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Oluwa Seyi Salles Bento
É escritora, professora, graduada em Letras e mestre e doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo.   

NOTAS DE UMA COMUNICAÇÃO CUTÂNEA
O QUE HÁ NA PELE DE LUCIENE CARVALHO QUE TAMBÉM HÁ NA MINHA

Na pele (2020, Ed. Carlini & Caniato), da escritora Luciene Carvalho, é uma obra de promessas e realizações que, por extensão, promete e realiza a mim mesma, como escritora, crítica literária e mulher negra nascida no Brasil. Vi, meia dúzia de vezes, Luciene falando sobre algumas dimensões da racialidade e alinhavando essas questões ao desejo de produzir um livro que versasse centralmente sobre ser mulher negra em Mato Grosso, no Brasil e no mundo. Na pele desponta dessas experiências e não poderia ter título mais acertado: seu nascedouro, sua vazão estética, seu grito de celebração, de renitência ou de emancipação se dão na e por meio da pele. E foi justamente na pele que essa obra me tocou.
Em ocasião do encerramento da I FESLINM (Festa Literária Negra Mato-grossense), que homenageou a escritora, pude ouvir, mais uma vez, Luciene discorrer sobre seu mais recente buquê de poemas que, ali, era apresentado ao mundo. Me lembro de sentir um arrepio generalizado pelo corpo quando ela descreveu a obra como seu “maior compromisso”. Aquele pré-lançamento de livro, não por coincidência, preambulou o anúncio do resultado do concurso literário promovido pela Festa e iluminou mais ainda um momento de celebração dos sujeitos e das vozes que se desejam negros nos lugares de produção da literatura brasileira. 
Antes de ler alguns de seus poemas, Luciene vaticinou que aquele fim de evento era, na verdade, um autêntico início para Mato Grosso, sua população negra e também para os escritores e escritoras premiados e publicados pelo concurso. E eu, provavelmente, sou quem menos é capaz de duvidar dessa predição. Em ambas as categorias, conto e poesia, vi mulheres negras sendo festejadas por suas contribuições literárias, dentre as quais estava eu mesma. Eu e minha pele.
Eu provavelmente não teria tempo ou laudas suficientes para elencar todas as vezes que Luciene, desde que a conheci, três anos atrás, foi capaz de traduzir em sua produção o que minha pele sente e pensa (sim, a pele pensa). Escolho, aqui, contudo, lançar um breve olhar sobre um poema que, ao meu ver, é a mais sincera e delicada conversa entre nossas peles aparentadas.
“Minha África”, antepenúltimo poema da seção intitulada “Navio negreiro”, é um texto ressensibiliza corpos que podem estar apáticos, mas o faz pelo afago, não pelo solavanco. O pronome possessivo no título e que se repete algumas vezes ao longo do poema não aponta para um retorno literal ou figurativo ao continente: alude, na verdade, a um relacionamento afetuoso e também dolorido com os resquícios de África que os indivíduos negros em diáspora carregam na pele, nos traços, na ascendência de difícil aquilatação… Nessa África fora da África que reatualizamos nas Américas em nossos modos de interpretar o mundo, sentir e viver.
O poema, em seu subtexto, indaga ao público-leitor negro: “que pedaço ou vestígio de África é única e intrasferivelmente seu?”. Responder a tal provocação demandaria um percurso de autoanálise e procura íntima que não têm resultados presumíveis. As respostas são múltiplas, como múltiplas são as pessoas negras nos quatro cantos do mundo. Até o silêncio é uma réplica possível, já que muitos de nós perdemos as conexões com a África e, por vezes, nos sentimos presos em um corpo que “não tem remetente/ ou/ sobrenome antigo” (CARVALHO, 2020, p. 44). 
Minha resposta por muito tempo foi silenciosa. Hoje, porém, é simbolizada por um desenho que enfeita minha epiderme: uma tatuagem do contorno do continente africano que, há quase 10 anos, fiz no ensaio de um sinal de pertença, uma assinatura. Desde então, “caminha caminha/ essa África que é minha/ e de ninguém mais” (CARVALHO, 2020, p. 45). Lendo e relendo este poema, refletindo sobre os ecos dele em mim, fui amorosamente relembrada por Luciene de que a pele sente, pensa (sim, a pele pensa) e também abriga um tanto enorme de coisas bonitas que, de quando em quando, até rimam.