20.png

Paulo Sesar Pimentel
Natural de Mato Grosso do Sul, mas residente em Mato Grosso há mais de 20 anos. Graduado em Letras, Mestre em Estudos de Linguagem e Doutor em Psicologia, é professor do IFMT Campus Cuiabá – Bela Vista. Publicou as coletâneas de contos “O cão sem penas” (2014), “Diário de Uma Quase” (2010), “Café com Formigas” (2005) e “Ângulo Bi” (2002 - com outros autores mato-grossenses).

SEM RECEITA

- Com cuidado, porra!
O cuidador, acostumado aos rompantes de fúria, ignorou o grito rouco e anasalado, o xingamento, o humor – sempre ruim, o cheiro azedo e ardido, as secreções e continuou a passar o pano levemente umedecido nas costas escareadas do paciente. 
- Você não serve nem pra tratar porcos!
Na rotina, repetida a cada dois dias – ou três, ou quatro, ou semanalmente, a depender do fluxo na casa, o cuidador era o único que tinha paciência para continuar a esfregar o tecido, que deveria ser mais macio, na pele marcada pela vida e pela morte. Apenas este cuidador não dava um chacoalhão – e uns tapas, de vez em quando – no homem idoso, doente, malcheiroso e sempre de mal-humor. Não se sabe se o que ele ganhara em vida, se vivera com este gênio, mas, agora, às portas de uma passagem de quinta classe para o outro mundo, ao menos um cubículo só para si ele tinha. Ninguém o suportava, nem individualmente, nem no convívio. 
- Você não é o primeiro que tenta me matar. 
Cheiravam muito mal as feridas, que tomavam o corpo como descobridoras de uma terra já devastada: as gengivas, secas e duras, às vezes, se abriam em feridas, que se esparramavam pela língua; a cabeça, com tufos irregulares de cabelos esparsos, cobriam-se de cascas, coçadas com frenesi, sem nunca realmente cicatrizar; o torço, marcado por furúnculos, protuberantes e purulentos, eram um espelho das costas, onde faltava pele e se via um rosáceo de carne doente, profundo até quase os ossos – e como reflexo, jorrava um líquido de ambos os lados, de frente e de trás, como uma terra que insiste em se umidificar.
- Sou eu que mando e exijo respeito, seu merda!
Suas unhas estavam lascadas e, por isso, mas nem só por isso, abriam vales ao coçar. As dificuldades em se levantar os braços, faziam com que as pernas fossem o principal alvo de uma raiva contínua: eram riscadas em tons que iam do vermelho vivo ao preto coagulado, numa inconstância acentuada pelas saltadas veias violáceas. Um dos pés fora amputado e o outro, com apenas três dedos, para nada oferecia sustentação.
- No exército, eu te colocaria para limpar privadas, seu imbecil.
O trabalho durava uns vinte minutos. Dezessete, cronometrados, se o cuidador conseguisse não se afetar pelos impropérios. Não havia prescrições de remédios para tratar aquele corpo. Não havia cura. O que o mantinha vivo era um rancor sempre presente. Força mesmo o acamado já não tinha. A língua, contudo, a despeito de toda a aposentaria do corpo, permanecia ativa, ainda que levemente presa, correndo entre as feridas e, surpreendentemente, colocando o diafragma para produzir ar, cada vez mais ar, transformado em ódio e saliva pútrida a voz fanhosa.
- Verme, cretino, comunista, traidor, bandido, bicha...
O problema – dentre toda a família de outras questões que remontavam à infância – era a genitália. Morta, mas ainda presa ao corpo, era ela também purulenta. Os testículos, inchados numa pele retorcida, com pelos inconstantes e, ora fartos, ora falhos, ensebados, apesar da limpeza, gerariam surpresa, se soubéssemos de sua ação na produção, outrora, de rebentos – nunca aparecera ninguém para visitá-lo. Todas as vezes em que se precisava limpá-los, havia uma gama infindável de ofensas, acusações e, ao final, choro.
- Viado, boiola, baitola, pederasta, chupador...
E lágrimas. Depois de uma gama de tentativas de ofensas, um gemido constante e contido, acompanhado de uma vergonha imensa, paradoxal ao pequeno membro inútil, era seguido por um silêncio e uma resignação, que pairava sobre o ambiente. Nesta hora, o cuidador conseguia terminar o serviço, indubitavelmente, o pior que ele já executara. Naquele corpo, para além das marcas, feridas e secreções, havia um desejo que fora morto e, agora, putrefava.
Vez ou outra, já recolocando a camisola encardida nas carnes flácidas, o cuidador se atentava para uma fala baixa, sussurrada, quase que gemida, talvez delírio, talvez reminiscências, que jamais poderiam ser recuperadas. Aquele homem, esquecido naquele quarto, posto para morrer – e insistindo, inutilmente em lutar, sem parentes, sem registros, sem o amor de outros homens, só poderia se amparar, para além da amargura, em lembranças com as quais, quem o conhecera antes, provavelmente, já se esquecera ou fazia questão de apagar de qualquer livro da história. 
- Eu fui importante, eu fui...
Ele se virava de lado. Sem receitas para lidar com a dor de quem era, de quem fora, ele novamente gemia um choro. A camisola, recém posta, já apresentava marcas molhadas da humanidade em fuga. Em alguns pontos, o tecido já começava a, novamente, grudar à pele ausente e compor as feridas em crescimento. Nesta hora, e apenas nela, havia um brilho, quem sabe de esperanças, talvez de apenas entrega e aceitação:     
- Com a morte a gente paga todas as dívidas.
Finalmente, sua língua afiada e cruel, ainda que presa e carregada de um sotaque quase fanho, produzindo, não mais facas, mas pequenos estilhaços, assentava-se no ninho de feridas, que nem os lábios finos conseguiam mais conter, e, na esperança, último refúgio dos canalhas, ele dormia, sem remédios para sua dor, sentida e causada. Seu sonho era perturbado e doído, cruel e inconstante, como fora sua vida, como ficara registrada a história, como ele não queria que fosse sua morte.