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Sandro Miguel da Silva Paula nasceu em Cáceres-MT

Historiador, empreendedor social. Fundador e sócio do Núcleo Experimental de Permacultura e Bioconstrução do Pantanal-NEPBIO-Pantanal. Produtor dos documentários: Memórias dos soldados de fronteira (2019); Uma história do futebol no coração da América Latina. Obras publicadas: Soldados de fronteira (2008); O pracinha pantaneiro: de Cáceres à Itália, a cobra já fumava: 1944/1945 (2020); Uma história do futebol no coração da América do Sul (2022); Da Gaiva ao Guaporé: demarcando limites no oeste mato-grossense (2022). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Cáceres/IHGC.

O Artesão da memória

Para o passado sobreviver é preciso lembrar. As lembranças às vezes brotam ou simplesmente vêm à tona em um trabalho paciente de reconstrução ou reconstituição; energia pura, guardada no espirito de cada um. É uma tarefa sensível que exige do narrador assentar-se à margem do tempo, sem pressa, entalhando, esculpindo, como se estivesse imitando a divina obra da natureza.  
A forma pura com que aflorou as obras de Natalino Ferreira Mendes, foram um rebojo que sacodem os côncavos do nosso marasmo mental, como trovoadas de verão em dias sem chuvas, daqueles que ecoam por vários segundos pelos espaços invisíveis. Foi o primeiro a ver a complexidade do conjunto histórico e social, os lugares de memória, seus personagens e influencias, a tragédia e heroísmo do Poaieiro, a força e delicadeza da natureza pantaneira. Esculpindo, um pouco do tudo, com argila da barranca do rio e pintando com tintas colhidas deste chão, cor de gente, som de vozes, de cantos e orações. E não fez o esboço do quadro com pinceis de pelos macios, mas com brochas cheias de fiapos de embira, marcas que ficam, encharcadas.
Na pureza do desfiar das letras, encontramos resquícios da teia invisível da vida, conspirando a favor pela materialização do imaginário, das experimentações, da memória, das estratégias de enfrentamentos e da construção de identidades.
O mestre não faz simplesmente a história pitoresca de sua terra, fotografa, com segurança e nitidez, as memórias escondidas dos quintais, das ruas silenciosas, dos personagens esquecidos, das lendas e festas, em quadras atraentes e ricas. Que gritam. Etruria! Rio Paraguai! Jauru! Poaia! Pé de garrafa! Lavadeiras! Sangradouro! Boiada, eia, eia! Mangueiras! Piúvas! Ruas de pedra! Meu grande amor! ... Mãe! ... Saudades, imorredouras saudades! A história deixou de ser aí, uma sucessão enfastiosa de acontecimentos para tornar-se na pena do poeta, uma evocação agradável.
Sei que estamos de fato navegando pelas vielas das lembranças, redescobrindo espaços, desfiando as palavras; ele, nos leva até lá. Podemos ver, ou melhor, ele quer que nós vejamos, que a sua maestria aquarelista, a sua força de sugestão, o seu penetrante sentido, “do que passou”, nos põem em contato com as realidades históricas e memoriais. 
Sua singularidade está na beleza com que escreveu, na honestidade com que documentou! É um culto à verdade e de amor à sua cidade e seu povo. Cáceres, embora ainda com aspecto “colonial”, de ruas estreitas, iluminadas a lampião, era justamente em que fulgia, Natalino Ferreira Mendes, brilhando com sua inteligência, tanto quanto lhe lampejava, a discrição, o olhar atento à correção pela postura e o polimento pela moral, ou, simplesmente arte. 
Iludido pela aparente facilidade da linguagem e pela sóbria harmonia das proporções da memória, seria fácil entender o seu coração. Sugiro que não. Esquecemos simplesmente de que as chaves que nos oferece para entrar nos recôncavos da memória são inevitavelmente falsas, já que as verdadeiras, o próprio poeta as guarda consigo.