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Santiago Santos 
É escritor e tradutor. Escreve minicontos no flashfiction.com.br e tem dois livros publicados: Algazarra (Patuá, 2018), uma compilação de minicontos, e Na eternidade sempre é domingo (Carlini & Caniato, 2016), uma aventura pé na estrada que entrecruza a história e a mitologia dos incas, além da noveleta de piratas espaciais Hei, hou, Borunga chegou, na revista digital Mafagafo (2020). Já publicou ficção em antologias, jornais, blogs e revistas. Vive em Cuiabá desde moleque, onde toma tereré o dia todo.

CONSELHOS A TROCO DE NADA

Num dos cruzamentos a caminho de casa, percebo um homem parado na esquina seguinte tirar a mão do bolso pra checar as horas. Algo no jeito que se mexe me parece familiar. Atravesso a faixa, e quando passo na sua frente, ele diz
Rodrigo.
Meu nome. E me acompanha.
Sei que você acabou de sair da faculdade e tá indo pra casa. Vou junto, é rápido. Não se preocupa, não sou ladrão, não quero vender nada. Preciso te contar uma coisa ou outra.
Continuo andando. Ele volta a checar as horas.
Olha, eu pensei muito no que devia te falar aqui e agora, quando te encontrasse. Você não vai entender se eu explicar demais, e a gente nem tem tempo pra isso. O que você precisa saber é o seguinte: África do Sul. Não vale a pena. Eu sei que não parece fazer sentido. Mas vai fazer, um dia. Você vai ser convidado a se mudar pra Joanesburgo. Não vá. Tem país pra burro pra conhecer, lugar que você nem sabe que existe mas vai descobrir se abrir um mapa e olhar as letras miúdas. Só evita a África do Sul, mesmo que te pareça uma boa.
Por que você tá me dizendo isso?, pergunto, primeira vez que abro a boca. Estranho ouvir a melodia da minha própria voz.
Os motivos. Taí o problema. Lembra que falei que se explicasse não faria sentido e não daria tempo? Mesma coisa aqui. Só guarda isso. África do Sul.
Ele some, e não é como se eu piscasse ou olhasse pro lado. É um passo depois do outro e então passo nenhum.
Na frente da padaria onde tomo café da manhã, outro homem olhando as horas, o mesmo jeito. Mas só tem um braço. Ele diz
Rodrigo
e me acompanha.
Já te falaram pra não ir pra África do Sul? Pois é. Tem outro problema, alguns anos pra frente. Escócia. Evite a todo custo. Não há nada por lá que valha a pena.
E você não pode me contar os detalhes, presumo?
Isso mesmo, ele diz, e desaparece.
Na esquina do meu prédio, outro homem checando o relógio. Esse de tapa-olho.
Rodrigo, o Vietnã
e mais nada.
Quando entro no apartamento, vejo um homem de cadeira de rodas terminando de escrever um bilhete sobre a mesa, a pulseira do relógio tão folgada que daria três voltas no pulso cadavérico, as duas pernas acabando em cotocos na altura dos joelhos. Ele nem tem tempo de me olhar. Mas eu já conheço o rosto. Desaparece.
Pego o bilhete.
“Vá de uma vez pra África do Sul. Ignore o resto.”