Paula Botelho
Ensino, formação docente, programas de imigração e de português como língua de herança, oficinas de literatura para crianças brasileiro-americanas e tradução estão na bagagem. Como autora, seus livros, artigos e outros textos incluem a surdez, a cultura brasileira na imprensa americana, imigração e retorno, bilinguismo e biculturalismo, e os desafios de viver fora do Brasil (“Brasileiros em Solo Estrangeiro”- Facebook). Doutora em Linguagem, Letramento e Cultura (UMBC - EUA) e Mestre em Educação (UFMG), reside há 14 anos nos Estados Unidos.

LIA, A MULHER E A ALEGRE REVELAÇÃO

Título esquisito, pensou Lia de início, ao colocar no papel uma história que nunca tinha saído de dentro dela. Adiou muitas vezes, porque escrever significava recordar e sentir que perdera tempo. Mas agora parecia diferente. Escrever era uma oportunidade de libertação. 


- Que linda sua cachorrinha, posso passar a mão? Perguntou a mulher, em inglês.


- Claro! disse Lia, alegre com a aproximação. Desejava muito conhecer mais gente naquele país onde já vivera quase uma década e há alguns anos retornara. 


Lia teve a nítida sensação de que a mulher era brasileira. E arriscou perguntar, coração batendo forte com a perspectiva de ser uma compatriota.


- Sim, eu sou brasileira, falou ela. Com sotaque de gringa. 


Algo pulsou diferente dentro de Lia. Ela já tinha encontrado gente que tinha um português afetado por tantos anos vivendo em países estrangeiros. Mas aquele sotaque fez eco. Ela teve a ligeira intuição de que a mulher achava aquilo chique. Mas não pensou muito. Era pura alegria pensar que podia ser o começo de amizade com uma brasileira. 


Lia foi buscando conhecer a mulher, em encontros fortuitos. Andava com sua cachorrinha no parque próximo, e trombavam quando a mulher caminhava por ali, durante os treinos de futebol dos filhos. Lá estava aquele português americanizado. Mas a vontade de ter amiga colocava todo o incômodo e o pasmo de lado. 


Em alguns encontros, falaram sobre tomar um café. A mulher trabalhava em um escritório imobiliário e queria que fosse durante o dia, se Lia fosse ao encontro dela. Lia teve dó da pobre quando viu que ela achava lindo ser ocupadíssima. Era miséria mental achar que era chique e de primeiro mundo ter sotaque de americana e não ter tempo para nada. 


E a coisa teve fim quando um dia Lia a convidou para jantar. A mulher disse à Lia que não saía com amigas à noite, para evitar que o marido quisesse fazer o mesmo com os amigos. 


E agora era Lia quem não queria. E era hora de celebrar. Aprender a não ter demora quando algo tem cheiro de fumaça, mas a gente insiste que é de jasmim.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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