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Pablo Rezende

É filho de dona Ilda, poeta e professor de Língua Portuguesa, Literatura e Redação da Rede Pública do Estado do Mato Grosso. É graduado em Letras – Português/Inglês pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e Mestrando em Estudos Literários pela Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT). É autor do livro O dever e o haver, publicado pela Literata, em 2011. Têm poemas publicados em várias antologias poéticas nacionais e internacionais.

UM GIRASSOL EM MEU PEITO

A meu amigo Carlos em sua 117° primavera

Preso a mim, à minha ansiedade
À minha própria chaga
Vou de olhos abertos pelas ruas fechadas
Corpos reais, memórias reais
Nada me espreita, nada me acompanha
De longe, pássaros espiam
Um tempo de fogo, um tempo de fezes
Um tempo sem flores.

Mãos sujas no bolso irresoluto da calça
Graxa poemática embaixo das unhas
Óleo polimórfico embaixo dos olhos
Melancolias, mercadorias
Posso, poeta, neste mundo infecundo
(Em que corpos se abrem e gestos se fecham)
Rebelar-me com poemas?

Em vão me tento enxergar, os espelhos não se olham
Vinte oito anos e nenhum amor
Nenhuma flor plantada nenhum poema escrito
Já são sete horas da noite
Os homens voltam para suas casas
As mulheres já não se importam
Todos os problemas resolvidos
Todos os boletos liquidados
Todas as pedras em seus indevidos lugares
Todas as coisas fora de seus lugares.

As coisas absolutas, os homens absolutos
A angústia absoluta.
O tempo remove as dores, mas não as cicatriza.

Um Girassol nasceu em mim!
O mundo está repleto de cores
Há um arco-íris em cada esquina
As ruas estão abertas e pacíficas
Os corações estão abertos e pacíficos
Todos os poetas estão ricos
Desliguem os celulares
Não pisem na faixa
Paralisem os carros
Chamem a mídia!
Alguma coisa mudou, um Girassol nasceu em mim.

Sua cor não se parece.
Sua aparência não se define.
Seu nome não se conhece.
É um Girassol, nasceu em mim!

Deito-me na cama de meu quarto antes de dormir
(O corpo partido, o coração partido)
Ao meu lado livros, caixas e quadros se avolumam
Contemplo a Flor em meu peito
É frágil, é pequena, mas é minha
Esperanças mínimas, fantasias mínimas
Coração pequeno, mundo grande.