Rosana Lia Ravache  
É professora universitária. Como autora de músicas, poemas e livros para adultos e crianças, se preocupa em criar uma ponte literária entre o sonho e a realidade para atravessar este rio conturbado que tem sido o cotidiano dos últimos tempos.

SONHO ANTIGO

Em algum momento da vida a gente se enxerga, sem saber exatamente por onde ou para onde caminhar. Como diz a velha canção de Juan Manuel Serrat, “caminhante não há caminho; o caminho se faz ao andar” ... e poucas vezes nos damos a chance de repensar alguns propósitos, algum sonho abandonado por preguiça ou desalento e acabamos na encruzilhada dos “sem caminho”.
Ali, parada no tempo, veio a pergunta mais desconfortável: vivi de fato ou blefei?


Doeu... E quem disse que crescer não dói? Nestas horas aparece aquele sabotador, perfeitamente capaz de nos derrubar, porque ele aprende tudo o que aprendemos e, sem-cerimônia, nos empurra para baixo invalidando até aquelas coisas que poderíamos considerar como qualidade... Apesar dos pesares.


Lembrei de uma poema antigo que conta um pouco do questionamento do eu pra mim em outro tempo. Naquela vez, será que o sabotador conseguiu me desviar do que eu deveria ter feito?


Dizia mais ou menos assim:


Quando me dá este aperto aqui no peito
Eu já sei que não tem jeito 
De mentir pra mim também.
Não é saudade, não é tristeza, não é nada
É uma solidão danada que precisa de alguém
Pra dar um colo onde eu deite a cabeça
E com um carinho esqueça, desta luta pra viver.
Alguém que entenda que quem sonha, anda sozinho
Mas precisa de um carinho até o sonho acontecer
Ah se eu pudesse espalhar num campo livre
Tantos sonhos que eu tive e não pude realizar
Escolheria o meu sonho mais antigo 
Que é ter alguém comigo
Quando o peito me apertar


O que eu sinto agora, também não é saudade, não é tristeza, não é nada; é só a necessidade de alguém que acompanhe o meu caminho, que me escute! 


Assim como aprendi caminhando, aprendi a escutar, embora tenha mas encontrado poucos que desejassem me escutar, dar um colo onde eu deitasse a cabeça ou um carinho pra esquecer, pelo menos por alguns momentos, esta luta pra viver.
Por isto mesmo, ali, parada no tempo, me perguntei se havia vivido de fato ou blefado, quer dizer, se já escrevi este poema há algum tempo, provavelmente vim blefando vida à fora, acreditando numa força que o meu ego me fez alimentar mas que a vida se encarregou de mostrar uma outra realidade.


E se eu pudesse espalhar num campo livre, tantos sonhos que eu tive e não pude realizar, acredito que hoje ainda escolheria o meu sonho mais antigo, que é ter alguém comigo quando o peito me apertar.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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