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Olga Maria Castrillon-Mendes 
É professora do Curso de Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso/UNEMAT, dos Programas de Mestrado Profissional em Linguagem/PROFLETRAS e Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários/PPGEL/UNEMAT. É Sócia Efetiva do Instituto Histórico e Geográfico de Cáceres e da Academia Mato-Grossense de Letras; Líder do Grupo de Pesquisa “Questões históricas e compreensão da literatura brasileira” (CNPq/UNEMAT/2002). Integra os Grupos: RG Dicke de Estudos em Cultura e Literatura de Mato Grosso (CNPq/UFMT). É autora de Taunay viajante: construção imagética de Mato Grosso (Cuiabá: EdUFMT, 2013) e Discurso de constituição da fronteira (www.unemat.br/publicações/e-book, 2017), além de artigos em periódicos e coletâneas nacionais e internacionais.

POR ENTRE PLURI-VERSOS DE JOÃO ANTONIO NETO 

Em tempos de reflexão sobre o que de poesia tem sido feita a literatura produzida em Mato Grosso e, mais especificamente, o que temos como dominadores de palavra, significativa é a contribuição de João Antonio Neto (19/04/1920), criador de uma “realidade superior”, como aquela que impulsionava Mallarmé. 


O escritor viveu e produziu em quase todo o século XX. Como jurista, crítico, ensaísta, poeta, atinge, lucidamente, o centenário de nascimento, em 2020. O que seja que cria, Neto é poeta até fazendo lista de palavras, como nos últimos lançamentos Banquete de palavras, Palavras grávidas e Revelação em palavras, de 2018. Uma trilogia linguística em que brinca com os sentidos. É como se estivesse gravando um recado para os contemporâneos e as novas gerações: sem leitura, pesquisa e muitíssimo bom humor, a vida se torna impossível. A poética- geografia (ou seria geometria?!) do verso nos é dada em forma de poemas-aprendizado. Em repouso, a palavra adquire dimensões de embriaguez e atravessa os silêncios com os que passamos a figurar e significar, no devir da encantadora ambiguidade. 


Ao longo de produtiva vida tem desenvolvido a faculdade de transitar entre a realidade pragmática e o maravilhoso espaço do imaginário em que tudo é possível. Acolhe vozes vindas de todas as direções, de culturas distintas e recria tudo na escolha do tom muito particular de sua insubstituível dicção. Nesse espaço mágico de poesia a literatura se expande e a palavra habita o poeta e com ela, todo o espetáculo do humano. 


Em diálogo com a obra poética e filosófica e até mesmo nos ensaios sobre literatura, colocamo-nos à espreita e somos interpelados por embates entre escuta e fala da linguagem. Penetra-se no “estado de palavra” como fala Manoel de Barros. Dessa maneira consegue-se ver o invisível ou as “(in)significâncias”. Nesse movimento do pensar se funda e se finda o inesgotável acontecimento poético. É o espaço de doação que não retém o conhecimento, mas se doa no movimento do pensar. Saber é sabor (coincidência etimológica). É travessia invocada pela experiência do ser que surpreende a existência no instante da criação e floresce na dinâmica verbal.


Por isso, se torna tridimensional: na iniciante poética de Vozes do coração (1941) e Remanso (1982), na prosa corrompida de Poliedro (1970), ou na fragmentação minimalista dos versos de Silhuetas e (in)significâncias (1988). Nesse conjunto criativo viaja-se pelas poliletras, ou poliversos, pois as imagens, de tão sofisticadas, são simples; de tanta preeminência, são exatas – palavras-símbolo de um tempo e de um lugar de quem não almeja nada mais do que a poesia verdadeira. 


Do poeta guardo memórias de um elegante e alegre professor do Instituto de Linguagem da UFMT, no auge dos anos 1980. Relembro-o numa feliz singularidade de jurista e ardente atitude de poeta. Também como um filósofo suas ideias alcançavam os jovens universitários e a mim me chegaram juntamente com os artigos e ensaios sobre a literatura mato-grossense, publicados na Revista Educação, fundamentais em tempos de escassez crítica. Como membro da Academia de Letras reconheci-o pelos discursos e escritos na Revista e como candidata ao ingresso na mesma instituição, nada mais se equipara ao prazer infinito de penetrar em sua biblioteca e prosear com o poeta ao ofertar-lhe o livro oriundo da minha tese de doutoramento sobre a imagem de Mato Grosso no conjunto da obra do Visconde de Taunay. 


Por isso e pelo crescente carinho e admiração que nutro por João Antonio Neto, digo que com ele e sua obra se aprende a viver, a envelhecer com sabedoria e a reinventar o futuro como única saída para a exploração de novas possibilidades e vontades humanas. Puro deslocamento que permite a “heterotopia”, do centro para a margem, como fala Boaventura Sousa Santos.