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Pedro Casaldáliga
Dom Pedro Casaldáliga (1928 /Balsareny – 2020/Brasil) foi enviado ao Brasil em 1968 como padre da Missão Claretiana. Em 1971 foi nomeado primeiro bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, região nordeste do Mato Grosso. No ano de 2005, acometido do mal de Parkinson, apresenta sua renúncia a Santa Sé, permanecendo como bispo emérito até sua morte por complicações de saúde na cidade de Batatais-SP. Pedro, como gostava de ser chamado, deixa uma vasta produção literária e documental. Seu legado intelectual e solidário pode ser contemplado pelas lutas que empreendeu e através de instituições que tornarem-se referência na luta pelos direitos humanos.

01.

[...]

No campo, na mata, no cerrado e na caatinga,

Nos lagos e nos rios,

Violados pelo arame farpado do latifúndio,

Pelos agrotóxicos assassinos,

Pelo maquinário das madeireiras e mineradoras

E pelos projetos faraônicos

Das monoculturas, das barragens,

Das hidrovias, das hidrelétricas,

Sejamos “o novo”:

O antigo jeito novo de zelar da Terra

Como de uma esposa-mãe.

Salvemos dos transgênicos

E de toda manipulação suicida a biodiversidade.

Agasalhemos a vida e o cosmo

Como se agasalham, nos ninhos, as asas do futuro

[...]

 

(Cantemos ao Deus da novidade, de Orações da caminhada, Verus Editora,2005)

02.

Quero escrever a alma desta hora,
como quem prega na lapela de festa
a borboleta última
– creme, limão, canário –
que acaba de pulsar entre meus olhos
bêbados de formosura…
A beleza perfeita destas águas amigas;
a vida exuberante da floresta múltipla:
o sarã rasteiro chapinhando,
o alto louro moço,
a imbaúba – figueira de lapela virada,
o vermelhão estendido
e a taboca fiandeira
de filamentos amarelos e de lancetas verdes-claras.
Revoa um papagaio, travesso de alegria.
Cruzamos ilhas, lagos, enseadas.
As nuvens lassas dão ao rio quieto
um tom de transida madrepérola.
E o sol do Mato Grosso faz-se tíbio
para não calcinar tanta beleza.

 

O barco pára. Falam os meninos
do tão falado amor.
E riem duas mocinhas morenas, na margem,
descalças, despenteadas,
pura beleza índia em bruto.
Outra vez se adiou o casamento!

 

Ronca o motor de novo. A menina
de mil sangues cruzados
– Ásia, África, Europa: Ó América!
me sorri, com dentes espaçados
e umas tranças minúsculas,
emoldurada na luz pela janela
aberta à flor do rio.

 

Depois entre as páginas do livro
– a palavra e a margem paralelas –
uma inhuma no peitilho branco
alça o vôo, inefável, desta areia
eriçada de um verde calafrio.

 

(Beleza perfeita, de Antologia Retirante, Civilização Brasileira, 1978)

03.

Chegávamos a um mundo sem retorno.

 

(Creio na Justiça e na Esperança, Civilização brasileira, 1979).

 

 

04.

Cortando a floresta, na baixada escura,

e cúmplice o vaivém dos palmeirais,

a terra arroteada pelo trator paulista:

vermelha, roxa, amarela, cinza, creme, branca.

Com um ferraz olor de menina núbil,

de carne ferida e limpa,

de virgem parturiente.

 

Terra amor e cobiça.

Terra de lavradio.

Terra de latifúndio.

Terra de estrada.

Terra de sepultura.

 

(Terra aberta, de Antologia Retirante, Civilização Brasileira, 1978)

05.

Embiruçu

Calado e nu.

 

Sertão bravio,

terra queimada:

o desafio

da retirada.

 

A Lei esquece

e o Lucro manda.

Mas quem merece

teimando cresce

nesta demanda.

 

Embiruçu

teimando nu.

 

(Embiruçu, de Antologia Retirante, Civilização Brasileira, 1978)

 

06.

Eu morrerei de pé como as árvores.

Me matarão de pé.

 

O sol, como testemunha maior, porá seu lacre

sobre meu corpo duplamente ungido.

 

E os rios e o mar

serão caminho

de todos meus desejos,

enquanto a selva amada sacudirá, de júbilo, suas cúpulas.

 

Eu direi a minhas palavras:

-Não mentia ao gritar-vos.

Deus dirá a meus amigos:

-Certifico

que viveu com vocês esperando este dia.

 

De golpe, com a morte,

minha vida se fará verdade.

Por fim terei amado!

(Profecia extrema, de Antologia Retirante, Civilização Brasileira, 1978)

 

07.

“Perder a terra, perder a língua, perder os costumes, é perder o chão da vida, deixar de ser. Deixar de ser aquele Povo e, geralmente, deixar de ser mesmo. Quem não respeita uma Cultura, quem age etnocentricamente, ‘escraviza’, sim.”

(Excerto de, de Missa da Terra sem Males, Tempo e presença, 1980)

 

08.

Réplica vegetal da teimosia

do Povo sertanejo,

os paus deste cerrado a sol batido,

duros sobreviventes.

(Cerrado, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

09.

A Mata ficou torrão,

o Campo virou Empresa

e a Cerca cerca o país.

Natureza e lavrador

foram-se embora daqui.

(Desolação, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

10.

Nascer e morrer

é fácil.

O difícil é viver.

(Hai-kai do sertão, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

 

11.

“É proibido jogar lixo”...

Pode-se jogar

gente.

(Placa de subúrbio, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

 

12.

“Enfrentam a doença própria e alheia com grande sangue frio e a suportam como um mal contra o qual não vale a pena lutar. O mesmo se diga em relação à morte que eles “acolhem” como a chuva depois da seca. Nem mesmo o choro é comum. É um povo sofrido de verdade. Só mesmo quem testemunha pode falar e o faz com grande angústia, percebendo a vida infra-humana desta gente, que não tem consciência dos seus próprios direitos de pessoa humana.”

(Excerto de, Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social, s/n, 1971)
 

 

13.

[...]

E nós te violamos

ao fio das espadas,

no fogo do arcabuz

queimamos teu sossego.

E nós te escravizamos.

E nós te sepultamos

nas fendas dos garimpos.

 

E dobramos o teu corpo

sob os canaviais.

E te jogamos contra

as árvores amadas,

para cortar madeira,

cortando o teu espírito,

o cerne do teu Povo.

[...]

E nós te depredamos,

desnudando as florestas,

calcinando teus campos,

semeando veneno

nos rios e no ar,

a Terra generosa

separando por cercas,

os homens contra os homens:

para engordar o gado

da fome nacional,

para plantar a soja

da exportação escrava.

(A terra dos males sem fim, de Ameríndia Morte e Vida, Vozes, 2000)

 

 

14.

Chegam, por fim, as chuvas.

Chora o deus das chuvas aqui também, talvez.

 

Leitosidade total, escurecida luz, sem hora alguma,

sem horizonte; rio, terra e céu

fundidos em um halo.

 

Com gaivotas ainda, desparafusando-se

sobre as praias de água, que o rio abre em seus seios

para acolher o vento cúmplice.

 

A chuva bate, chia e chapinha

na água, na terra, nos telhados,

nas árvores apenas suspeitadas.

 

Chove chuva na chuva,

Torna a chover, um dia e outro dia.

Hoje é a orchata cósmica.

Passa um homem molhado, como um mito.

Lavam roupa na chuva, as mulheres,

com as roupas vestidas,

lavando-se no rio e na chuva.

 

Um cavalo, assustado, sem destino

__cinzas empanadas __

olha não sabe onde,

nem sabe bem o que espera,

É carne do sertão: está molhando-se,

Impotente e anônimo...

 

Entre o cruzeiro seco e a verde mangueira exuberante,

levanta uma árvore em flor, toda só flor,

a bandeja carmim de sua alegria.

 

Piam os pardais

no ninho de casa que alugaram sem recibo e sem licença.

 

Chove. Torna a chover. Continua chovendo.

Será dia ainda?

 

Chove tão manso agora

que se empapam as coisas, com a alma,

de uma graça de Deus, feita batismo agreste.

 

Três barcos, na água e na areia,

como sapatos velhos, se molham tão submissos.

 

E o céu, como um mármore.

 

Chove,

Chove...

Esta chuva,

que chega,

de súbito,

como um trem desconhecido,

invadindo tudo loucamente!

(As Chuvas, de Antologia Retirante, Civilização Brasileira, 1978)

 

 

15.

“Nos primeiros meses, Manuel e eu viramos enfermeiros, guiando-nos, um pouco às cegas, pelas bulas dos remédios. Pudemos comprovar de perto a presença múltipla, avassaladora, da doença e da morte na região. [...] Na primeira semana da nossa estada em São Félix, morreram quatro crianças e passaram por nossa casa em caixas de papelão, como sapatos, em direção daquele cemitério sobre o rio, onde posteriormente haveríamos de enterrar tantas crianças [...] e tantos adultos – mortos ou matados – talvez sem caixão e até sem nome”

 

(Excerto de, Creio na Justiça e na Esperança, Civilização brasileira, 1979).

 

16.

“começamos a sentir o problema da terra. Ninguém tinha terra própria. Ninguém tinha um futuro garantido. Todo mundo era retirante, emigrante de outras áreas do país já castigadas pelo latifúndio”

 

(Excerto de, Creio na Justiça e na Esperança, Civilização brasileira, 1979).

 

17.

“Mato Grosso era e ainda é uma terra sem lei. Alguém o tinha classificado como o Estado-curral do Brasil. Não encontramos nenhuma infra-estrutura administrativa, nenhuma organização trabalhista, nenhuma fiscalização. O Direito era do mais forte ou do mais bruto. O dinheiro e o 38 se impunham. Nascer, morrer, matar, esses sim, eram os direitos básicos, os verbos, conjugados com uma assombrosa naturalidade.

[...]

Eram os peões, carne de carregação, trabalhadores braçais, comprados fraudulentamente no Norte e no Centro do País e descarregados para os trabalhos de derrubadas e plantação de pastos, nessas infinitas fazendas de centenas de milhares de hectares, verdadeiros campos de concentração.

[...] peões enganados, controlados a revólver, espancados, feridos ou mortos, cercados na floresta, em total desamparo de qualquer lei, sem nenhum direito, sem saída humana.”

(Excerto de, Creio na Justiça e na Esperança, Civilização brasileira, 1979).

18.

“E à medida que íamos chegando, invadia-me o dever, a amargura, a foça solidária do problema da terra. Essa palavra crescia em mim como um crime.”

 

(Excerto de, Creio na Justiça e na Esperança, Civilização brasileira, 1979).

 

19.

“Nada dessa terra ou desses homens nos é indiferente. Denunciamos fatos vividos e documentados. Quem achar infantil, distorcida, imprudente, agressiva, dramatizante, publicitária, a nossa atitude, entre na sua consciência e leia com simplicidade o Evangelho; e venha morar aqui, neste sertão, três anos, com um mínimo de sensibilidade humana e de responsabilidade pastoral.”

 

(Excerto de, Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social, s/n, 1971)

 

20.

“Duas mulheres, sobretudo, dona Margarida e dona Santana, estavam sofrendo na delegacia, impotentes, e sob torturas – um dia sem comer e beber, de joelhos, braços abertos, agulhas na garganta, sob as unhas – essa repressão desumana.

Eram mais de seis horas da tarde, e seus gritos se ouviam da rua: ‘Não me bata!

[...]

A escuridão que chegava, a areia da rua, o terror perceptível no ar, no silencio, nos acompanharam.

[...]

Quando o padre João Bosco disse aos policiais que denunciaria aos superiores dos mesmos as arbitrariedades que vinham praticando, o soldado Ezy Ramalho Feitosa pulou até ele – três metros apenas – dando-lhe uma bofetada fortíssima no rosto. Inultimente tentei cortar aí o impossível diálogo: ‘João Bosco vamos...’ O soldado, seguidamente, descarregou também no rosto do padre um golpe de revólver e, num segundo gesto fulminante, o tiro fatal, no crânio [...] O ar congelou-se, e a noite.”

 

(Creio na Justiça e na Esperança, Civilização brasileira, 1979).

 

 

21.

Para descansar

eu quero só

esta cruz de pau

como chuva e sol,

estes sete palmos

e a Ressurreição!

 

Mas para viver

eu já quero ter

a parte que me cabe

no latifúndio seu:

que a terra não é sua,

seu doutor Ninguém!

A terra é de todos

porque é de Deus!

 

Para descansar...

 

Mas para viver,

terra eu quero ter.

Com Incra ou sem Incra,

com lei ou sem lei.

Que outra Lei mais alta

já a Terra nos deu

a todos os pobres

sem voz e sem vez;

que os filhos da gente

são gente também!

 

Para descansar...

 

Mas para viver,

terra exijo ter.

Dinheiro e arame

não nos vão deter,

Mil facões zangados

cortam pra valer.

Dois mil braços juntos

cercam terra e céu.

 

Para descansar...

 

Mas para viver,

terra e liberdade

eu preciso ter.

E não peço esmola

nem compro o que é meu.

A Sudam e o diabo

podem se vender:

gente não vende,

nem se compra Deus!

(Cemitério de sertão, de Antologia Retirante, Civilização Brasileira, 1978)

 

22.

“aliciados fora, são transportados em avião, barco ou pau-de-arara para o local da derrubada. Ao chegar, a maioria recebe a comunicação de que terão que pagar os gastos de viagem, inclusive transporte. E já de início têm que fazer suprimento de alimentos e ferramentas nos armazéns da fazenda, a preços muito elevados. [...]

Para os peões não há moradia. Logo que chegam, são levados para a mata, para a zona da derrubada onde tem que construir, como puderem, um barracão para se agasalhar, tendo que providenciar sua própria alimentação. As condições de trabalho são as mais precárias possíveis. [...]

O peão depois de suportar este tipo de tratamento, perde sua personalidade. Vive, sem sentir que está em condições infra-humana. Peão já ganhou conotação depreciativa por parte do povo das vilas, como sendo pessoa sem direito e sem responsabilidade. Os fazendeiros mesmo consideram o peão como raça inferior, como o único dever de servir a eles, os “desbravadores”. Nada fazem pela promoção humana dessa gente. O peão não tem direito à terra, à cultura, à assistência, à família, a nada. É incrível a resignação, a apatia e paciência destes homens, que só se explica pelo fatalismo sedimentado através de gerações de brasileiros sem pátria, dessas massas de deserdados de semi-escravos que se sucederam desde as Capitanias-Hereditárias”

 

(Excerto de, Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social, s/n, 1971)

 

23.

“Ontem, a uma da tarde, morreu o peão Antônio Barbosa de S. Miguel do Araguaia, aquele rapaz de 21 anos que a Irmãzinha e do Didi levaram a Sta Isabel. Morreu de malária, com tifo parece. E tivemos de enterrá-lo urgentemente, enquanto caía a tarde... Eu tinha enrolado o cadáver com panos que sobraram dos uniformes do Ginásio e que tinham servido de cortina e de tela. Levamos Antônio de jipe ao cemitério. Acompanharam-nos um boiadeiro, “o Cearense” e dois peões. Pedi, a eles e aos coveiros, que nos sentíssemos pais, irmãos, amigos, daquele pobre moço abandonado que ia ser enterrado até mesmo sem caixão. Enquanto eu rezava a oração da sepultura, a passarada do piquizeiro começou a cantar. Todo um acúmulo de sentimentos – ira, compaixão, esperança, pobreza – me subiu à garganta e a voz se me quebrou em pranto. Ficava no ar da tarde, ameaçante de nuvens e relâmpagos, uma poderosa verdade: Eu sou a Ressurreição e a Vida... Joguei terra sobre o cadáver. Eu queria solidarizar-me com Antônio, com todos os peões, com todos os injustiçados do mundo. Contra o supersticioso costume desta região de sepultar com o rosto virado para o rio, Antônio foi enterrado de cara para as fazendas. Como uma acusação. De cara para o morro e para o céu também...”

 

(Excerto de, Creio na Justiça e na Esperança, Civilização brasileira, 1979).

 

24.

“Daqueles dias, trago a imagem de uma árvore que queimamos involuntariamente, como quem carrega o remorso de um homicídio. Digo isto para explicar como me doíam, à minha chegada em Mato Grosso, os infinitos tocos das queimadas do latifúndio.”

 

(Excerto de, Creio na Justiça e na Esperança, Civilização brasileira, 1979).

 

25.

[...]

Tijolo trás tijolo, cresce o Povo.

Cada golpe de enxada

Abre um seio de vida.

Brotam as margaridas da

Utopia invencível.

A panela crivada,

Alvo do latifúndio,

Vira um cálice cheio de Promessa

[...]

(Eucaristia, dom de Deus, fruto do trabalho, de Murais da Libertação, Edições Loyola,  2005)

 

 

26.

[...]

As ferramentas gritam

a força do trabalho organizado,

o fraterno poder das mãos unidas.

 

Bem por trás da cadeia, derrubada

a golpes de teimosa rebeldia,

vinga a aurora do Reino.

E as cercas da cobiça se retorcem,

cortada pela marcha justiceira.

 

Ainda há torturados

nas masmorras da noite.

Há desaparecidos,

nos cúmplices silêncios.

Inutilmente, império, inutilmente!

Nossos caídos tombam

com a flor da esperança

nas mãos ressuscitadas.

nossos mortos caminham,

arrastando consigo a História Nova.

contra os berros da morte,

as palavras da vida:

Terra! Libertação!

(O maior amor, de Murais da libertação, Edições Loyola, 2005).

27.

Esta é a Terra nossa:

a Liberdade,

humanos!

 

Esta é a Terra nossa:

a de todos,

irmãos!

 

A Terra dos Homens

que caminham por ela,

pé descalço e pobre.

Que nela nascem, dela,

para crescer com ela,

como troncos de Espírito e de Carne.

Que se enterram nela

como semeadura

de Cinzas e de Espírito,

para fazê-la fecunda como uma esposa mãe.

Que se entregam a ela,

cada dia,

e a entregam a Deus e ao Universo,

em pensamento e suor,

em sua alegria,

e em sua dor,

com o olhar

e com a enxada

e com o verso...

 

Prostitutos cridos

da mãe comum,

seus malnascidos!

Malditas sejam

as cercas vossas,

as que vos cercam

por dentro,

gordos,

sós,

como porcos cevados;

fechando,

com seu arame e seus títulos,

fora de vosso amor,

aos irmãos!

(Fora de seus direitos,

seus filhos

e seus prantos

e seus mortos,

seus braços e seu arroz!)

 

Fechando-os

fora dos irmãos

 e de Deus!

 

Malditas sejam

todas as cercas!

Malditas todas as

propriedades privadas

que nos privam

de viver e de amar!

Malditas sejam todas as leis,

amanhadas por umas poucas mãos

para ampararem cercas e bois

e fazer a Terra, escrava

e escravos os humanos!

 

Outra é a Terra nossa, homens, todos!

A humana Terra livre, irmãos!

(Terra nossa, Liberdade, de Antologia Retirante, Civilização Brasileira, 1978)

 

 

28.

Cidade

corrompe

o ar do desejo.

O Campo

redime

na livre pobreza do Vento.

(Cidade e Campo, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

 

29.

As janelas dos prédios

no espaço invadido

se olham sem se ver.

 

As ruas se entrecruzam

sem nunca se encontrar,

transbordando de homens.

 

E sob um sol ausente de si mesmo,

o ar se está afogando

e está morrendo o Homem.

(Megalópole, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

 

30.

Peão,

pião,

não está,

não é,

madeira de sorte,

na roda da Morte,

girando à mercê

da mão empreiteira,

da farra matreira,

da louca peixeira...

 

Pião à mercê,

que não está,

que não é

... e quase já era!

(Peão do Trecho, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

31.

- Quando acabar esta mata verde,

eu vou entregar às chamas

o meu vestido amarelo...

(Hai-kai da borboleta nacionalista, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

32.

De longe,

toda montanha é azul.

De perto,

toda pessoa é humana.

(Perspectiva, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

33.

Toda noite é a primeira,

diamante pontual

à minha alma garimpeira.

(Vênus, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

 

34.

Por onde passei,

plantei

a cerca farpada,

plantei a queimada,

Por onde passei,

plantei

a morte matada.

Por onde passei,

matei

a tribo calada,

a roça suada,

a terra esperada...

Por onde passei,

tendo tudo em lei,

eu plantei o nada.

(Confissão do Latifúndio, de Cantigas Menores, Projornal, 1979 / Reeditado em 2003 pela UCG)

 

 

35.

A Utopia é possível

se nós optamos por ela,

vencendo o passado escravo,

forjando o duro presente,

forçando o novo amanhã.

(A utopia é possível, de Cuia de Gedeão , Vozes, 1982)

 

 

37.

Enterrem-me no chão

como tanto peão

que tombou nesta guerra:

sem nome e sem caixão.

Só reivindico o póstumo direito

de sentir liberada toda a terra

sobre o cartório comunal do peito.

(Enterrem-me no chão, de Águas do tempo, Fundação Cultural de Mato Grosso, 1989).

38.

Roubaram as terras índias

e batizam as fazendas

com nomes índios ausentes.

 

Aritana, onde estás?

 

Debaixo da terra os mortos

pedem os cantos da tribo...

e só respondem os bois

calçando a paz invadida.

 

Aqui, onde a mata um dia

erguera seus arcos verdes,

se alastra o capim exangue.

 

O sol, que foi testemunha,

se vinga no chão despido.

 

E pela estrada invasora

a siriema costura

um telegrama impotente

(Roubaram as terras índias, de Águas do tempo, Fundação Cultural de Mato Grosso, 1989).

 

 

 

39.

Eu

        e tu, Araguaia,

somos um tempo só.

 

Abraamicamente numerosas

nos garantem os sonhos

as estrelas, lá fora proibidas.

 

O ipê batiza ainda com outros gratuitos

o silêncio

                 que nós, ô Araguaia,

conseguimos salvar dos invasores...

 

Sempre ainda encontramos, eu e tu,

a pergunta inquietante de uma garça, na beira,

provocando respostas, acordando o mistério...

 

De acordo com a lua, sacerdotisa virgem,

tu estavas, no princípio,

alfombrando as cadências do Aruaná sagrado.

 

Os potes karajá recolhiam teus olhos desleídos

e os peixes costuravam de prata teu banzeiro.

 

Ainda o Padim Ciço

não mostrava aos pobres nordestinos

essa Bandeira Verde

                                   inconquistável...

 

Não havia Funai,

                                                           Sudam,

                                                           nem Incra.

 

 

Eram

Deus

e as aldeias.

(Eu e tu, Araguaia, de Versos adversos, Perseu Abramo 2006)

 

 

40.

Nossas vidas são os rios.

Minha vida é este Araguaia!

Indescritível,

indecifrável.

Que se ama e se agradece, e se teme e deseja;

ao qual se volta sempre,

como a um lar, fatídico e feliz.

 

Exuberante e cruel,

maravilhosa,

a multiforme fauna,

presente ainda, condenada ao extermínio?

Os jacarés espichados, que atenazam o sol,

As placas insidiosas das arraias.

As piranhas que serram carne viva.

E os peixes elétricos,

estalando a morte.

E os peixes de todos os tamanhos e luzes,

vorazes ou pacíficos.

miúdos,

brincalhões,

voadores.

Os peixes que dão vida,

holocausto à brasa e à pimenta.

Os pássaros, vestidos a rigor,

senhores,

diplomatas.

Essa fileira de patos colegiais,

que espera por um ônibus ali na margem...

E, de súbito, o pulsar

frágil de uma canoa.

 

E as nuvens, acima,

cansadas e fecundas.

As famílias que chegam, retirantes;

os enfermos que vão à deriva;

as cargas, e as cartas trêmulas;

as mulheres batendo a trouxa indiscreta;

os homens na popa, os homens no remo;

e os meninos banhando-se,

somando-se às águas, como peixes.

E eu, pela manhã, lavando-me do sono

com o espelho incandescente ao sol da outra margem;

eu, pela tarde, entrando,

reverente, estrangeiro,

vestido pela luz poente e pura

na liturgia destas grandes águas...

(Nossas vidas são os rios..., de Antologia Retirante, Civilização Brasileira, 1978)

 

 

41.

[...]

Nas trevas da mentira

a máquina do lucro,

a fome do poder,

os ídolos da Morte.

Diante deles caem

Os joelhos incautos.

Eles vêm massacrando

teus anônimos filhos sem defesa.

[...]

 (O Reino e o Anti-Reino, de Murais da Libertação, Edições Loyola, 2005)

 

 

42.

 

Entre o seu olhar frio

e o meu misto quente

o menino enfiou-me em desafio

sua fome impotente.

(Versos Adversos, Perseu Abramo, 2006)

 

Foram mantidas as grafias originais conforme as publicações.

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