© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook

Pablo Rezende

É filho de dona Ilda, poeta e professor de Língua Portuguesa, Literatura e Redação da Rede Pública do Estado do Mato Grosso. É graduado em Letras – Português/Inglês pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e Mestrando em Estudos Literários pela Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT). É autor do livro O dever e o haver, publicado pela Literata, em 2011. Têm poemas publicados em várias antologias poéticas nacionais e internacionais.

O CAMINHO NATURAL

Ao amigo Vicente

Nada está fora do lugar
Todas as coisas ocupam o espaço exato
Os livros na estante, as fotos na gaveta
A natureza toma seu caminho implacável.
As águas de um rio seguem cursos ordinários
na certeza de que não voltarão ao mesmo lugar,
à mesma forma, ao mesmo tempo.

Um útero fecundo
Um cacto impedindo o trânsito
Uma orelha cortada em um copo com água
Metamorfose.

O caminho natural das coisas é a distância
Sementes de uma mesma flor
Tendem a ser semeadas em lugares diversos
Uma pena quando se desprende da pele dura de um pássaro
Não voltará a ser uma pena
Corpos tendem a se afastar
A natureza se modifica
O corpo celeste tende a compor um gesto, uma alegoria, uma metáfora
Uma ferramenta breve sobre um maquinário qualquer.

Uma trilha segue seu curso natural
Corpos tendem a tomar caminhos opostos
Um cachimbo sobre uma cadeira
Filhos de um mesmo pai tendem a ser criados por mães diversas
Árvores genealógicas plantadas em terras inférteis 
O caminho natural das coisas é o abandono
Uma história quando exerce teu potencial de visualizações
Tende a compor a anatomia de uma memória eternamente efêmera
O que antes era o melhor momento da vida
Tornou se o passado remoto de um tempo qualquer.

O caminho natural das coisas é o esquecimento
Todas as coisas em seus devidos lugares
Corpos tendem a se distrair
Um coração partido
Um perfil bloqueado
Uma mente sem lembranças
Mensagens de amor excluídas em aplicativos instantâneos  
Olhos que se olham e não se veem
Não se reparam
Autorretrato
Solidão guardada em um dispositivo eletrônico
A saudade poderia ser o que não foi. 

Os quadros de Van Gogh também envelhecem
Os girassóis presos a necessidade de uma jarra
Tendem a decompor em sua imagem sólida
O que antes era novidade, luz na luz, se torna obsoleto
Fragmentos do tempo esquecidos em paredes de casas grandes
Que habitam homens pequenos 
O caminho natural das coisas é o envelhecimento
Corpos tendem a falhar
Uma coisa pode ser uma coisa até não ser.