Ravenna Veiga
Artista do corpo, pesquisa os estados psicofísicos provocados em corpos femininos pelas marcas da violência, produzindo nas linguagens da literatura, dança e performance. Em 2019 teve seu projeto de performance/literatura O Silêncio de Cassandra selecionado em primeiro lugar no PROAC para Produção e Publicação de Obras de Ficção no Estado de São Paulo. Seu conto Boneca foi publicado na Ruído Manifesto e o conto Eva selecionado para a segunda temporada da Faísca (Revista Mafagafo). É frequentadora do Clube da Escrita Para Mulheres, coordenado por Jarid Arraes e Ana Clara De Vitto. Integrante da ColetivA Brada, de dança, é artista residente do Centro de Referência da Dança de São Paulo, debruçando-se sobre questões de gênero a partir de Rudolf Laban. Interessada em tragédia grega, é membro do Núcleo de Teatro da Areté Centro de Estudos Helênicos, coordenado por Leonardo Antunes e Jean Pierre Kaletrianos, com os quais estuda corpo e voz na tragédia desde Abril de 2019, tendo passado pela Oficina Cultural Oswald de Andrade, SP Escola de Teatro e Funarte. Também atuou na abertura de processo O Canto da Cabra, a partir de Agamêmnon, de Ésquilo, com orientação de Antônio Rogério Toscano, apresentada no Tucarena em Dezembro de 2019.Cursou graduação em Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP) com habilitação em Teatro. É colaboradora do Acervo Bajubá, voltado para preservação da memória e cultura LGBT brasileiras.  Iniciou seus estudos em dança em 1995 em ballet, sapateado e jazz, tendo posteriormente estudado dança flamenca na Cuadra Flamenca, tendo participado de espetáculos, tablados e mostras. Como estagiária atuou no Núcleo de Artes Cênicas do Instituto Itaú Cultural e no Centro Cultural São Paulo. 

Faz muito calor, os vidros do trem estão embaçados de respiração, a respiração de tantas caras com as peles grudadas, jogadas contra as paredes e janelas. O ar denso tem cheiro ácido de cansaço e dor. São apenas sete horas da manhã de segunda feira e à medida que tento me apoiar, sinto o tremor de tantas pernas para as quais ficar de pé já não é possível. Sete horas da manhã. Segunda feira. A vida se torna inviável. Não há problema, é a desvida – que nem sequer se merece morte – a exigência para aquela multidão de olhos baços, bocejos ininterruptos e fones de ouvido.
Eu tento respirar. Eu tento, eu tanto de mim devoro e regurgito para acender no olhar um brilho que divaga e sonha. O peito pesado me dificulta, mas a beleza da paisagem urbana e frígida, entrecortada pelo vapor de corpo ainda existe nas janelas da CPTM. Esse ar difícil se puxa forte para manter o pulmão respirando, mas ao menos vejo que um moço diante de mim sorri. Um sorriso largo e fácil que também desperta em meus lábios uma certa vontade de movimento, ele comenta alguma coisa sobre a falha no trem à frente e segue sorrindo. O calor aumenta, o trem parado enquanto um vendedor grita exumando os restos de moedas de carteiras vazias, ele passa com dificuldade, bagunçando a multidão apinhada de corpos.
 Sinto o calor aumentar, um filete de ar quente junto à base de meu pescoço me parece indistinto até que o ruído denuncie uma respiração. O trem volta a caminhar, sacudindo os seres humanos de um lado para o outro, no entanto, meu pescoço e minhas orelhas seguem aquecidas pelo ar alheio, tão próximo que partículas de coisas infectas que habitam o seu pulmão se depositam sobre minhas curvas. Um arrepio começa bem pequenino e em um segundo parece demasiado lento, quando sobe por toda a minha coluna. Asco, me causa arrepio. Eu não consigo ver seu rosto, mas tento desviar. Não me interessa que cara tenha, não me interessa. O balançar inconsequente do trem arranca meu corpo-coisa de onde está e o joga contra o estranho de quem tudo o que conheço é a temperatura de seu corpo e a textura de sua pele, já tanto mais do que conheço da maioria das pessoas. Não posso ver seu rosto, mas o respirar me parece emoldurado por um meio sorriso e espelhado encontro o moço da frente: finalmente entendo a razão daquele sorriso. Às sete horas da manhã de uma segunda feira nada, nada é gratuito.
Sem que qualquer mão áspera de um homem enlace meu corpo, eu me imobilizo. Meus músculos me agarram os ossos, habituados com o porvir mulher, como se já esperassem o desfecho forçado e ríspido do corpo de um macho. Toda a poesia com a qual eu poderia preencher estas linhas se esvai, aqui, de agora em diante, só há corpo. Corpo no mundo, mulher no mundo. Um saber ser fêmea coreografado pela vida que silencia minha boca e me impede os movimentos, meu corpo que paciente espera receber seu homem, as sete da manhã de uma segunda feira, na CPTM.
 Estação Corinthians-Itaquera. A parada do trem derruba a alça fina de minha blusa de cetim preto, percebo meus seios tímidos debaixo de uma camada parca de tecido que hesita em cobri-los. A porta se abre. O empurra-empurra me aproxima ainda mais daquele estranho, o moço do sorriso gratuito acha graça maior ainda quando pousa discretamente seus olhos envergonhados no pequeno pedaço de cetim que me protege da nudez. Minha boca se abre sem que saia dela qualquer som, por um momento penso que vou falar, mas percebo que a coreografia das mulheres me impõe uma espera até que um outro homem queira vislumbrar os lábios de uma boneca inflável. Na verdade, são dois. Dois que me percebem quase nua, encostada num rapaz que se delicia com a pele macia de um pescoço de mulher. De uma mulher estranha, silenciosa e passageira.
Toda feita de ausência permaneço ali, sentindo minhas escápulas devorarem minhas orelhas, como se débeis tentassem proteger os meus ouvidos de alguma fala pornográfica. Minha garganta travada me impede qualquer reclamação e nos entremeios e tramas de seus músculos lembro da vovó dizendo: É melhor não reagir, vai que ele te bate. Elas, as mulheres mortas e passadas foram fiandeiras de cada uma de minhas veias prostradas de medo e nojo, elas me ensinaram a dançar estes passos e os caminhos marcados que meus braços conhecem ao agarrar em vão meu próprio corpo.  Os olhos deles me devoram, ao menos os voyeurs veem minha cara de terror, minha palidez e meus lábios que tremem, contrariando toda a imobilidade de mim. O rapaz de trás que naquele exato momento provoca um certo volume entre minhas nádegas desconhece meu terror. Em algum lugar de si ele pensa: Ela está gostando.
Todo o fluxo de passageiros desembarca em uma estação, e todos eles, meu amante desconhecido e nossos voyeurs me deixam para trás. Tateando minha calça, noto a umidade. Minhas pernas tremem até que eu note meu próprio suor frio. Sento num banco do trem, apertando contra o peito a mão úmida e gelada, sem saber se me felicito por aquele homem não ter ejaculado em mim, ou se choro porque meu corpo se ejacula de pavor.
Os cabelos das minhas têmporas estão grudados, minha visão nublada por uma gota que escorre entre meus pequenos cílios, arrumo a alcinha da blusa de cetim e noto meu peito tão molhado, com aquele brilho de corpo de atriz pornô depois de um golden shower. Ele não gozou em mim, eu não senti qualquer prazer ou encanto, mas meu corpo transborda de um suor tenso e ácido. Um suor que me cobre de quem eu não sou. Meus seios parecem maiores, minha pele tem um brilho plástico, talvez o mesmo que se tenha esvaído de meus olhos. A rigidez dos músculos não se atenua e eu fico ali, paralisada, com a boca aberta e o corpo cheio de ar, inanimada e inflada pelo ar quente daquele dia.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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