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Olga Maria Castrillon-Mendes 
É professora e pesquisadora da literatura brasileira. Autora de Taunay viajante: construção imagética de Mato Grosso (Cuiabá: EdUFMT; Cáceres: EdUNEMAT, 2013); Discurso de constituição da fronteira de Mato Grosso www.unemat.br/editora, 2017 e Matogrossismo: questionamentos em percursos identitários (Carlini & Caniato, 2020).

DOCE RECUSA DO OLHAR

O que prende ou afasta a atenção do espectador/leitor perante a trágica, violenta ou a natural representação do mundo? Se pensarmos no trágico como centro da vida grega e considerado, por Aristóteles, como imitação dos homens virtuosos e superiores, entraríamos em questões de gênero que ainda hoje têm merecido estudos especializados entre os que defendem o trágico, ou mesmo o rechaçam ao preconizar a morte da tragédia. No entanto, parece que há certo gosto em provar sua permanência no contemporâneo, quando se leva em conta os dois impulsos da estética grega, o apolíneo e o dionisíaco. Ambos estão na base dos debates sobre a moral da arte e a decadência dos costumes. Na recusa de um (apolíneo) em detrimento de outro (dionisíaco), a noção de tragédia tem atingido o centro de muitas reflexões. 
Vida e arte não se excluem. Ao contrário, desnudam conflitos e contradições que questionam os paradigmas tradicionais. Então, não há modelos de conduta, pois quanto mais somos expostos às manifestações artísticas, mais nos colocamos no jogo de oposição característico dos fenômenos humanos.
No caso do erotismo e/ou pornografia na arte, a noção está ligada à construção histórica. Na antiguidade há inúmeras obras licenciosas que só mais tarde foram categorizadas de obscenas. Quem se dedicava a escrever sobre tais conteúdos eram considerados ‘malditos’. O conteúdo sexual está mais para a forma como está representado do que para a polêmica moral que o condena/recusa. Daí a premissa de que o valor da arte não se mede por sua moralidade, mas por sua qualidade estética. O que tem atrapalhado/distorcido o assunto é uma questão de moral social e religiosa, responsável pelos desvios da interpretação.  
Será que ainda hoje as representações da pornografia e do erotismo são vistas como obra de ‘malditos’? Eliane Robert Morais, professora de literatura brasileira na USP, dá uma entrevista reveladora sobre o pioneirismo e o percurso desses estudos nas Universidades (Revista AZmina). Para ela, desde a publicação de 120 dias de Sodoma, do marquês de Sade, a pornografia funciona como um “cardápio de paixões”. Imagem elucidativa para os menos entendidos do assunto que ficam entre pornografia (que “mostra tudo”) e erotismo (o que é “velado”), para a pesquisadora, uma distinção moralista. Não estaríamos a recusar algo inerente aos outros e não intrínseco a nós?! Uma doce recusa a que os olhos teimam em fixar.