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Renato Medeiros
É Doutor em Artes Visuais pela Universidade de Brasília (UnB), jornalista cultural e idealizador do perfil @pigmum.arte, sobre artes visuais, exposições e museus. Em 2021, foi premiado em 1º lugar no Salão Jovem Arte MT, na categoria Pintura.

MATÉRIA PLÁSTICA
Corpos extremos e o instante do colapso na fotografia ficcional de Sandro Giordano

Aimagem fotográfica não é a janela do real. Ela é o resultado de um recorte subjetivo do olhar, fruto de um ponto de vista, de enquadramentos abstratos no contínuo processo de atribuição de sentido ao mundo. Entre as diferentes práticas artísticas que fazem uso dessa linguagem, a fotografia ficcional se destaca como aquela capaz de produzir um fato-artifício, provocando o público a pensar duas vezes sobre a natureza do real quando se trata de fotografia.
O italiano Sandro Giordano faz isso por meio da ironia, do deboche. Em seu projeto IN EXTREMIS (bodies with no regret), que pode ser traduzido livremente para AO EXTREMO (corpos sem arrependimento), o artista inventa e fotografa o instante da derrocada de suas personagens. O exato momento em que aqueles corpos sucumbem ao mundo das aparências, vivenciando assim o desmoronamento de suas realidades inventadas.
Giordano brinca com aquilo que parece, mas não é. O público é agraciado com imagens de cenas inusitadas, improváveis, que perturbam as expectativas daquilo que usualmente seria a fotografia de um quarto de hospital, de um jogo em uma quadra de tênis ou de um banho de sol na praia. Em uma das imagens, a personagem é praticamente esmagada por uma xícara gigante de café. Em outra, a personagem aparece caída, ao sair de um carro, cercada por garrafas de bebidas, inclusive recebendo whisky diretamente na veia. Numa terceira imagem, outra personagem aparece caída no chão, com suas sacolas de grife espalhadas pela calçada.
Essas imagens satirizam os costumes da sociedade que fetichiza o consumo na era do excesso, inclusive do excesso de faz de conta. São figuras humanas cansadas da representação cotidiana, estereotipada e distorcida por inúmeras práticas de edição e montagem. Corpos esgotados pela anestesia dos fármacos, do entretenimento, das bebidas alcoólicas e não alcoólicas, entre outros vícios contemporâneos.
São figuras humanas com rostos subtraídos, para que a expressão corporal tome forma e se destaque na composição. Ao adotar posições de vulnerabilidade, esses corpos parecem assumir uma condição maleável, que os transformam em elementos visuais plásticos. Corpos articuláveis, revelando formas inesperadas e distantes das habituais poses humanas registradas em fotografias. Não existe altivez, não existe a nobreza que geralmente é almejada pelo retrato fotográfico. Pelo contrário, as formas desenhadas por esses corpos expressam o azar de uma decadência estúpida e perplexa.
As imagens de Sandro Giordano, portanto, narram tragédias ou tragicomédias. Sobretudo, são histórias de fracasso. O clique no instante derradeiro em que a altivez do corpo dá lugar ao seu colapso, gerando formas curiosas, bem humoradas e cheias de plasticidade.