© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook

Rodrigo Maciel Meloni

Jornalista, ativista gay e estudioso da comunicação de massa, o escritor que já teve contos publicados em diversos blogs, sites mato-grossenses e nacionais, se aventura na publicação de seu livro de estreia: Coitado do homem cujos desejos dependem. Estudioso do underground cuiabano e aficionado pelas manifestações artísticas, já colaborou com diversos compositores de bandas do submundo cultural, assessorou festivais de cinema e exposições e colabora, sempre que pode, com a destruição do status quo.

RESPALDO GARCIA, O HOMEM POESIA

Não esperava sentimento brotando daquele peito; Não aguardava carinhos daquela mão; Olhares daqueles olhos; Seu amor era natimorto.


Não esperava um centímetro de respiração, um gole de vida, um aperto de rosto, destes que fazem a cara jorrar lágrimas; o caminhar de mãos dadas também não poderia ser parido ali.


Os cantos dos pássaros não lhe entravam pelos ouvidos, e a súplica dos bebês por atenção lhe passava despercebidos.
Era um todo vazio de tudo que podia ser, e não era.


Era de um vazio tão opressor, que fazia inveja a matéria mais escura do universo mais distante. O frio crescia, segundo após segundo, de cada poro de sua pele azul, mortífero azul.


Respaldo Garcia não sabia, mas estava morto. Vivo, mas morto. Tinha ele sangue correndo pelo corpo, mas nem um pouco de poesia nas ventas. E sem isso, estamos todos fadados a ser exército da morte. 


Sem a poesia, sem a poesia. Respaldo, um coitado homem, sem poesia, que nos é o sexo d’alma.

UM SONHO, UM FEL

Certa noite, Isabel se fez presente nos sonhos de Cássio.


Apareceu de cabelos compridos e pretos, ela que os tinha curtos e loiros.


Alta e de curvas sinuosas, nada parecia com a baixa e redonda Isabel.


Alegre, simpática, harmoniosa, querida e sorridente. O oposto da nefasta Isabel, aquela que destilava fel. 

 

- Era um sonho rapaz, era apenas um sonho. Acorde calmo e sereno, não tenha medo. Isabel, a mãe dos seus filhos, aquela com que tu casaste, já morreu há muito. Agora, mora ela apenas em seus sonhos, disse Cássio a si mesmo, envolto em lágrimas de felicidade.