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Santiago Vilella Marques 

Graduado em Letras e Jornalismo, Mestre e Doutor em Estudos Literários. Autor de diversos livros em prosa e verso. Premiado nacionalmente (Prêmio Sesc Monteiro Lobato de Conto Infantil - 1º lugar, em 2009 e em 2010; Prêmio Sesc Machado de Assis de Contos - 2º e 3º lugares, em 2009 e 2011, respectivamente; Concurso de Contos de Ituiutaba Águas do Tijuco - 1º lugar, em 2012; Prêmio Cataratas de Contos e Poesias - 3º lugar, em 2015; dentre outros.). Era natural de São Paulo, mas residente a maior parte da vida em – e apaixonado por - Sinop-MT.

Paulo Sesar Pimentel

Natural de Mato Grosso do Sul, mas residente em Mato Grosso há mais de 20 anos. Graduado em Letras, Mestre em Estudos de Linguagem e Doutor em Psicologia, é professor do IFMT Campus Cuiabá – Bela Vista. Publicou as coletâneas de contos “O cão sem penas” (2014), “Diário de Uma Quase” (2010), “Café com Formigas” (2005) e “Ângulo Bi” (2002 - com outros autores mato-grossenses).

MÃO DUPLA*

A estrada à frente insinuava-se, oscilando numa constante sobreposição de imagens ao mesmo tempo originais e repetidas. O contato com a direção, que sempre lhe dera a sensação de poder, agora não passava de um peso que tinha que carregar até o ponto de entrega da carga – um monte de bíblias amontoadas no banco de trás e no porta-malas. Não que fosse religioso, ou cresce em um Deus em especial, pelo contrário, sempre cultivara um certo ódio em relação a qualquer tipo de crença ou manifestação metafísica. Apenas precisava sobreviver, sustentar uma família que, no caso, resumia-se em uma esposa medianamente (ou pouco) atraente, porém querida.


Era um dia inteiro na estrada. Um cansativo dia quente e úmido de início de outono, que prometia um resto de ano tão desagradável quanto fora o início. Entretanto, tudo corria mais ou menos dentro da rotina e as coisas indicavam uma possível “melhora no tempo”, o que aqui significava possibilidades de boas propostas profissionais. Ansiava por elas, uma vez que, apesar de amada a esposa, o casamento não corria como esperado. É claro que podia ser, simplesmente, uma tão conhecida crise dos sete anos...


Então, aquele sonho. A estrada era aquela. Vira a placa na entrada do sonho e anotara quando o relógio despertou.


A esposa não dormira em casa. Nunca ficou uma noite fora, e então... Esperou toda a madrugada, acompanhado de quase dois litros de uísque que guardava para a semana, para as solidões da semana, de todo fim de dia quando precisava de um líquido forte para engolir qualquer palavra que não podia ser dita, como as pílulas que, de criança, regurgitava e a mãe enfiava garganta adentro com um segundo copo de água. 


Dois litros de álcool e a mulher pela primeira vez não disse nada. Não estava ali.


Dormiu bêbado e sonhou com a estrada. A velha e conhecida estrada que agora assumia contornos de uma noite mais sutil, com elementos sempre presentes, mas agora perceptíveis. A estrada familiar, de tantos sonhos, que percorria à noite, no sono pesado dos culpados. Na adolescência, começou a sonhar com ela. Primeiro, fugia de serpentes e encontrava a estrada que o levava de volta à casa. Depois, eram homens sem rosto, perseguindo com foices e facões, e novamente a estrada redentora. Casou e perdeu a estrada. Todos os pesadelos pareciam tê-lo abandonado, trocados pela insônia dos arrependidos. Agora, não poderia ser mais assim. Novamente, ela se erguia como incendiada nas bordas para conduzi-lo, sem titubear, para seu refúgio. Entretanto, não era mais a mesma. Podia ver vestígios do que outrora teria afirmado veementemente ser a salvação da infância, mas que agora não passavam disto, vestígios que, lutando contra o tempo, tentavam perdurar por uma inexistente eternidade. 


Era a mesma estrada, só que amadurecida, com uma placa, assim como ele. Não sabia se as mudanças que com ela se deram eram ao menos semelhantes às que ele experimentou. Só que, agora, ambos estavam ali, mais velhos, e, quando envelhecemos, temos mais pressa. Por isso, danou a correr. Tinha um objetivo, um lugar para chegar, uma mulher que o esperava, tomara que também ansiosa para tê-lo. Queria encontrá-la viva. No sonho, já era um cadáver abandonado no acostamento. Fora atropelada? Deixada por sequestradores? O sonho não explicava. Sonhos nunca explicam: acenam, provocam, destroem e se calam. Sobra a insatisfação acompanhada da vontade de ir além, traçar um paralelo com a verdade, se é que ela existe.


Quando soube o nome da estrada, pelo último sonho, não teve dúvidas. Correu para a empresa, chegou antes dos outros vendedores e pediu para fazer a entrega das bíblias. Sabia que elas o levariam à mulher desaparecida.


Acelerou mais um vez, a última curva, como no sonho. Depois, viria o corpo, a esposa desejada, a mulher assassinada à beira do asfalto, sem beijo, sem culpa.


Reduziu a velocidade, encostou, desceu ansioso, os dois extremos da estrada desertos. Não havia corpo, a mulher que não deixara em casa também não encontrou ali. Decidiu andar, talvez o local fosse outro, os sonhos enganam, nunca podemos confiar. Virou-se para o banco de trás e pegou uma bíblia sem acreditar no seu poder, mas querendo ter algo na mão e não vendo ao redor nada melhor. Desceu e andou inebriado, em êxtase, por estar revivendo o que nunca havia realmente vivido. Mas o mato, a escuridão, o cheiro... a morte andava perto. Os passos dele aproximavam-na, podia quase tocá-la e, ao contrário da crença popular, não era fria, mas quente e pulsante, sugando algo que não era só sua vida; era mais.


Foi para o meio da estrada, o carro cada vez mais distante. A morte estava em sua mão, como esses tiras farejadores que carregam sempre consigo os crimes que ainda vão descobrir. Ele tinha um crime para desvendar. Onde estava sua mulher? Nunca se atrasava, nunca dormia fora de casa, como os gatos vadios que encontram adoção. Mas não estava em casa, nem na estrada, naquele ponto específico, e o mundo se resumia, naquele momento, apenas àqueles dois pontos extremos aproximados por seu devaneio, aproximados por um sonho, onde ele jurava tê-la visto, mais bela do que nunca fora, porque nunca esteve morta. Tinha de encontrá-la, o sonho não mentira, ou, até ali, qualquer sonho não passara de mentiras nunca descobertas. Ele costumava acreditar nos sonhos, mesmo contra si mesmo, ou nunca teria casado. Se um sonho dizia que a mulher estava morta naquela estrada, ela deveria estar. Não existem simbolismos. A realidade não pode censurar os sonhos. Não pode ou não deveria.


Perdeu as horas, as horas o perderam. Não via mais o carro, não conhecia mais a mão que segurava a bíblia, nem sabia mais em que direção tomava a estrada, qual era o avanço, qual era o retorno.


Veio, então, a luz, que ele não temeu, porque não viu. E ela iluminou a curva. Era aquela. Como tinha se enganado? Essa era curva, este o lugar. Finalmente encontraria o corpo, finalmente, a mulher de volta, como sempre a desejara. Abaixou-se no escuro, parecia ter visto uma sombra na margem da estrada. Como uma voz de criança, algo surgiu de sua garganta, habituada na infância a remédios e água. Quis uma dose do uísque que tinha deixado no carro. Não viu o outro que vinha em alta velocidade. Não conseguiu desviar-se. Apegou-se mais firmemente à bíblia quando rolou sobre o capô do automóvel, depois no abraço escaldante do asfalto. Terminou ainda preso a ela, quando se deitou de lado no acostamento. Já não era um homem. Assim o viu a mulher que desceu histérica do automóvel acompanhada do amante. Debruçou-se sobre o corpo, um cadáver mutilado e belo. A mulher reconheceu a bíblia, o homem que deixara em casa as vendia sem acreditar no que prometiam – isso que fazem todos os bons vendedores. Não teve coragem de olhar o rosto da vítima. A culpa – ou o alívio - do crime se acumulou aos sentimentos confusos por ter deixado o homem para trás, no passado, sem explicação e, pela primeira vez, depois de sete anos de cama dividida, ter acreditado nos sonhos e ido procurá-los numa estrada desconhecida. 

*Publicado, originalmente, na coletânea de contos “Angulo Bi”, de 2002.