tirar peixe para levar para vender. Não tinha hora. A hora que eles quisessem que os indígenas trabalhassem. Em troca de ficarem na terra, na “fazenda deles” que, na verdade, é território de Chiquitano, acabavam obedecendo às imposições dos fazendeiros.


Com o passar do tempo, os Chiquitanos que trabalhavam nas fazendas começaram a deixar de praticar a cultura, as danças, as festas culturais, os costumes, falar a própria língua, até porque também eram proibidos pelos fazendeiros. Até os dias atuais, já passou um bom tempo, os indígenas mais novos começaram a falar o português, que era a forma de contato com o fazendeiro. Pelas proibições que tinham, começaram a perder aquilo que era praticado pelos mais velhos.


E, com isso, as pessoas que iam nascendo, crescendo com todas essas pressões psicológicas de trabalhar em fazendas, de não ter horário para trabalhar, de trabalhar de forma análoga ao escravo. Além disso, sofriam xingamentos, preconceitos. Eram chamados de preguiçosos. Eram chamados de bugre, que é uma palavra pejorativa, mas que é muito utilizada. Pejorativa porque é uma palavra que significa preguiça, vagabundo, que não tinha um futuro pela frente. Então, as pessoas, além de se submeterem ao trabalho análogo ao escravo, eram obrigadas a ficar lidando com essa forma de imposição dos fazendeiros.


Passou um bom tempo. Os mais novos começaram a ter vergonha de assumir a identidade como indígena. Os mais novos começaram a querer ter uma proximidade para obter vantagens com o fazendeiro. Se esforçavam até mais do que podiam para agradar o fazendeiro. Começaram a ter vergonha de assumir a própria identidade, até que chegou ao ponto de negarem a identidade. Porque começaram a negar, a falar que não eram mais indígenas.


E a partir daí começou uma nova fase, uma nova etapa dentro desse processo histórico sujo com o povo Chiquitano, que infelizmente, isso reflete nos dias atuais porque no Brasil, por exemplo, na faixa de fronteira, que é o lugar onde a gente habita desde sempre, existe muito Chiquitano que vive em vilas, mas que não assume a identidade. Não porque eles não querem ou nunca quiseram assumir a identidade, mas porque eles têm vergonha de sofrer preconceito, de sofrer discriminação pelas outras pessoas, de se sentirem inferiores às outras pessoas. Por isso, negaram a identidade, falaram que não eram indígenas e deixaram de lutar por seus direitos. Assim, conseguem um emprego, um emprego não, um trabalho, porque um emprego não é. É um trabalho informal nas fazendas, quando são tratados, às vezes, não de forma digna.


Até hoje isso é muito claro. Até próximo lá da minha aldeia isso é visível. Então, a partir de um momento, os Chiquitano começaram a ter conhecimento de seus direitos. Por volta de 2000, começaram a ter conhecimento de seus direitos, começaram a lutar pelos direitos, o principal deles é o de lutar pela demarcação de seus territórios. Começaram a lutar pelos seus territórios, a lutar de novo pelo fortalecimento da identidade, quando passaram a sofrer retaliações, não só dos fazendeiros que invadiram seus territórios, mas também pelos próprios indígenas que não assumem mais a identidade.


Até hoje aqui no Brasil o povo Chiquitano não tem uma terra demarcada. Tem uma terra que está em processo judicial, para demarcação, processo administrativo. Os demais estão à mercê do governo que atualmente não é favorável aos povos indígenas. É um governo que quer o fim dos povos indígenas.


Estamos aí para lutar! Para tentar garantir esses direitos que são originários nossos. Um direito que é nosso. A gente sempre viveu nessas terras, mas que infelizmente a gente sabe que no Brasil a força política pelos interesses por nossas terras é muito grande. A luta se torna cada vez mais difícil para demarcar nosso território. Assim como também o direito à Educação, direito à Saúde. São direitos que são difíceis de termos.


Para ter uma visibilidade de como está atualmente a realidade dos Chiquitano aqui no Brasil é só pegar do tempo de 2005 para cá: como o povo Chiquitano foi hostilizado, foi discriminado pelos fazendeiros, pelos outros indígenas que não assumem a identidade, pelo governo. E, até hoje, a gente continua nisso. Muitos indígenas não assumem a identidade e ainda não têm o conhecimento de seus direitos para poder lutar por eles. Vivemos dessa forma. 


Eu vejo uma forma de a gente lidar com isso que é fortalecer cada vez mais nossa identidade, é se aproximar dos outros indígenas, não somente aqui do Brasil, mas também dos indígenas do mundo inteiro, assim como os da Bolívia, que é nossa vizinha. E, a partir daí, começar uma luta maior, uma luta para poder fortalecer a luta de cada povo e conseguir garantir o mínimo de dignidade que é a demarcação de nosso território. E mais: buscar políticas públicas voltadas para os povos indígenas que respeitem a cultura, os costumes, as crenças e todas as especificidades que os povos indígenas têm.