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Pablo Rezende  
É filho de dona Ilda, poeta e professor de Língua Portuguesa, Literatura e Redação da Rede Pública do Estado do Mato Grosso. É graduado em Letras – Português/Inglês pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e Mestrando em Estudos Literários pela Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT). É autor do livro O dever e o haver, publicado pela Literata, em 2011. Têm poemas publicados em várias antologias poéticas nacionais e internacionais.

PEDRA

A meu amigo João Cabral de Melo Neto

Do solado velho de um sapato
Como quem atrapalha a vigília
Do sonho naufrago dos desistentes 
Como quem sonhou o sono perdido

Uma pedra pode perfurar permanente.
O verso, a folha, a árvore
Uma pedra pode também
Ser nada ou coisa alguma
Uma bailarina, uma fábula, um rio
Fezes, cuspes, intestinações
Febres, cruzes, florações.

Uma vaca cruza o poema
Defeca a força com seus cavalos
(despretensiosamente em todo verso,
em todo canto) 
Raros, frágeis e úmidos
cogumelos, florações.
O poema irrompe da terra, do capim, 
Feito cupim
Da fermentação natural das coisas
(Corrói, separa, devora)

E a pedra?
Que nada ou tudo pode ser
É metáfora
Comparação
Espelho 
(pássaro ou inseto)
Palavra (im)possível de semear.