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Paulo Wagner 
É Escritor, Professor, Mestre em Estudos de Linguagens e Literatura pela UFMT e doutorando em Estudos Literários pela Unemat

SOBRE O BARRO VERMELHO DA TERRA E DO CORAÇÃO 

Como toda obra literária contemporânea de qualidade, a poética criada por Wanderley Wasconcelos é metáfora complexa. É obra aberta que, mesmo possuindo um eixo próprio de sentido, está sujeita à diversas abordagens interpretativas em seu universo de construção e recepção. Por mais que tentemos encontrar caminhos adequados para compreendê-la, ela é sempre mais do que podemos dizer.


Poeta no sentido pleno da palavra, o autor consegue projetar no meio singular de sua linguagem estética, entre outros aspectos importantes, um memorialismo lírico contundente. Um universo próprio pelo qual desfilam referências sócio-históricas, questões existenciais, metafísicas, testemunho e confessionalismo. 


Mas é bom não esquecermos que a escrita literária ao repetir a realidade, transformando-a em signo, transgride as determinações que estariam implícitas nos elementos referenciais apreendidos pelo ser social do poeta. É no trabalho de tecelagem do signo literário, é unindo num mesmo tecido ficção e realidade que a poesia de Wasconcelos constrói seu imaginário. Constrói uma realidade “alquímica” com o dom próprio de desnudar a condição humana e a estranha escrita deixada pelos passos do homem sobre o barro vermelho da terra e do coração. 


Apesar de sua atitude reclusa de eremita das letras em sua caverna-biblioteca, o poeta vem despertando interesse acadêmico e o início de estudos que chamam a atenção para a importância de sua obra no cenário dos escritores contemporâneos brasileiros. Um poeta que utiliza o tempo-memória como ponto de partida para construção de uma metáfora lírica, na qual o individual e o particular se projetam em direção ao universal. Uma dimensão que é alcançada por intermédio de uma escrita concisa, que incorpora procedimentos literários de vanguarda que deram impulso a poesia modernista e contemporânea produzida no Brasil e na América Latina. 


Podemos afirmar que escritura de Wasconcelos digere a “língua” e o fazer literário da metrópole, acrescentando a estes, não apenas os elementos autóctones da história e do imaginário vivenciados nos trópicos americanos. Mas consolida, como outros autores brasileiros, uma atitude que caminha entre a submissão e a transgressão do código assimilado, entre a obediência e a rebelião ao cânone ocidental. E porque não dizer que o poeta realiza em seus versos o ritual antropofágico, que é, em certo grau, a literatura latino-americana. 


Ao criar uma poética com indícios autobiográficos e memorialistas, o escritor recupera pela imaginação e pela fantasia o aboio levado pelo vento, a essência de um passado que se julgava perdido. Passado novo e presentificado, inesgotável e eternizado pela capacidade poética de criar mundos e realidades insuspeitadas e indizíveis. 


Com seu aboio ele vai campeando palavras, sentidos e significados, o poeta é o vaqueiro atravessando a cerração da madrugada. Seu aboio é um canto campesino ecoando pelos trieiros, reunindo ventos e versos, som de chocalho e mugido em uma só manada. Sob a chuva, com seu o chapéu de couro estrelado, o aboio por ele cantado é raio cruzando a escuridão da tempestade, é enxurrada açoitando a terra roubada, é acalanto acalmando as crianças e a natureza. 


Sua poesia é o rastro da boiada, vestígios e mitologias escritos na terra molhada, aboio de um tempo perdido, testemunho e memória unindo vida e imaginação em uma mesma estrofe, em uma só canção. Seu aboio junta todos os tempos e espaços num Araguaia feito de histórias e desatinos, homens mulheres, velhos e meninos, personagens que habitam um enigmático chão, destinos inventados atravessando as veredas da cidade e do sertão. Que se abram porteiras, janelas e corações para escutar o Aboio do poeta.