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Paula Valéria Andrade 
É poeta, escritora, artista visual, diretora de arte e professora universitária em cinema. Recebeu prêmios em Portugal, Itália, EUA, Alemanha e no Brasil: Jabuti e APCA. Em 2016, ganhou “Menção Honrosa” na FALARJ. Tem mais de 20 livros publicados entre: infantil, poesias, didáticos, antologias, contos e livros de arte. “Amores, Líquidos e Cenas” (editora Laranja Original) é seu livro de poesia de 2018; e A “Pandemia da Invisibilidade do Ser” (Editora Algaroba) é seu livro de poesia de 2019, lançado na Flip, em Paraty.

À MARGEM DA CIDADE DE DEUS

Folhas secas no caminho eram indicativas de um lugar ermo, onde o cuidado com o quintal era ocasional. As cores da madeira envelhecida das paredes permeavam as folhas num reflexo castanho avermelhado do habitat, para um “habite-se” minúsculo, de ocupação de tantos. A imagem de um formigueiro seria pleonasmo de espelho.


Pisar naquele caminho de entrada até a porta não trouxe o impacto ofegante de abri-la. Da maçaneta pra dentro, um mundo gigante se expandira. O minúsculo cubículo do casebre de madeira úmida, de um só cômodo. Tudo revelava. A imagem daquela família, o cheiro de café no coador de pano, o tilintar ranhoso da máquina de costura e seu pedal pesadamente barulhento; tudo era retrato. 


Como Polaroid instantânea de um dia a mais na esquina, do lado de cá, à margem da entrada da porta da Cidade de Deus. O ônibus descia no ponto final. Não foi difícil chegar ali. Sentei na primeira cadeira solitária, ao lado do motorista. Assim, era quase garantido ninguém mexer comigo no percurso. – Chegou bem, achou fácil? Sorridente, Maria da Cruz perguntava, e de sorriso aberto só acolhia a quem sorria. Suas costuras pagavam as contas. E mesmo sem alguns dentes, alguns atrás outros na frente, a todos seduzia com a doçura no olhar de acolhimento imenso. Suas costuras pagavam as contas. As de luz e água – porque a TV era gatilho – mas nada lhe dava a redenção de deixar de ser obrigada a pisar no pedal, mais um dia. E outro dia. E mais, um dia. A máquina, o café, o filho contorcido de paralisia cerebral do parto no SUS, os retalhos. A mesa e o pão. Desarrumadas camas. Chinelos espalhados dos outros cinco filhos.Tudo era sua vida. Girava naquele cubículo. O cheiro de bebida só chegava quando o sol ia embora e o pai dos meninos – dizia da Cruz – era bom demais e trazia o pão para casa todos os dias, debaixo do braço. Já que bebi tanta cachaça, pra aguentar tá nessa barra fodida, tanta pedra – comentava com Zé da venda, Pedro, o pedreiro – Vou levar um agrado pra mulher não ter que sair no escuro da manhã, no modo de ter que vir aqui na tua venda, de madrugada comprar pão. Zé concordava com a cabeça. Cansado, Odair, o filho mais velho, chegava tarde. Desconfiado resmungava. Não gosto do pai na cachaça, beira de bar, não leva a nenhum lugar. Só afunda – murmurava – preciso me formar e sair desse lugar. Sim, dar uma casa com sol para minha mãe. O quintal do Sr. Armando é bem úmido, a lagoa é à beira do mangue, e isso só caranguejo gosta! Odair não quer ser como Pedro seu pai, mas todo domingo acorda cedo e roça o terreno do velho português Armando, dono das terras ali da Barra. Maria da Cruz sorri e sentencia ao coar o café – Isso meu filho! Ajuda teu pai. Filho de pedreiro e caseiro, tem que ajudar a cuidar da casa, não é? Né... não! Enquanto os outros quatro não crescem. Um sempre vai precisar de tu mesmo. Mas a costura, as obras, e a roça fazem a panela ter feijão. Odair nunca escuta, mas sim estuda, estuda, estuda muito e faz sim com a cabeça, finge que escuta e sai. Mas não escuta de verdade. Às vezes grita. Espanta. Pedro sai junto sempre atrás, e toca a roçar o pedaço que dá milho. Sempre assim. Os outros quatro limpam, cozinham e ajudam no que sabem. Mas Rita sempre trabalha mais que os meninos. Não para. Todo dia. É tarefa, mais tarefa.


Medi a cintura, o busto. Tudo igual ao ano passado. Fica pronto em cinco dias – ela disse. Terminou rápido – pensei. A margem da entrada da Cidade de Deus, estava escurecendo, era bom ir embora – ela disse.


Na volta pra casa, me senti virada no ônibus, me senti do avesso. Aquele retrato de realidade me adentrava como Buda havia visto a tristeza, miséria e dor pela primeira vez. Pensei no filme. Até mais! – ela disse.


O retrato pulsou latejante aos olhos. Além do filho contorcido e paraplégico da paralisia cerebral do parto no SUS, os outros quatro filhos, entre eles uma menina entre irmãos. E todos se contorciam pra dormir nas desarrumadas camas de colchonetes espalhadas no cubículo. Todo esse espaço, cabia cinco filhos – sendo uma menina – mais um casal, e ainda cabiam a mesa, o fogão e a geladeira, o tanque e a máquina de costura de pedal enferrujado – e ranhoso, mais a televisão e a poltrona, cabiam sim todos no mesmo tamanho e espaço do tal do meu quarto de dormir. Como? O fato é que pouco cabia no tal quarto de dormir. Que geometria é essa? Como assim? Pensava sem achar resposta. O apartamento da Gávea vinha à mente, e nele – naquela cena – tinha apenas uma cama de solteira de uma adolescente de 16 anos, e uma cômoda antiga com gavetas. E, se me lembro bem, ela ainda reclamava que faltava espaço. Que não cabia nada ali. Nada.


Até esse dia. Até então o dia, da prova de roupa, na casa da costureira: a Maria da Cruz.