Rodrigo Maciel Meloni

Jornalista, ativista gay e estudioso da comunicação de massa, o escritor que já teve contos publicados em diversos blogs, sites mato-grossenses e nacionais, se aventura na publicação de seu livro de estreia: Coitado do homem cujos desejos dependem. Estudioso do underground cuiabano e aficionado pelas manifestações artísticas, já colaborou com diversos compositores de bandas do submundo cultural, assessorou festivais de cinema e exposições e colabora, sempre que pode, com a destruição do status quo.

TRÔPEGO

Um caminho é um caminho, e disso bem sabia a esposa do primo do amigo de Carlos Sabonaray. Tenha buracos pela frente, contornos, rotatórias, carros, bicicletas, outros transeuntes, bichanos, árvores, postes, calçadas mal calçadas. Existem coisas pelo caminho. Coisas que as pessoas derrubam, como cascas de banana e amores perdidos. Coisas que as árvores deixam cair de suas copas, como folhas, frutos e paixões. Cachorros deixam cair de suas bundas bostas pelo caminho. Gatos também o fazem, mas são mais educados, ou envergonhados: quando o fazem, tentam esconder sob a terra que um dia cobrirá a todos. Músicos deixam cair palhetas e notas musicais, poetas deixam cair papeis e rimas, pintores, por usa vez, tinta e fantasia. Pelo caminho, tudo cai. O leiteiro derruba leite, o padeiro, o pão. O mecânico, carros voadores e ferramentas coloridas com óleo de tela – acrilic on canvas. O padre deixa cair suas vergonhas, e a batina, ali no caminho, não pode salva-lo. Da boca do pastor caem mentiras, da do político também. E os passantes nelas pisam. A gravidade cai sobre o paraquedista, o controle da TV cai da mão do imbecil que a vê; a criança cai da bicicleta, Lúcifer do céu, Deus no esquecimento. A mãe cai no choro quando o filho cai no mundo, o pai no desgosto quando o filho, pobre, se diz de direita. O bebê cai quando aprende a andar. O cientista cai em si quando percebe que não há salvação para esse mundo. A física cai de quatro na química, a matemática na língua portuguesa, e o conhecimento cai de nossos ouvidos quando o cérebro derrete. Tudo cai, dona  esposa do primo do amigo de Carlos Sabonaray, menos o meu amor por você, que só sobe e se ergue em direção ao sol, como uma haste dura e sólida.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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