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Pablo Rezende

É filho de dona Ilda, poeta e professor de Língua Portuguesa, Literatura e Redação da Rede Pública do Estado do Mato Grosso. É graduado em Letras – Português/Inglês pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e Mestrando em Estudos Literários pela Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT). É autor do livro O dever e o haver, publicado pela Literata, em 2011. Têm poemas publicados em várias antologias poéticas nacionais e internacionais.

ESPELHO

Os olhos que tocam o reflexo
Não tateiam os corpos que se desfazem
O sólido não se desmancha
O vapor não se condensa
O líquido não se petrifica
A natureza se mantém
Intocável em suas vestes imemoriais. 

Os olhos, os corpos que se desenham nas imagens
Não são parte deste poema
Não são os glóbulos oculares tampouco a massa orgânica
Que me veste entre as Primaveras
É outra coisa que não pode ser.
Uma refração do que poderia
A crucificação de meu próprio corpo.

Água, chuva e pedra se refletem imóveis.

Inverossímil
O corpo que não toca
Não se toca
Não se mexe
Não abre o jogo
Não nascerá Dali
Nem mesmo um cacto
Nem mesmo uma nódoa
Nem mesmo uma flor.

As imagens permanecem em seus centros
Arraigadas em uma necessidade absoluta
De ser o que se projeta
Arco e flecha
Uma coisa pode ser outra coisa.

Girassóis antes mesmo de serem Girassóis são sementes
Alimentos para aves que sentem fome
Germes orgânicos que caem do bojo dos ventos que correm o mundo
Brotam e crescem pelas beiradas das estradas e das estrelas
Correm os olhos em velocidades noturnas
Nada lhe permitiu ser apenas uma flor
Nada está certo como profetizam.

Uma oração antes mesmo de ser proferida são palavras
Palavras antes mesmo de serem palavras são pensamentos
Estruturas linguísticas que podem ser poemas, cantos e confissões
Ainda que sejam enfadonhas, insalubres ou malditas
Cumprem a liberdade individual de serem o que querem.
Uma coisa pode ser outra coisa
E nada pode lhe dizer que não poderá
Nem mesmo o espelho.

A imobilidade me atormenta...