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Regina Pouchain

NA CAUSA DO SILÊNCIO

Para Marília Beatriz

Quando Eduardo Mahon me convidou para escrever sobre Marília Beatriz, dizendo que seria para um número da Revista Pixé totalmente dedicado a ela, logo, logo, comecei a refletir sobre o que eu deveria escrever entre tantas possibilidades, sem me tornar repetitiva, sabendo que o objeto de desejo mais aspirado, ia girar em torno da sua poesia. Passados alguns instantes, concluí que seria uma oportunidade de tornar público os misteriosos e inexplicáveis acontecimentos que vinham ocorrendo entre nós.


Ultimamente vínhamos conversando com bastante freqüência, seja por telefone ou através de mensagens no WhatsApp.  Era uma troca interessante, na maioria das vezes sobre arte em geral, cultura, poesia ou sobre nossos projetos. Recentemente havia me dito: “você foi um prêmio que Wlademir deixou para mim, como se de alguma maneira, eu pudesse estar com ele através de você”.

 

Certo dia, já em plena pandemia, ela me falou que estava com vontade de fazer um livro sobre o que seria o silêncio, onde ela pudesse perguntar para todas as pessoas comuns e intelectuais, sobre como definiriam o silêncio.

 

Estava determinada a entrevistar  taxistas, o padeiro da esquina, o verdureiro, enfim... os amigos poetas ou não.  Fiquei surpresa, sobretudo porque o silêncio, tal como cada um de nós o percebe, sempre me intrigou.  E justamente por isso, eu mesma tinha escrito muitos aforismos sobre o silêncio.  Ela também ficou surpreendida, então me disse: “envia pra mim seus aforismos, que eu também  te envio os meus”. E assim fizemos. Cada uma leu o arquivo da outra.  Pouco tempo depois, ela me liga, dizendo que tinha gostado muito, que estava resolvida, não ia mais fazer o livro com ninguém, e me perguntou se eu topava fazer o livro com ela.  Fiquei espantada com a idéia, mas disse imediatamente que sim.  Por que não? – perguntei.  A partir desse momento, nasceu  nosso livro. Amadurecendo a idéia sobre a estrutura do livro, comecei a pensar na visualidade.  Não consigo imaginar o objeto livro, sem um acordo com a sua visualidade.  Então propus à Marília, colagens que eu diagnostiquei como “os ruídos do mundo”, e como tal, fariam um diálogo com nosso texto - onde repousariam nossos silêncios.  Assim sendo, em comum acordo e em plena pandemia, eu alternava os poemas visuais que fazia sobre o vírus, a diagramação do meu texto e o de Marília, e as colagens para o nosso livro.  Pensei comigo: o título poderá ser algo como: Ruído/Silêncio, com o intuito de torná-lo mais visual.  Ela vibrava com as minhas propostas.  Eu disse:  “temos que fazer um livro bonito”.  Poeta em geral, só tem livro bonito depois que morre.  Nem Drummond conseguiu ter um livro bonito antes de falecer.  Então Marília me disse que estava tudo ótimo, a única exigência da parte dela é que ela gostaria que o livro fosse do tamanho do meu “Provenientes do Azul”.  Então completei: e de capa dura. Um livro mais artístico do que somente de poesia.


Com o avançar da pandemia Marília começou a questionar como estava o andamento do livro, quantos por cento faltava para terminar... Etc. Achei estranho.  Cheguei a dizer que não estava correndo, porque sabíamos que eu não poderia ir à Cuiabá e nem ela vir ao Rio, pois ninguém podia viajar.  Estávamos em pleno mês de maio.  Todo o Brasil em quarentena. Assim eu estava preparando o livro sem correria... Algum tempo depois, Marília disse que ia me enviar um documento por email, dizendo que se algo acontecesse com ela, eu poderia fazer o que quisesse com seu texto.  Aquilo me incomodou um pouco, então eu disse que faria o mesmo.  Pouco tempo depois, talvez um dois dias, ela me enviou através do zap, uma autorização, para que eu publicasse, enfim fizesse o que achasse melhor do seu texto, orientando sobre sua vontade.  Disse ainda que mandaria por email uma autorização bem melhor redigida.  


A partir daí compreendi que ela estava com receio de pegar o vírus.  Comecei a me preocupar muito e a correr com o livro, que a essa altura estava todo diagramado, mas eu precisava terminar as colagens/ruído do mundo.  Trabalhei incansavelmente durante dias e dias. Marília chegou a me propor um lançamento virtual e eu que não gostei muito, acabei aderindo à idéia. Estava ansiosa. Ia conversar com Matheus, sobre  sua experiência, em lançamento de um livro virtual.  


No dia 13 de junho comentei que o que tinha me salvo naquele dia, tinha sido nosso livro, pois era o dia, em que eu havia perdido minha irmã, dois anos antes.  Então ela comentou num áudio, que uma vez lamentando dolorosamente a perda da mãe, um amigo lhe disse algo fantástico: “a gente não perde ninguém, você guarda as pessoas na  memória, na admiração, no comportamento,  e até nas coisas que fizer no futuro”.


Falei que as imagens do livro estavam conversando com nossos textos e que eu ia enviar pelo Wetransfer para que ela as visse, assim que ficassem prontas.  Reclamou que um dos braços doía muito, que nem podia digitar.


No dia 15 enviei um zap dizendo que tínhamos 57 colagens prontas e quando completasse 60, enviaria. Eu estava correndo, correndo, e nem sabia direito o motivo. 


Domingo 21, ela escreveu curiosamente um texto analisando o meu trabalho, onde se pode ler o seguinte: “quanto à sua produção, muitas vezes imagino que a sua “mirada” vai para lá de qualquer real, isto é, o que você captura, o que você fabrica está próximo de uma luta interior, porém de algo impossível de descrever, o que em semiótica é o signo icônico - o indizível - agora o que é fantástico - você fala/produz em todas as linguagens tanto visual quanto textual. Aí está uma das suas riquezas e tem algo +, seu olhar atravessa a matéria presente e lança o que não se vê e o que virá...”


E continuou... “enquanto isso eu aqui trabalho com a cesta básica/alimento para a mente. Imagina que uma editora resolveu doar 65 livros, tive que recusar (mas achei legal). Fica bem e tenha um domingo rico!”  Ela se referia à uma das tantas campanhas que participou ou criou com sua inesgotável energia e generosidade.


Enviei então o último poema visual, feito no dia anterior sobre a pandemia, cujo título era: Ode à Vida.


Dia 23 de junho recebi a mensagem: “to cansada e com dor de cabeça. Uma correria para acertar a questão das cestas, carro rateado. Live hoje. Você mora no meu coração.  Conversei com Matheus.  Amanhã chamo você”.


Dia 24 ou 25 de junho telefonei pela manhã, Marília atendeu com uma voz terrível, parecia muito gripada.  Foi então que disse: “estou com pneumonia”. 


Creio que no dia 26 ela comentou que tinha melhorado, estava chegando da pneumologista e que o Ivens Scaff, um amigo querido de Marília, poeta e médico, tinha ido à sua casa.  Fiquei mais tranqüila.


Dia 3 de julho, dia em que preparava tudo, texto e imagens para começar a montar o livro no programa definitivo, Marília faleceu. 


Não sei se conseguiu ver as 60 colagens que cheguei a enviar.   Sei que nunca verá o livro tão desejado com seus últimos textos como matéria palpável.  Por outro lado ela conheceu muito bem seus fragmentos, combinações transversais, subjacentes.  Como tinha uma imaginação poética fortemente semiótica, soube com certeza ouvir o alcance da sua voz. Marília de fato não morreu.

 

Em sentido absoluto ninguém morre: os que amamos - parece pueril repetir mil vezes - estarão sempre entre nós, presentes em nosso comportamento, nas boas lembranças que nos trazem, em tudo aquilo que contribuíram, quer sejam experiências, ensinamentos, e em nossos projetos, com suas silenciosas iluminações.

Rio de Janeiro 20/07/2020

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