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Renato Medeiros
É Doutor em Artes Visuais pela Universidade de Brasília (UnB), jornalista cultural e idealizador do perfil @pigmum.arte, sobre artes visuais, exposições e museus. Em 2021, foi premiado em 1º lugar no Salão Jovem Arte MT, na categoria Pintura.

O RITMO GEOMÉTRICO DOS OBJETOS ABSTRATOS DE TILDE GRYNNERUP

Ritmo é um predicado diretamente associado ao tempo. Na música, o ritmo estrutura a duração, a periodicidade e a intensidade de cada som. Nas obras de Wassily Kandinsky, considerado um dos pioneiros da abstração no campo das artes visuais, estabelecer analogias à composição musical era exercício frequente. O que não é de se estranhar, já que a música seria uma linguagem abstrata por excelência.
O ritmo também está associado a outro atributo, talvez ainda mais comum às artes visuais: o movimento. A mudança de posição espacial em um intervalo de tempo. Nos objetos cinéticos de Abraham Palatnik o movimento é literal, alcançado mecanicamente. Mas essa não é a regra. Na maioria dos casos, esse efeito está apenas implícito, como nas pinturas futuristas de Giacomo Balla. Sugerir que os elementos de uma composição visual se movem no tempo é uma prática recorrente nas artes visuais e não seria exagero afirmar que essa sensação marca o trabalho de Tilde Grynnerup.
Como peças de uma engrenagem, diferentes formas produzidas em madeira se sobrepõem em composições policromáticas e monocromáticas, constantemente remetendo às três formas geométricas elementares destacadas por Kandinsky: o quadrado, o círculo e o triângulo. A partir dessas formas, os objetos de Grynnerup parecem se mover ininterruptamente, como as partes de um relógio mecânico antigo, desses de parede. É como se essa aparência de dinamismo revelasse a intenção de se aproximar de um certo equilíbrio de tempo, de um ritmo entre a forma e a cor. Corpos em funcionamento.
Essa relação se torna mais evidente quando a artista afirma que seus trabalhos resultam da interação entre o campo e a cidade. Os ritmos das vivências urbanas e as múltiplas formas e cores de Copenhagen, cidade onde a artista reside, se contrapõem à oficina de madeira que sua família mantém no campo, ao lado de uma pequena floresta. A madeira ganha contornos moldados por uma vida citadina, em trocas ritmadas que se sustentam pelo trânsito entre essas duas realidades.
Por fim, é possível adicionar ainda outra camada à dualidade que esse trânsito entre a cidade e o campo evoca. Afinal, em sua prática artística também há lugar para materiais têxteis, que dão origem a bordados, bandeiras, entre outros objetos de tecido, cuja textura macia contrasta à dureza da madeira. Nas palavras de Grynnerup, seus trabalhos comunicam um pensamento ou um sentimento. É como se expressassem a busca por uma harmonia entre a objetividade racional e a subjetividade do fluxo emocional.
Estão em movimento contínuo, portanto, a ordem e o caos, o natural e o artificial, o flexível e o inflexível, o estático e o dinâmico. Forças opostas, mas complementares, nutridas em cadência. Yin-Yang.