Rodrigo Maciel Meloni

É um escritor/jornalista cujo trabalho já apareceu na Veja, Globo e UOL e diversas outras publicações. Ele é o autor do livro “Pobre do homem cujos desejos dependem”, e responsável por produtos jornalísticos como Vidas Transformadas e Be Gay, NO Way. Contribui regularmente escrevendo poemas para a Revista Literária Pixé.

AOS PÉS DE UMA ANTIGA MONTANHA PERCEBI QUE EU ERA ALGO MEU

Meu, meu.


Eu era meu.


Tanto tempo para perceber isso, que tempo já não havia mais. As rugas tinham se espalhado pelas linhas do meu cobertor-pele, como raio queima chão quando nele se espatifa. As marcas de tudo que eu já passara na vida, faziam parte da identidade do meu semblante. Cada cravo, corte, cicatriz, ruga...tudo me fazia ser espelho daquela montanha, antiga montanha.


Montanha cortada pelo vento frio, rasgada pela chuva afoita, resfriada pelo gelo, aquecida pelo sol. Montanha sofrida, montanha forte.


Percebi tanto eu naquela montanha. Ela, apesar de ser espinha da Terra, era algo só dela. Ela é mais ela. Ela e mais ninguém. Uma montanha consigo, sem mais. Um sentimento grosso me conectava àquele amontoado de pedra, humor, terra e dispor.


A imensidão de se descobrir, e de se cobrir de um novo sentido, me fazia próximo e amigo da montanha-amiga. Pensei que ela sorria em minha direção, feliz por minha descoberta. “Mas montanhas não riem”, logo pensei, para em seguida ser aterrorizado por um largo e profundo gargalhar emitido por aquele ente. 


A montanha, como quem quisesse acalmar a formiga que era eu, me contou um pouco de si. Tinha 7.932 anos. Já fora casada com um vulcão, com quem tivera três pequenos montinhos, hoje todos crescidos, senhores montanhas, de terno e gravata, prontos para orgulhar o sistema. 


Me contou tudo que vira em sua longa jornada. Suas viagens, suas destemperanças, seus amores. Eu, que tinha recém acabado de me descobrir meu, agora conversava com uma montanha. Pacata montanha.


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Eu e montanha, flutuando num espaço comum, preso à terra via brutos sonhos mortos.


Eu e eu, um perdido que acabara de descobrir que era propriedade sua.


A montanha, a me observar, uma pouca e pequena porção de massa chamada ‘humano’.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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