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Ricardo Carranza
São Paulo, 1953. É arquiteto e Urbanista, Mestre em Estruturas Ambientais Urbanas, Escritor, Editor, Pintor. Publicações – Scortecci, Sesc, Cult, Clesi, Zunái, Stéphanos, Germina, Cult, Mallarmargens, Cronópios, O arquivo de Renato Suttana, Triplov, & Escritas.org., Gueto, Ruído Manifesto. Livros de Poesia: Sexteto, Edição do Autor, SP, 2010; A Flor Empírica, Edição do Autor, SP, 2011; Dramas, G&C, São Paulo, 2012. Centelha de Inverno, G&C, São Paulo, 2019. Artigos e Ensaios in http://revista5.arquitetonica.com/ desde 2005.

MEU MÉTODO DE LEITURA

Parto do princípio que o autor é vivo e desconhecido do meio literário. Escolho dele o poema que me magnetiza. A arte de perder de Elizabeth Bishop tem essa qualidade. Leio o poema muitas vezes. Questiono a função do estribilho – A arte de perder não é nenhum mistério. Reescrevo o poema sem ele. Observo o resultado. Reviso o que acabei de fazer mantendo a frase apenas na primeira e última linha. Lendo e relendo resolvo recuperar a versão original. Leio em voz alta. Mudo palavras. Subverto a ordem dos fatos. Coloco – o relógio de mamãe entre vírgulas logo depois de – chave perdida. Não há limites à minha ousadia. Estrago a obra à vontade. A cada transgressão minha adesão ao poema cresce. A beleza da linguagem seduz. É simples, direta, objetiva. É como se Elizabeth apresentasse o seu poema a um pequeno grupo de amigos no Bar Brahma. Sua voz é clara com leves oscilações da emoção que resvala o ritmo da leitura. Ouvimos, relaxados, o timbre dessa mulher tão próxima. Chegamos a esquecer a grandiosidade do tema. E note que Bishop toca em – uma permanência no mundo (Carpeaux). A abordagem é subversiva. A vida não é um mar de rosas. Viver é adquirir perdas e normalizá-las. Quem não perdeu uma casa, um bairro ou um país inteiro? E com o suporte da perda, seus protagonistas e, não raro, sua história. Gente de carne e osso perdida. E o vazio, incomensurável, remanescente. Perde-se tudo, a poeta nos diz, até mesmo o amor. A abordagem coloquial edifica uma tragédia na brevidade de um poema de pouca extensão. Sinto-a subitamente fria. Lúcida. Perder, seja o que for, não é nada sério. Aceita-se o irrevogável. Ergue-se a cabeça. Segue-se em frente. É uma exigência da vida. A própria força do acidente, qualquer que seja a sua proporção, se escoa nos afazeres do dia a dia. O esquecimento é o sudário dos mortos (Sand). Então não faça uma tempestade num copo d’água. Considere. Até mesmo a morte, convenhamos – não é nenhum mistério.