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Onofre Ribeiro
É jornalista graduado na Universidade de Brasilia, com pós-graduações. Escreve artigos para jornais em Cuiabá desde 1990 e tem uma longa carreira no jornalismo e no magistério. Atua na tv e no rádio.

DEVORTEIOS


Dia desses usei no rádio um ditado ao qual estou habituado desde sempre: “deu com os burros n´água”. Imediatamente uma jovem de 15 anos me abordou no whatsapp e questionou o significado do enigma. Ali me dei conta de que a linguagem de agora não comporta “enlatados populares”. 
Opa! Começava a penosa autocorreção da linguagem usada nos artigos para a mídia impressa, no rádio e na tv. Tenho filhos jovens e netos. Sei que falam diferente da linguagem tradicional. Estão habituados aos emojis, às abreviaturas simplistas. Linguagem completamente direta. Imagine burro n´água....! Burro é uma coisa. Água é outra. Nada a ver os dois juntos.
Hoje policio as palavras que pronuncio e as palavras que escrevo. Jamais uso o termo “enigmático”. Na linguagem fluente na juventude a palavra correspondente é “estranho”. 
Frases. Há, as frases! Curtinhas. Curtinhas mesmo. Descobri que o ponto é a menor distância entre os pontos. Sem vírgulas. Sem parênteses. Sem pontos e vírgulas. Diria, por exemplo. “Fui ao cinema. Filme novo. Ótimo!”. E nada mais.
E as abreviaturas? É uma nova gramática poderosa. Sem volta. Nunca mais a beleza será gramaticalmente por extenso. Só “blz”.  A gramática passa a ter os dias contados. Papo reto. Emojis. “Obg”. “Ok” ao excesso. “Cmbd”. “Fds”. 
Pior. Cessa o discurso corrido. Afinal, a nova literatura não é mais a  junção das palavras numa sequência intelectual. Estética. Ou racional. Não mais. É o significado direto. Ideia curta. Sem paralelas e nem transversas. 
Perguntaria o leitor maduro como eu: como transmitir certas descrições? Ou certos sentimentos? Diria que a linguagem cibernética sai das bocas jovens como sairia na voz metalizada dos robôs. Nada de excessos. Sem devorteios. Sem tom.
Os emojis estão tomando de assalto a nova linguagem da comunicação humana. Suas carinhas. As figurinhas estáticas. Os filmetes de aceno. As marcas criadas nos aplicativos deixam a linguagem sem limites. Mas sem palavras.
Confesso que tenho medo de me aventurar nessa “deep language”. 
Desde já sinto saudades das grandes frases dos tantos livros que li. 
Ah....esses jovens e a sua capacidade de disromper. Triste me pergunto: onde vai parar o meu vocabulário tão longa e acariciadamente construído ao longo da vida....? (Suspiro)?. Sei lá.....