Paloma Rodrigues
É porto-alegrense formada em Jornalismo, já trabalhou com tudo que é tipo de coisa possível, menos Jornalismo. Gosta de escrever, assistir Netflix e ter conversas filosóficas com seus gatos. Publicou dois livros, “Talvez, no fim” e “É Recém Segunda e Já Quero Morrer”, e tem diversos contos no site Wattpad. Além disso, ela também escreve sobre livros para o Instagram Guaxinim Literário. É casada, tem quatro filhos (dois caninos e dois felinos) e nas horas vagas joga videogame por dinheiro.

SESSÃO DA MEIA NOITE

Quando o garoto da terceira fila começou a lhe olhar, ela não soube muito bem como reagir. Não estava acostumada com este tipo de atenção. Ele era bonito demais para ela, alto demais e, convenhamos, provavelmente inteligente demais também. Manteve o olhar pelo máximo de tempo que pode, entre um segundo e três meses, não sabia ao certo. Nunca fora boa com números. Ele olhava e sorria. Ela desviava o olhar e morria.


Ele devia ter uns 30 anos e ela riu por associar ele a palavra “garoto”. Era mais velho que ela, é verdade, mas não era disso que ela gostava? Sentia-se nervosa, com medo do que estava por vir. Tivera alguns como ele no passado, esse não era o problema. O que lhe dava medo naquela situação era a beleza dele. Estavam os dois em um cinema, vendo algum filme antigo. Ela fazia isso todas as sextas-feiras e nunca o vira lá. Perguntou a uma conhecida se sabia quem ele era e descobriu que ele não era dali, estava apenas de passagem.


Perfeito.


A mulher, então, lhe perguntou por que ela não ia falar com ele, e a garota riu. Se falasse com ele, ele poderia ouvir. Não prestou atenção ao filme, só conseguia pensar nele e no que poderiam fazer. Então, decidiu fazer o que sempre fazia. Na saída, passou por ele e lhe deu um leve esbarrão no ombro. Entregou-lhe um bilhete e assim como veio, foi embora. Deixou o homem (sim, homem, ele não era um garoto como os outros) ali parado, olhando confuso e admirado para ela.


O bilhete lhe pedia para esperar em frente ao cinema, quando todos já tivessem ido embora. Esperou até o horário combinado, nervosa, e quando chegou o momento, caminhou de volta para o local com as mãos nos bolsos, rezando baixinho para que ele estivesse lá. Estava na esquina quando viu a silhueta magra dele. Estava frio e ela conseguia ver o vapor saindo de sua boca. Chegou perto e, sem falar nenhuma palavra, aproximou os lábios dos dele, segurando-lhe a nuca com uma das mãos.


Olhando nos olhos do homem, que se excitava cada vez mais com a situação, ela lhe disse “não sou muito boa com relacionamentos”. Tirou a mão que ainda estava no bolso do casaco e que segurava um canivete, cravando-o no pescoço do homem. O sangue lhe espirrou no rosto e por alguns segundos todo o seu mundo era vermelho. Sorriu. 
Perfeito.


No bolso do casaco dele, encontrou o bilhete, que tomou para si. Iria guardar junto dos outros 17 que tinha embaixo da cama. Ou seriam 18? Ela não sabia ao certo. Era tão ruim com números quanto era com homens.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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