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Raquel Naveira
É escritora, professora universitária, crítica literária, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, autora de vários livros de poemas, ensaios, romance e infanto-juvenis. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (onde exerce atualmente o cargo de vice-presidente) e ao PEN Clube do Brasil. 

NAVIO NEGREIRO

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura...se é verdade
Tanto horror perante os céus?!”

                                    Castro Alves

Que nau é essa
De velas negras
Contra o azul do mar?
É um caixão jogado às águas,
Sepulcro secreto
Onde homens negros
Gemem e rosnam
Como feras acuadas,
Panteras famintas
Amarradas por correntes;
Nos olhos, 
Chispas de raiva,
Loucura infinita
De quem está preso numa cripta.

O esquife balança,
Por todo lado há vômito,
Sujeira,
Braseiro,
Gemidos mórbidos,
Carnes dilaceradas
E gritos de feiticeiros.

Pela proa,
Pela popa,
Correm as sentinelas da Coroa,
É preciso guardar o ouro,
O marfim,
Os escravos;
A cobiça é um abutre
Que devora os fígados
E atordoa as almas.




Que nau é essa?
No incerto lusco-fusco?
Pertence à Companhia da Guiné?
Veio da Nigéria,
Do Congo,
De Daomé?
Que esconde em seus porões?
Ratos,
Fezes,
Fumo?
É uma tumba sem rumo,
Recheada de ossos
De valentes guerreiros.

De repente,
Vibra o açoite
Do cruel açougueiro,
Há um vampiro que suga
E o brilho de um tocheiro.


Essa nau
É um navio negreiro,
Um navio luso-brasileiro. 

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