Santiago Santos 
É escritor, tradutor, copidesque, jornalista e tereréficionado. Mora em Cuiabá desde moleque, desenvolvendo constantes táticas pra fugir do sol e do mormaço. Publica drops no flashfiction.com.br desde 2013 e lançou seu primeiro livro em 2016, Na Eternidade Sempre é Domingo [Carlini & Caniato], uma aventura pé na estrada que entrecruza a história e a mitologia dos incas. Em 2018 foi a vez da primeira coletânea dos drops do Flash, Algazarra [Patuá]. Já publicou ficção em antologias, blogs e revistas.

BALDO E A SOLA FURADA

Baldo se abaixou, deitando a mão na terra.
É, tá quente, seu Ferreira. Não te falei? É essa terra amaldiçoada. Sabe, o senhor pode não tá tão longe da verdade. Cadê o seu filho?
O homem foi buscar o filho na casa. O garoto veio, apoiado em duas muletas, um dos pés enfaixado. Baldo observou sua palidez, usando um macacão sem camisa por baixo, todo suado. Me conta o que aconteceu, rapaz. O pai saiu logo atrás. Conta pra ele, filho. Ele entende dessas coisas. O garoto apontou o chão sob os pés do detetive.
Eu tava brincando com meus primos, senhor. Os menores com caminhões de madeira e os maiores de pega-pega. Eu tava correndo com o tênis novo que ganhei no natal, e aí de repente senti uma dor muito forte no pé e caí. Quando fui olhar, a sola tava com um buraco e meu pé também, minando sangue. Parecia que eu tinha pisado num prego. Comecei a gritar e a mãe veio lá de dentro pra acudir. Começaram a procurar o prego pela grama, a criançada toda enxotada pra dentro de casa, com medo de que pisassem também, mas a gente caçou e caçou e não encontrou nem prego, nem farpa de madeira nem nada parecido. No pronto-socorro, o médico disse que não tinha nada no buraco e costurou.
A mãe saiu da casa, secando as mãos num pano de louça. E isso tem três semanas, e o guri só piora. Teve febre e tudo.
Baldo acendeu um cigarro, cravando os dentes na bunda do filtro antes da primeira tragada. Teve febre todos os dias? A mãe franziu o cenho. Todas as noites, na verdade. Ah, sim. O detetive olhou em volta, analisando o chão. Lembra onde foi exatamente que aconteceu, rapaz? Não, senhor. Eu tava correndo, não lembro direito. Não tem problema. Vocês ainda têm o tênis que ele usou no dia? O furado? Tá no quarto dele. Já pego pro senhor.
Baldo sentou na ponta da varanda. Apontou com o rosto a cadeira mais próxima, olhando pro rapazote. Ele se deixou cair ali, apoiando as muletas no colo. O pai só observava, tentando evitar que o rosto se crispasse numa careta, sem sucesso. A mãe reapareceu com o tênis.
Baldo o pegou e virou. O solado tinha um buraco da grossura de uma caneta na altura do calcanhar. Puxou do bolso um saquinho, desamarrou e salpicou um pouco de pó. Nada. Resmungou. Então entregou o tênis ao garoto. Cospe aí, filho. Em cima do pó. Cuspir, o senhor disse? Isso, não precisa ter vergonha não. O guri cuspiu. E logo uma fumacinha cinzenta se ergueu de onde a saliva encostou.
Baldo encarou os pais. Ele não tem falado nada estranho esses dias, quando tem febre? Não, senhor, responderam o pai e a mãe juntos. Então ainda é tempo. Baldo pegou o saquinho, entregou pra mãe. A senhora tem açúcar em casa? Claro. Então bata um pouco de açúcar com água, qualquer semente de fruta e tudo que tiver dentro desse saquinho aqui. E traga pro garoto beber. O que tem aí dentro? Sálvia, sal, alecrim e algumas outras ervas. Tá bom. Semente de maçã, pode ser? Pode, sim.
Enquanto a mãe preparava a bebida, Baldo se aproximou do rapaz. Abriu seus olhos, checou as orelhas, tateou o cabelo suado, e por fim pediu pra ele abrir a boca o máximo que pudesse. Investigou. Ah, sim. O pai se aproximou pra ver o que o detetive via. O senhor descobriu algo? Sim, já vai ver.
A mãe veio com a batida esverdeada. Baldo a entregou ao moleque. Quero que você beba isso de uma vez só, entendeu? Não pode parar no meio. O garoto pegou, cheirou e olhou de perto a bebida antes de virá-la em três grandes goles. Então apagou, o copo rolando dos dedos. Os pais se agitaram. Se acalmem, é assim mesmo. Deitou o garoto no chão, puxou seu queixo, enfiou os dedos em pinça no céu da boca e puxou. Nada. Tentou de novo, com mais força. A mão saiu com um pedaço de algo amarelado na ponta.
Minha nossa senhora, o que é isso? A mãe apertava as mãos contra o peito. O pai chegou a centímetros do negócio. Um dente? Exatamente, seu Ferreira. Como que um dente velho desses foi parar na boca do meu filho? Ele subiu pelo pé, seu Ferreira. Não tem mais problema, tá resolvido. O seu garoto tá bem, ele vai ficar bom. A boca vai sangrar ainda, mas logo para. Me chamaram a tempo. Vou voltar daqui a dois dias pra ver como ele anda. E pra salgar a terra. Vou trancar o pedaço de onde veio esse dente pra evitar outros acidentes. Isso que aconteceu aqui só acontece uma vez, quando acontece. Tudo bem? Não se preocupem. Quando eu voltar, acertamos o serviço.
Baldo deixou a casa com o osso no bolso. Fazia tempo que não via disso. Tivesse o dente florescido inteiro na boca do garoto, não poderia mais fazer nada porque já não seria o garoto. A sorte que às vezes sorria, o adicional inesperado sobre o serviço cumprido. Carregava pra casa um dos ingredientes mais caros e raros em sua profissão: um dente enfeitiçado de bruxa.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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