Rafaella Elika Borges
Dê me papel e caneta, sem hesitar, escreverei sobre mim, você, nós e tudo o que aconteceu ou deixou de acontecer nessa história e a tinta penetrará a folha marcando até o outro lado com todo esse vazio sobre o qual escrevi. Rafaella Elika Borges nasceu em 1995, Cuiabá – Mato Grosso. Estuda Psicologia na UFMT. Contista, cronista e metida a romancista. É amante da psicologia, filosofia, cosmologia e suas deliciosas vertentes. Escreve porque tem um cérebro que necessita ver o próprio reflexo, seja num espelho, vidro de ônibus, num papel de caderno ou até na tela de um computador desligado. A autoafirmação mantém sua existência e assim ela finge que existe.

SÃO LONGUINHO

 

Pela estrada linear e abandonada que liga o Monte de Juan com a vila de Santa Maria, havia um cemitério antigo onde fui para conseguir algo temporário e ajudar em casa com alguns trocados. 
Fui recebido por um velho magro e de estatura baixa, curvado como um bambu pressionado dos dois lados, tinha uma barba de anos não feita, catarata no olho esquerdo e a pele enrugada como uma torta murcha e fria. Usava uma camisa de algodão já encardida, calça marrom e uma sandália gasta que sustentava os pés cascudos, seus cabelos eram cinzentos até o ombro e levemente grisalhos perto das orelhas e possuía sobrancelhas grossas e brancas que pesavam o olhar intimidador. Me recebeu com gestos ariscos, olhos esquivos, mas me empurrou a enxada na qual apoiava o antebraço em um gesto de aceitação e se virou para entrar em uma cabana que havia perto da grande capela ao lado dos túmulos. Eu dormia no fundo da igreja que tinha no canto do cemitério, acordava antes do sol, dobrava minha esteira e saia para cavar as covas. 
O cemitério era praticamente abandonado, cavávamos as covas para passar o tempo. 
Muitas vezes eu tentava remendar uma conversa durante o trabalho, mas o velho nunca dava abertura, só me olhava de canto enquanto a catarata pulsava. 
Com isso, meus dias eram finados, como os moradores do lugar. O último defunto fora uma senhorinha de noventa e sete anos que morrera dormindo. Ouvi comentários dos parentes presentes no enterro sobre seu comportamento bonançoso diante da vida. Também ouvi que tricotava à tarde toda em frente ao rádio da cozinha enquanto rezava o terço mentalmente. 
Trágico, porém era minha rotina.
Via crianças sem culpa sendo enterradas, idosos esquecidos pelas próprias famílias, pais de família mortos por peste, mães de família espancadas até a morte e inclusive, certo dia, um matador de pulso áureo.
Estranhei um homem com a alma em condição tão sórdida como aquela ter sido aceito tão mansamente pelo velho.
“Enterre ali”.
Apontou para uma cova que ele mesmo fizera ao lado do barraco onde dormia.
“Não podemos enterrar ali, está muito perto de onde dormimos”.
O velho fez uma cara murcha e pesarosa, como se somente aquilo o fizesse sorrir novamente.
“Por favor, enterre-o ali, não me importo”.
Por favor, de maneira certa, estava fora do vocabulário do vetusto ranzinza.
Notei que certo tempo depois de ter enterrado a senhorinha católica, havia me tratado com mais polidez e civilidade. Não mais cuspia quando me via sair da capela ou pedia as coisas com rispidez e autoritarismo, havia deixado de ser prepotente e rezava todas as manhãs para a imagem de Nossa Senhora na capela onde eu dormia. E antes da velhinha ser enterrada, ele cavara uma cova e enterrara um homem cuja personalidade era de um anedotista nato. Ouvi os familiares comentarem baixo sobre as histórias que contava, as desculpas que inventava e demais coisas sobre seu jeito chistoso de levar as coisas. Após o enterro, não passara meia-hora para o velho me puxar de lado e começar a contar relatos, talvez não reais, sobre sua vida. 
Narrou a história de uma necromante que certa vez pedira para ler-lhe o futuro da palma da mão e ele recusara com desdém a oferta da mulher, que, em seguida, começara a descrever piamente seu caráter, sua insuportabilidade, seu pedantismo e, de certo, sua presunção. Acreditava que a vida deveria ser levada do modo como ele via que deveria ser levada.
“Não só você, mas seus procedentes e sua cidade sofrerão com sua arrogância”.
Disse-me que a mulher soltara tal frase e imediatamente empeçara a sussurrar palavras em uma língua estranha e que balbuciava seu nome no meio das frases desconexas que lançava de dentro do capuz marrom que usava. Prontamente, ele começara a sentir dores na cabeça e um misto de emoções tomara seu coração, ele não sabia se chorava, se sentia medo, se queria matá-la ou se simplesmente poderia ignorá-la. Logo que as dores cessaram, ele balançou a cabeça rapidamente e cuspiu no chão ao notar que a cigana desaparecera. Deixara o mercado e me dissera que a partir do dia que recusara os serviços da mulher começara a ter cefaleias infindáveis e costumava fazer coisas das quais se arrependia constantemente.
Terminou a história e sem demora soltou uma gargalhada rouca e velha para fora da boca.
Depois da certa história não conseguira entender mais nada em relação ao velho.
Por que mudara bruscamente o comportamento? Por que queria tanto que eu enterrasse o homem ali, se as covas só começavam a ser cavadas quinze metros longe da capela?
“Tenho vergonha em admitir, mas... este homem é meu irmão”.
Me assombrei.
Isso já explicava por que ele queria tanto que o defunto fosse enterrado perto da Igreja, mas ainda não me explicava seu comportamento mutável. Eu queria não pensar na verossimilhança de que aquela história era realmente verdadeira, de que os fatos juntados dariam na resultância de que ele fora amaldiçoado por uma necromante a absorver o comportamento das pessoas que enterrava e que até agora ele realmente não tinha notado isso. Eu não queria pensar naquilo, mas tudo me empurrava para o fato de que eu precisaria dar um jeito naquela situação, senão pessoas inocentes pagariam pelo pecado de um só homem.
Se ele enterrasse seu irmão iria se tornar um assassino inclemente, eu precisava enterrá-lo em vez do velho.
“Deixe que eu cuido dele para o senhor”.
“Eu imploro, não me tire o direito de me redimir com meu irmão, deixe-me enterrá-lo como um último perdão”.
Por que ele havia de ter enterrado aquela velhota tão boazinha logo nessa hora? Não podia recusar deixar o homem enterrar seu próprio irmão, mas também não podia deixar ele se tornar um homem corrompido com minha concessão. Eu precisava intervir.
Fomos dormir e eu fiquei à noite inteira a pensar em como eu impediria que o homem ressuscitasse um espírito assassino sem que eu tirasse seu direito de enterrar o próprio irmão.
Eu precisaria matá-lo em seguida, era o único jeito, eu sabia que não me perdoaria pelo resto de minha vida, mas eu precisava pensar nas outras pessoas.
Acordou antes de mim no outro dia e começou a preparar o corpo do irmão, lavou com água e sabão e massageou seu rosto antes de passar o extrato vegetal para o embalsamento simples do corpo. Eu fiquei do lado de fora da capela maquinando um jeito rápido de matá-lo sem machucá-lo ou desrespeitá-lo. Eu estava com o antebraço apoiado na ponta da enxada o aguardando me chamar para levarmos o corpo para fora.
Ele me gritou de dentro da capela e levamos o defunto para fora em cima de uma tábua enorme de madeira que usávamos para embalsamar os corpos, colocamo-lo dentro de um caixão de madeira que ele mesmo fizera há umas semanas atrás e enquanto ele batia os pregos na tampa eu ressumava frio, tinha calafrios que me invadiam de tempos em tempos.
A cada martelada uma nova brisa infestava meu corpo internamente. Não sabia qual era a melhor hora para matá-lo de uma vez. Eu protelava o feito, pois queria que ele pudesse se despedir por completo do defunto.
“Que você descanse em paz com Nossa Senhora e São Longuinho, santo que pecou como você, meu irmão”.
Ele martelou o último prego três vezes. Na terceira, ele abriu e fechou a mão por completo num ato de descanso e conclusão.
Era agora.
Eu levantei a enxada paralela ao lado direito do meu rosto e casquei uma pancada certeira no ouvido direito do velho. Ele estremeceu levemente e enrijeceu o corpo desfalecido em cima do caixão de seu irmão.
Estava feito.
Eu só precisava enterrá-lo junto como um ato de remissão da minha parte.
Havia terminado de jogar o último restolho de terra que havia sob minhas botinas. 
Agachei e tirei o rosário que usava em volta do pescoço, pendurei na pequena cruz que finquei em cima do túmulo de ambos e levantei, fiz o sinal da cruz e me aliviei em pensar que acabara de salvar a vila.
Após beijar meus dedos, senti uma dor de cabeça infindável, escarrei no túmulo e fui beber alguma coisa, bem longe dali.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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