© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook

Rodrigo Maciel Meloni

Jornalista, ativista gay e estudioso da comunicação de massa, o escritor que já teve contos publicados em diversos blogs, sites mato-grossenses e nacionais, se aventura na publicação de seu livro de estreia: Coitado do homem cujos desejos dependem. Estudioso do underground cuiabano e aficionado pelas manifestações artísticas, já colaborou com diversos compositores de bandas do submundo cultural, assessorou festivais de cinema e exposições e colabora, sempre que pode, com a destruição do status quo.

EU SOU UMA ARTE PEQUENINA

Eu nasci pequeno. Do tamanho de um grão de voz, destes que gritamos quando o universo se faz presente entre as pernas de nossas mães, e entram no corpo nosso, Fiat lux!


Lá, quando o mundo era grande demais e meus olhos mal viam o mau o u o bem, só eu sabia da grandeza das minhas pequenices. Bebê que eu era, era dono de tudo ao meu redor. Tinha um peito que jorrava leite dentro do meu ser, em e fazia crescer dia após dia.


Eu era realmente muito pequetitico, mas já era um rei. Me limpavam quando eu me sujava, e me davam todo sortimento de coisas que eu queria. Para tanto, bastava eu gritar, a plenos pulmões. 


Fazia eu graça para as estrelas, e de lá do alto do céu, mesmo mortas a milhões de anos, sorriam ela de volta pra mim.


Chorava ou balbuciava algo, viam ao meu encontro animais de todo tipo, preocupados com aquele pedaço de vida que ali crescia.


Mas Cronos, senhor do tempo, que por sua vez é senhor de tudo, quis que eu seguisse a lei da natureza e me fez crescer. Estudar eu fui, socializar e mais esse monte de coisa que mata o homem com o tempo, como trabalhar.


Mágoas eu peguei, dores eu senti pelo caminho, chorei muito um choro amargo de quem quer ir embora mas não pode porque tem obrigações. A vida, mesmo boa, foi muito ruim, sabe. Ela bate na gente, ri, sádica que ela é.


Eu mesmo não queria mais viver, mas sempre que desistia, via coisas pelo caminho que valiam a pena. Um livro transformador, um filme que precisamos rever vez após vez, uma peça de teatro aqui, uma música acolá, uma pintura que nos salva do mondo cane. 


Percebi, então, que a arte, aquela coisa que não se explica, é a única coisa que nos salva do mundo. Não é o amor, é a arte, que nos torna criança novamente, e que nos faz suportar toda essa merda que é a sociedade.