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Rubenio Marcelo
É poeta, compositor e crítico, membro efetivo e atual secretário-geral da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (Cadeira nº 35) e membro correspondente da Academia Mato-Grossense de Letras. Autor de 12 livros publicados e 3 CDs. Recentemente, lançou o livro “Palavras em Plenitude – prosa e crítica cultural”, e o CD musical “Parcerias: na poética de Rubenio Marcelo”. É um dos autores homenageados no livro “Vozes da Literatura” (FCMS), reunião de autores contemporâneos. Também advogado e revisor, reside em Campo Grande/MS.

A “TRIBO DOS SETE RELÂMPAGO” E O SOBRESSIMBOLISMO INDIANISTA DE CARLOS NEJAR


Há trinta anos acompanho a produção literária do poeta e ficcionista gaúcho Carlos Nejar, desde que adquiri e li o seu livro A Idade da Aurora (1990), antológica obra que à época já demarcava três décadas de literatura do autor, membro e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, que foi situado pelo crítico e pesquisador suíço Gustav Siebenmann – in Poesia y Poéticas del Siglo XX en la América Hispana y el Brasil (Madri: ed. Gredos, 1997) – como um dos 37 poetas-chaves do século, no período entre 1890-1990, ao lado de autores mundiais memoráveis como César Vallejo, Cruz e Souza, Drummond, Jorge Luís Borges, Neruda,  Octavio  Paz  e  outros. 
Atualmente celebrando 60 anos de ofício literário, em pleno vigor criativo, Nejar esteve recentemente em Campo Grande, lançando aqui com sucesso pela Editora Life: O Evangelho Segundo o Vento, Sélesis e Livro de Silbion, e o romance inédito “A Tribo dos Sete Relâmpagos”. Ele visitou a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, ocasião em que permutarmos obras autorais em um bate-papo descontraído/fraterno (acerca da poesia e outras artes) e gravamos – eu e o colega Henrique de Medeiros – uma Entrevista com ele, já também publicada. Sensível poeta/escritor da condição humana, Nejar afirma: “Deixo que a criação me explique, mas escrevo por necessidade de repetir o que poucos ouvem”. Quanto às características da sua verve, diz: “Sigo um novo estilo de época, o Sobressimbolismo. As escolas e tendências vão se repetindo numa maneira nova, pois é o escritor que inventa o movimento e não o contrário”. 
Emoldurado numa envolvente narrativa em primeira pessoa, em 11 capítulos, o romance sobressimbolista indianista “A Tribo dos Sete Relâmpagos” é uma obra encantadora, tocante, reflexiva: nela, o pensador do Pampa brasileiro, o imortal cavaleiro andante da palavra, com peculiar maestria, dosa a sua profícua textualidade – o texto e o intertexto – com pulsantes alegorias e forte valência da linguagem, numa seara fecunda de símbolos, espectros polissêmicos e múltiplas imagens que têm como meta a palavra viva (a meta/linguagem) e o seu destino, a identificação telúrica, a re-criação/origem existencial, a descoberta do infinito ser nas vias da fé/esperança e da virtude, a ampliação dos sentidos na palavra apocalíptica, a sublimação epifânica e a eternidade, porque “o que é de Deus é da palavra”, que é “escrita com linhas férreas”. Destarte, à luz da essencial palavra nejariana, tudo (que é essência) vem à luz, pois nela há alma plena “que traz todas as coisas aos olhos”, natural elevação espiritual e “uma lei sublime que areja a terrestre sobrevivência” pelo sonho adentro e pela meta afora... 
Proporcionando reflexão e transcendência, instigando a imaginação em todo seu contexto narrativo e com um desfecho arrebatador, A Tribo dos Sete Relâmpagos vem reconfirmar o Nejar transbordante de efeitos poéticos, recursos originais que celebram a sua harmoniosa confluência no tocante à dinâmica prosa/poesia. Aliás, neste sentido, ele assim asseverou na entrevista conosco: “O gênero não é uma casa fechada e mal-assombrada: o gênero deve ser aberto para a criatividade... Nós não moramos no gênero, moramos sim na casa da linguagem, e esta é receptiva, ampla, e pode ser o cosmos”. Já num dos capítulos do livro, expressa: “Perdi a noção dos gêneros: sou apenas um gênero, o humano”. Com efeito, encontraremos na obra sentenças/aforismos de rara beleza e profunda significação, como por exemplo: - “Quando na esperança se entra, não se sai mais: é como entrar em Deus, entrar pela infância de Deus”; - “Se pudesse seria outro, mas sou tantos: sou do tamanho do sol que se põe sobre a minha palavra”; - “Só voa o que tem raízes de céu”; - “Não se escreve para ser entendido, mas para entender”; - “A linguagem é movimento: nada nela é o que existe, mas o que se inventa”; - “Palavra é alimento: cada centelha é alma”; - “O lugar de onde se nasce vem de um alumiar sagrado”; - “Fui arrancando pétalas da treva, arrancando o espírito da matéria, semelhante à terra que vai cerzindo a semente”; - “Sou erguido de palavra, tal o homem pela alma”; - “Até onde a infância de Deus é palavra. Até onde é Deus: acordando”. 
Portanto, vale a pena conferir A Tribo dos Sete Relâmpagos e o moderno Sobressimbolismo Indianista de Carlos Nejar!